ENTREVISTA

Socorro Ferraz fala sobre avanços e contradições da Revolução de 1817

A historiadora pernambucana vai participar de mesa sobre a Revolução de 1817 na Fundação Joaquim Nabuco nesta quinta (9/3)

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 08/03/2017 às 5:59
Edmar Melo/JC Imagem
A historiadora pernambucana vai participar de mesa sobre a Revolução de 1817 na Fundação Joaquim Nabuco nesta quinta (9/3) - FOTO: Edmar Melo/JC Imagem
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O general Luís do Rego Barreto, um dos responsáveis por reprimir os revolucionários pernambucanos de 1817, os descrevia de uma forma singular: eram “fantásticas carrancas” guiadas por “contos loucos”, ou seja, ideais insanos. A expressão é o mote da palestra da historiadora pernambucana Socorro Ferraz amanhã, na Fundação Joaquim Nabuco de Casa Forte, às 17h, em uma mesa com Flávio Cabral e José Luiz da Mota Menezes. Nesta entrevista, ela pondera que a raiz republicana da Revolução de 1817 fez o período ser relegado na história oficial e fala dos avanços e das contradições do movimento.

ENTREVISTA

JORNAL DO COMMERCIO – Primeiro, gostaria de que você falasse um pouco sobre o tema da palestra de amanhã, na Fundação Joaquim Nabuco: Os Contos Loucos e as Fantásticas Carrancas.

SOCORRO FERRAZ – Foi uma expressão usada pelo General Luís do Rego, comandante português na repressão à revolução de 1817, em Pernambuco. Ele considerava as ideias liberais radicais dos pernambucanos atos insanos, baseados na literatura das revoluções francesa e americana. Os sonhos de independência que estas ideias escritas produziam no imaginário desses revolucionários o general classificava-os como “contos loucos” e, aos batalhões militares pernambucanos movidos pela guerra de guerrilha organizada pelos pernambucanos, o Luís do Rego denominava “fantásticas carrancas”, numa alusão às estátuas-monstros colocadas na proa dos navios do Rio São Francisco.

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JC – A Revolução Pernambucana de 1817 é, de fato, o primeiro momento em que a contestação à coroa portuguesa sai da mera conspiração. O que faz dessa revolução um momento tão singular para a história de Pernambuco e do Brasil? 

SOCORRO – A Revolução de 1817, foi de natureza republicana, portanto de contestação à ordem monárquica. Ao seu tempo, foi o movimento mais radical e abrangente ocorrido no mundo afro-luso-brasileiro. É nessa revolução que se defende pela primeira vez a independência de Portugal. Embora tenha tido uma cronologia reduzida – de 6 de março a 19 de maio – ela foi a fonte de muitas outras que ocorreram em Pernambuco, como em 1821, quando a posição de Pernambuco diante da Independência se opunha ao modelo de nação de José Bonifácio, e em 1824, com Confederação do Equador. A presença dos ideais franceses, ingleses e americanos esteve muito visível. Este é o momento em que definitivamente o Brasil estaria mais dependente da Inglaterra do que do próprio Portugal. Para Portugal este é um momento muito difícil na correlação de forças externas.

JC – De alguma forma, é um momento mais importante para a história colonial do Brasil que a Inconfidência Mineira? Por que ela foi tão escanteada pela história oficial?

SOCORRO – Primeiro por ter sido um movimento separatista do Império Português. É bom lembrar que a Independência do Brasil não o transformou em uma República, e sim em um Império que durou 57 anos. Durante este período se construiu uma história do Brasil, na qual não havia lugar para exaltação de uma experiência republicana. Grande parte dos historiadores formaram os Institutos Históricos, Geográficos e Arqueológicos do país, que durante todo o império exerciam liderança em relação à produção historiográfica brasileira. As universidades surgem depois. 

Por outro lado, quando a República foi instaurada em 1889, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais mantinham uma certa hegemonia em relação ao poder, inclusive o de pensar a educação e os livros didáticos.

JC – Que grupos e setores do povo participaram da Revolução Pernambucana de 1817? O que isso diz do Pernambuco de então e dos pleitos dos revolucionários?

SOCORRO – Participaram da revolução militares, comerciantes, religiosos e agricultores. A grosso modo podemos dizer que povo e elite participaram. É curioso, sobretudo pelo consenso que em geral envolve grupos sociais antagônicos. Em Pernambuco, a ideia de revolução esteve associada à ideia de libertação. A Revolução de 1817 cabe na explicação de colonizado versus colonizador, principalmente quando esta parte do Brasil colonial atingiu uma certa consciência do seu papel de elite econômica. O governo constituído não foi homogêneo: José Luís de Mendonça, magistrado, liberal moderado ao lado do jacobino Domingos José Martins e do mulato Antonio Pedro Pedroso, capitão de artilharia, maçom e exaltado nativista.

O novo governo enviou a todas as câmaras das comarcas uma Lei Orgânica, que delimitava os poderes do governo provisório enquanto não fosse discutida e votada a Constituição. No dia 9 de março de 1817 decretou a abolição de vários tributos sobre lojas de fazendas, molhados, embarcações, canoas e gado.

ROTEIRO DA REVOLUÇÃO DE 1817

JC – O que a constituição proposta pelos revolucionários diz sobre o movimento? O que nela havia de vanguarda e o que havia de manutenção da ordem vigente?

SOCORRO – O que havia de vanguarda era o equilíbrio entre os poderes, a defesa da liberdade de expressão, liberdade de imprensa, da igualdade de direitos perante a lei, a lei que deve ser cumprida por todos. A garantia da instrução elementar para todos. O artigo 19 da Declaração dos Direitos Naturais e Civis do Homem diz: “Todo homem pode entrar no serviço do outro pelo tempo que quiser, porém não pode vender-se, nem ser vendido, a sua pessoa não é uma propriedade alienável”. Isso, para a época, era de fato vanguarda pois ia de encontro à escravidão. O restante era de manutenção da ordem vigente, como a defesa da propriedade, a soberania nacional, a segurança dos direitos, o respeito às leis, etc.

JC – Que personagens de 1817 são os mais fascinantes para você? Por quê?

SOCORRO – O padre João Ribeiro me parece o mais autêntico revolucionário; aquele que mais incorporou as ideias iluministas recalcando a sua formação teológica. Soube sair do palco antes da derradeira humilhação: a derrota republicana. 

JC – A revolução fracassou rapidamente também porque teve seu estopim antecipado. Havia chance dela ser bem-sucedida? Ou havia, de todo modo, uma ingenuidade revolucionária?

SOCORRO – Sempre há chances de que um movimento, algo novo, venha a dar certo. O fracasso da revolução se deve há vários fatores: as tropas revolucionárias estavam animadas, mas não estavam militarmente bem preparadas; houve divergências entre os líderes revolucionários, principalmente no que se referiu à abolição da escravidão. Viver ingenuamente seu presente não é uma especificidade revolucionária. Todos nós vivemos de forma ingênua o presente. Somente quando o presente se torna passado é que podemos avaliá-lo.

VEJA ANIMAÇÃO SOBRE A REVOLUÇÃO DE 1817

 

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