Biografia

Rita Lee numa biografia onde não há pecado nem perdão

Cantora não doura pílula, nem privilegia melhores momentos

JOSÉ TELES
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JOSÉ TELES
Publicado em 06/12/2016 às 10:18
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Cantora não doura pílula, nem privilegia melhores momentos - FOTO: Foto: divulgação
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Uma revelação de um estupro bizarro com uma chave de fenda, ou o generoso, e já notório, uso de drogas variadas, foram os assuntos mais comentados nas resenhas do livro Rita Lee - Uma Autobiografia que, no entanto, vai muito além de historinhas para alimentar colunas de fofocas de celebridade. A adolescente que caiu no meio do vendaval tropicalista, e contribuiu para virar a MPB de cabeça pra baixo, tem muito para contar desta fase curta e grossa da cultura nacional e, nas quatro décadas seguintes, estas com uma fase de alcoolismo, que culminou com um acidente gravíssimo, um queda da  varanda de sua casa, em que teve que ganhar pinos nos maxilares, e perdeu 40% da audição.

Rita Lee escreve sem se preocupar em fazer análises aprofundadas, nem com o politicamente correto. “Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos -viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela”. Um distanciamento que deve chocar os fãs dos Mutantes, grupo do qual  foi defenestrada sumariamente e, pelo visto, e ainda não superou o episódio “Os Mutantes nunca foram vendedores de disco nem frequentadores das paradas de sucesso em rádios. Éramos apreciados por nossa esquisitice visual e sonora. Hoje somos considerados cult, mas na época ganhamos o apelido brega de “os The Brazilian Bitous (escrito assim mesmo) para orgulho dozmano e um certo constrangimento meu, afinal ser fã dos Beatles não significava querer ser os Beatles”.

Quando se refere a “ozmano” (Arnaldo e Sérgio Baptista) Rita Lee tece comentários implacáveis e constrangedores, que se estendem a pais e irmãos: “Os cinco membros da família sofriam de rinite, respiravam pela boca, babavam muito e cuspiam quando falavam ... aos poucos fui me adaptando aos usos e costumes daquela família que,apesar de não ser muito asseada, me tratava bem e cada vez mais fui conhecendo as idiossincrasias deles”. Quando se refere ao ex-marido Arnaldo, ela não titubeia em revelar intimidades nada edificantes: “Das vezes seguintes que tentamos transar também foi broxante. Eu sentia nojinho das babas dele, que por sua vez confessou que comigo era bem menos emocionante do que com uma boneca inflável”. 

BOTA FORA

“uma escarrada na cara seria menos humilhante. Em vez de me atirar de joelhos chorando e pedindo perdão por ter nascido mulher, fiz a silenciosa elegante. Me retirei da sala em clima dramático, fiz a mala, peguei Danny e adiós. No meio da estradinha da Cantareira a caminho de São Paulo, parei Charles no acostamento e chorei, gritei, descabelei, xinguei feito louca abraçada a Danny, que colaborava com uivos e latidos. Quando nós duas finalizamos a cena eu, a filhinha abandonada, engoli meu orgulho e fui novamente pedir abrigo na casa do pai”, esta reação dela quando Arnaldo anunciou que ela esta fora da banda.

 “Charles” era um jipe 1951, preciosidade da família Jones, que Arnaldo Baptista, algum tempo depois, destruiu batendo num poste (Charles inspirou Jorge Ben a compor Rita Jeep). Danny era uma cadela Collie, um dos muitos animais que a cantora criou, incluindo aí uma jaguatirica (um gato maracajá, que ganhou em Fortaleza), ou duas cobras que salvou da sanha de Alice Cooper, em sua primeira vinda ao Brasil.

Mas nem tudo com os Mutantes foi guerra. Alguém teve a ideia de convidar o grupo para tocar em Lisboa numa progamação que incluía Edu Lobo, que nem cumprimentou o grupo quando se encontram no saguão do hotel. Até início dos 70, Edu Lobo ainda não tinha digerido o tropicalismo, e continuava averso ao rock. Edu cantaria depois dos Mutantes, que se apresentaram, saíram para a rua e cortaram, a canivete, o fio que conectava o teatro a um gerador. Na segunda ida do grupo a Paris abriram para Charles Aznavour diante de uma plateia em que estavam Alain Delon, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, e Marcelo Mastroianni, entre outros. 

No caso de Rita Lee a vingança foi um prato degustado ainda quentinho. Arnaldo e Sergio recusaram-se a gravar José, uma versão de Nara Leão para  Joseph, do grego (exilado na França) Georges Moustaki. Rita Lee gravou a música em seu álbum solo Build Up, e teve seu primeiro hit nacional. Os Mutantes, quando fizeram o programa Som Livre Exportação, tocaram José a contragosto. 

Ela demoraria a a ter outro hit, mas quando aconteceu eles vieram enfileirados. Fase bem detalhada quando comenta sua carreira individual.

 

A ESTRELA ELIS

 Mas os Mutantes permaneceriam com ela. Num dos show do grupo em Itaquera, em São Paulo, mataram um rapaz na plateia. Um crime cometido por um policial. A pedido da mãe do rapaz, ela testemunhou que o assassinato acontecera dentro do clube, e não fora dele, como afirmava o criminoso. 

Três dias depois do testemunho no tribunal, a polícia chegou. Invadiram a casa da cantora, estourada nas paradas, com Ovelha Negra. Não adiantou alegar que não estava fumando maconha, porque estava grávida (começava o namoro com o guitarrista Roberto Carvalho, se marido até hoje). Foi levada num camburão, e presa pela posse de uma quantidade de cannabis que lhe valeu uma sentença de um ano. Passou um mes  meio numa cela comum, com presas comuns.  Elis Regina, que fez o maior escarcéu na sala do delegado do Deic, onde Rita Lee estava presa. Era a cantora maior da música brasileira ameaçando chamar a imprensa se não a deixassem que Rita Lee recebesse um médico. Deixaram. E as duas se tornaram grandes amigas.

A narrativa corre, mais ou menos, na ordem cronológica. Ela se detém bastante na família Jones, a ovelha não era tão negra assim, apesar de ter convencido mr. Charles Jones, seu pai, a dar um pega num baseado com ela. Algum tempo depois, Ela e Gilberto Gil, preso por posse de maconha, na mesma época, celebrariam ambas as penas na turnê Refestança. As indiscrições de Rita Lee, sobre gente bem famosa, incluindo Eric Clapton, socialites paulistas, no livro são deliciosas. De volta de um show, no hotel, o telefone tocou. Era Nelson Gonçalves: “Então Ritinha estou hospedado no mesmo hotel e pergunto se você está a fim de cheirar umas lagartas de f ... as cartilagens? Meu quarto é número tal, não pense bobagem, tenho idade para ser seu pai, só quero boa companhia”, conta um encontro casual com o cantor.

 Para a  autobiografia. Rita Lee foi importante colaboração d jornalista Gui Samora, fã que possui sabe tudo sobre a cantora, e elogiado como “O único jornalista de prestígio que fala bem de mim, apenas porque me ama”.

 

 

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