Afrofuturismo

Arte e neurociência se encontram no trabalho de Nwando Ebizie

Artista britânica está no Recife para troca de experiências com criadores locais

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 19/02/2018 às 14:57
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Artista britânica está no Recife para troca de experiências com criadores locais - FOTO: Divulgação
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Há cerca de um ano, a artista Nwando Ebizie descobriu que a forma como ela via e decodificava o mundo não era igual à da maioria das pessoas. Mais do que por questões filosóficas ou culturais, essa idiossincrasia se manifesta devido a uma condição neurológica chamada de “neve visual”. Pouco conhecido, o fenômeno faz com que o indivíduo enxergue uma espécie de chuvisco constante, como a estática de um aparelho de TV. Essa revelação fez com que ela expandisse o seu já vasto campo de pesquisa, incorporando a neurociência ao seu fazer artístico. Atualmente no Recife para um intercâmbio, a britânica busca aplicar esses novos conhecimentos às suas investigações sobre Afrofuturismo e os rituais oriundos da diáspora africana nas artes performáticas.

Filha de nigerianos, ela atua em diferentes frentes artísticas, da música (ela canta, produz e é DJ), às artes visuais e performáticas, classificando seu trabalho como multidisciplinar. Suas criações se localizam em um espaço de interseção, recusando-se a se encerrar em um único gênero. Ela considera o estado colaborativo, a abertura para o encontro com o outro, como sine qua non e, dentro dessa proposta, está no Recife para realizar uma residência promovida pelo The British Council em parceria com o Paço do Frevo. Suas vivências na capital pernambucana partem principalmente da vontade de observar manifestações culturais com raízes na Afrodiáspora, como o frevo e o maracatu.

“Assim que cheguei em Pernambuco, fui a Olinda e presenciei uma prévia carnavalesca. Fiquei impressionada com a efervescência, o ritmo, a energia. É forte ver como elementos opressivos, frutos de uma ação histórica de violência, como foi a diáspora, podem ser subvertidos pela força do povo. Ainda não sei o que vai sair dessa experiência, mas quero entender como tipos particulares de música, como o frevo, que provêm da diáspora africana, podem provocar esse espectro de experiências compartilhadas”, pontua.

O interesse em entender como os rituais e seus elementos performáticos atuam nessas frentes coletivas e individuais ganhou novos contornos desde que a neurociência passou a integrar sua pesquisa. Apesar de parecerem dicotômicos, a união de arte e ciência atende a uma visão holística da artista e também se insere dentro Afrofuturismo.

“Como contar a alguém como você percebe a realidade? Isso é muito subjetivo porque temos a tendência natural de nos tomarmos como padrão. Além de saber da minha condição, recentemente descobri que um amigo tem sinestesia (condição neurológica que faz com que o estímulo em um dos sentidos cause reações em outros). A experiência de mundo dele é diferente da minha, que difere da sua. Essa questão passou a ser um elemento forte do meu trabalho. Atualmente, colaboro com alguns neurocientistas para investigar esses efeitos individuais em experiências coletivas, principalmente no que diz respeito aos ambientes e situações que podem estimular a empatia e a intimidade”, explica Nwando.

Esse fascínio pela potência dos rituais se expressa também na atuação da britânica como DJ e produtora musical (na capital pernambucana, ela colocou som no Edf. Texas, quinta passada, com DJ Dolores). Para ela, por exemplo, observar como o público de uma festa se comporta diante de seu set – reagindo efusiva ou friamente – é revelador.

Na agenda de Nwando na cidade, além de encontros com artistas como o dançarino Manuel Castomo, moçambicano radicado no Recife, visita a terreiros, ao Maracatu Estrela Brilhante, imersão em aulas de frevo, entre outras. “Minha proposta é entender como experiências a exemplo do frevo ou do maracatu podem ser tão fortes quanto condições neurológicas, no sentido de fazer com quem sua percepção do entorno seja singular”, explica.

COQUETEL DE ENERGIAS

Esta não é a primeira vez de Nwando no Brasil. Em 2010, ela trabalhou na concepção musical do espetáculo Hotel Medea, apresentado no Oi Futuro do Rio de Janeiro. O teatro, a dança e a música, aliás, são também elementos indissociáveis do seu ofício. Todos esses elementos estão presentes em The Passion of Lady Vendredi, trabalho em que coloca no centro do palco seu alter ego, que dá nome ao espetáculo, uma espécie de entidade ancestral e futurística.

Em entrevista ao site britânico Female First, ela explicou que a personagem era um mergulho na sua “ancestralidade, legado cultural e raízes. Ela é um coquetel perigoso de energias”. Para a artista, no entanto, não interessa colocar a plateia em um espaço segregado em relação ao artista; o espectador é, também, participante do ritual construído por ela.

“Não conseguiria ficar presa a apenas uma plataforma. As ideias são múltiplas e os meios de executá-las também devem ser. A ideia do Afrofuturismo passa por essa percepção de que as tecnologias do passado, da ancestralidade afro, estão aliadas à ideias de futuro para construirmos algo novo. Quase uma ficção científica. É isso que me interessa”, reforça.

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