HOMENAGEM

Poemas de Miró são transformados em HQ

O livro é composto por trabalhos de Raoni Assis, Ayodê França, Christiano Mascaro, Flavão e Shiko

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 30/04/2016 às 5:56
Shiko
O livro é composto por trabalhos de Raoni Assis, Ayodê França, Christiano Mascaro, Flavão e Shiko - Shiko
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Miró da Muribeca, em presença ou em palavras, é uma parte obrigatória do Recife. Quem circula pelo centro da cidade ou suas periferias vê seus versos ecoarem no abandono, na violência – física ou não –, nos amores terminados. Através do cotidiano, Miró parece que transforma a cidade em algo transcendente. Seja o Miró cronista urbano ou o que conversa com Deus como se o encontrasse em um boteco, seus poemas são uma parte indispensável do repertório simbólico da capital pernambucana. Miró é uma pessoa que se constituiu, ao mesmo tempo, como absolutamente real e imaginária.

Desde que ouviu pela primeira vez o poema Desabafo, sobre o assassinato das adolescentes Tarsila e Maria Eduarda, o artista plástico e ilustrador Raoni Assis alimentava o desejo de transformar os curtos versos de Miró em uma narrativa em quadrinhos. Ele e Sheila Oliveira, produtora da Casa do Cachorro Preto, notaram que vários textos do poeta despertavam imagens fortes em que as lia. Nascia daí a ideia do projeto João Flávio Cordeiro de Oliveira – Tô Miró, que traz adaptações para as HQs de textos do autor, pela mão de cinco quadrinistas. O volume, em edição com capa dura, bancada por recursos do Funcultura, é lançado sábado (30/4), a partir das 18h, na Casa do Cachorro Preto, em Olinda.

Além de Raoni, participam do álbum Ayodê França, Christiano Mascaro, Flavão e Shiko. Os traços poéticos e o apuro gráfico, em um projeto feito por Daaniel Araújo e Celso Hartkopf, revelam um tratamento de luxo para um poeta que, por algum tempo, fui injustamente visto apenas como um dos muitos expoentes da poesia marginal, alguém cuja obra não sobreviveria ao tempo. Miró, em corpo, voz e versos, parece continuar a abrir cicatrizes em que o escuta e lê – a excelente recepção de aDeus (Mariposa Cartonera), e o projeto do Magiluth que interpreta seus textos ressaltam isso.

Em Tô Miró, a homenagem ao autor da Muribeca vai além da reverência: é uma reinterpretação e expansão da sua poética. A escolha dos autores é precisa. Todos, antes de tudo, estão interessados na mesma sensibilidade gráfica diante da dor e solidão humana nos grandes centros urbanos – é Miró quem diz, por exemplo, que “Deus é grande /e o diabo tem um metro e oitenta”. A relação ia além disso, por vezes: Flavão é amigo de infância de Miró e Mascaro já havia transformado poemas dele em HQ para a revista Ragu.

A seleção dos 30 poemas quadrinizados foi feita por Sheila e Raoni. O projeto começou a ser maturado em 2010, mas só com a aprovação no edital do Funcultura foi possível arcar com os custos de impressão das mais de 120 páginas do volume. “Foi na época que Miró passou um período internado no hospital (junho de 2015) que o dinheiro para o livro foi liberado – os diretos autorais serviram como uma ajuda”, conta Sheila. Antes do lançamento, ela mostrou ao autor os seus poemas reinterpretados. “Ele chorou algumas vezes”, relata Sheila. Não é de se estranhar essa comoção: quem já viu Miró abrir as suas cicatrizes pode ter sentido parecido.

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