Música

1967: o ano de Sgt Pepper's e da diluição da psicodelia

The Monkees, com I'm a Believer, foi a banda mais tocada do ano

JC Online
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Publicado em 24/01/2017 às 10:25
foto:  Divulgação/Michael Cooper
The Monkees, com I'm a Believer, foi a banda mais tocada do ano - FOTO: foto: Divulgação/Michael Cooper
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Sem dúvidas, um dos assuntos mais comentados da música em 2017 será Sgt Pepper’s Lonely Heart Club Band, dos Beatles, que este ano completa meio século. Chegam também aos 50 anos, álbuns seminais da música popular do século 20, lançados em 1967, entre eles estão Velvet Underground & Nico, The Doors, ou Between the Buttons, dos Rolling Stones. Todos apenas confirmam que o ano seminal para a música pop foi mesmo 1966. Estes discos foram gravados, inteiros, ou parcialmente, naquele ano, incluindo o Sgt Peppers.

Marcado pela obra prima dos Fab Four, 1967, no entanto, não foi um ano tão rico em álbuns influentes e seminais. Com o LSD como o aditivo do histórico Verão do Amor, quando a palavra “hippie” entrou no vocabulário do planeta, a música que se fez há 50, sobretudo a que saiu de San Francisco, em boa parte foi circunstancial. Os concertos ao ar livre em Haight Ashbury só eram devidamente curtido por quem estivesse com tanto ácido na cabeça quanto os músicos no palco. Dois álbuns de 1967, que se tornaram clássicos, mas não passaram no teste do tempo, The Grateful Dead, estreia da banda homônima, e Surrealistic Pillow, do Jefferson Airplane, este segundo, mais um álbum gravado inteiramente em 1966, porém lançado no ano seguinte.

STONES EM DOSE DUPLA

The Rolling Stones, que se tornara um nome internacional graças a Satisfaction, de 1965, lançou dois álbuns em 1966, o superestimado Between the Buttons e Her Majesties Request. A dupla Jagger & Richards continuavam sendo aprendizes da canção.  Em Between the Buttons apenas duas faixas foram incorporadas ao repertório do grupo, Let’s Spend the Night Together e Ruby Tuesday. As demais só os fãs da banda conhecem. Uma das faixas, Backstreet Girl, é uma das misóginas de uma banda afeita ao tema (Under My Thumb é talvez a canção misógina mais bem sucedida).

“Foi uma festa não produtiva, que eu não organizei, nem queria ir, e da qual fui desconvidado. Me senti redundante. 2000 Light Years from Home e She’s a Rainbow seriam tudo que emergiu daquele esforço psicodélico para suplantar os Beatles”, o comentário é do então produtor e empresário Andrew Loog Oldham, em sua autobiografia Rolling Stoned (2011). Flowers, uma compilação de faixas do Aftermath, de 1966, e Between the Buttons, mais canções de compactos, foi o melhor disco lançado pelos Stones em 1967

Os Beatles foram pela primeira vez massacrados pela crítica, que detestou o filme Magical Mistery Tour, em compensação a trilha veio repleta de grandes canções. Enquanto isto o Sgt Pepper’s continuava sua carreira de um dos álbuns mais influentes da música popular do século 20. O The Who arriscou-se a faze um álbum conceitual, o subestimado Who Sell Out. A pop art tornada música pop. As canções são intercaladas por jingles, alguns autorais, outros da Radio London, lendária emissora pirata, que transmitia de um barco em alto mar, fundamentais para disseminar o rock alternativo americano e inglês nos anos 60.

NO BRASIL

A influência do Sgt Pepper’s chegou ao Brasil, e levou o baiano Gilberto Gil ao sincretismo rítmico, de mesclar o pop internacional com a banda de pífanos, e usar em sua música a demonizada guitarra elétrica (que se usava na MPB desde os anos 50). As lucubrações dele e de Caetano Veloso viraram a mesa do III Festival da Música Popular Brasileira, acompanhados respectivamente de Mutantes e Beat Boys. No entanto os seus primeiros discos com as canções transgressoras só seriam gravados no ano seguinte. O primeiro disco que se pode chamar de tropicalista (embora lançado quando o termo ainda não havia sido inventado pela imprensa) foi um compacto duplo de Nana Caymmi, selo RGE, com Alegria Alegria (Caetano Veloso), Bom Dia (Gilberto Gil/Nana Caymmi), O Cantador (Danilo Caymmi/Nelson Motta) e a hoje obscura O Penúltimo Cordão (Danilo Caymmi/Caetano Veloso/Sergio Fayne).

Os Estados se curvariam ante o Brasil mais uma vez, quando Frank Sinatra ligou para a casa de Tom Jobim para lhe fazer um convite que resultaria num álbum antológico. O convite quase não acontece. O telefone tocou na casa de Tom, no meio de um ensaio. O pianista Sergio Fayne (o mesmo da parceria com Danilo Caymmi e Caetano Veloso, no disco de Naná Caymmi), atendeu e ao ouvir a telefonista dizer que Mr. Albert Sinatra queria falar com Tom Jobim, achou que fosse trote, e desligou. Sinatra ligou de novo, e o resto é história. Os dois fizeram um disco único, até no título. Pela primeira vez o nome do cantor americano está grafado Francis Albert Sinatra para se encaixar com o Antonio Carlos Jobim, do compositor brasileiro.

O ano de Sgt Pepper's seria no Brasil o que 1966 foi para Estados Unidos e Inglaterra, um ano de invenções, descobertas de ruptura, de ÓVNIS. Um destes chamava-se Milton Nascimento, um carioca, criado no interior mineiro, e que aterrissou no Rio, em 1966, trazendo na bagagem canções que não tinham paralelo em nada que se fazia na MPB. Em 1967 venceu a parte nacional do Festival Internacional da Canção com Travessia (com Fernando Brant). A música deu título ao LP de estreia, gravado com o Tamba Trio. Um disco até hoje irrepreensívele

1967 seria também o ano do primeiro álbum de Gilberto Gil, que fez uma temporada no Recife, no TPN, e aqui descobriu que havia mais manifestações populares do que o samba de roda do recôncavo baiano. Neste curto período de um mês, ele acumulou uma bagagem que levou para São Paulo, sem saber exatamente o que queria, mas convicto de que a MPB precisava se livrar da camisa de força da caretice. Ano também em que Chico Buarque desfazia-se de fama de “Novo Noel Rosa”, e cutucava a onça com a vara curta do musical Roda Viva. A música homônima seria uma das mais fortes e bem sucedidas de 1967.

A Jovem Guarda chegou ao auge em 1967, Roberto Carlos e seus súditos ainda insistiam no pop que bem comportado e importado dos americanos e italianos no início da década. Da turma do iê iê iê só quem notou que os tempos tinham mudado foi o mineiro Márcio Greyk. Em seu LP de estreia, ele gravou versões de When I’m Sixty Four, Lucy in the Sky With Diamonds, Penny Lane, Eleanor Rigby, dos Beatles, e de Whiter Shade of Pale, do Procol Harum. Um disco que merecia ser reeditado.

HITS

 Bob Dylan, Leonard Cohen, Beatles, Rolling Stones, Beach Boys ou Jimi Hendrix, para citar alguns dos medalhões, não eram tão tocados quando se pode imaginar.  Conferindo pela Billboad, a revista que desde 1955 retrata o mercado da música nos EUA, a realidade é bem diferente. Os cinco primeiros lugares do hit parade americano no inicio de 1967 eram, pela ordem do sucesso, Kind of a Drag, com The Buckinghans (um grupo de Chicago), I’m a Believer, com The Monkees, Ruby Tuesday, com os Rolling Stones, Georgie Girl, com The Seekers, e (we Ain’t Got) Nothing Yet, com os Blue Magoos.

Na última semana do ano, os Beatles encabeçavam o paradão da Billboard, com Hello Goodbye, seguido por Gladys Knight & Pips, com I Heard Through the Grapevine. Em terceiro, Daydream Believer, dos Monkees. I Second that Emotion, de Smokey Robinson & the Miracles estava em quarto lugar, e no quinto, Woman, Woman, com Union Gap. Embora seja considerado o disco do século, nenhuma das canções do Sgt Pepper’s Lonely Heart Club Band figurou entre os primeiro cinco lugares do paradão da Billboard.

 

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