HISTÓRIA

Livro reúne documentos que revelam repressão após a Revolução de 1817

A obra, com material do Arquivo Público, é publicada pela Cepe Editora e vai ser lançada quinta (1/8)

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 26/02/2018 às 8:15
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A obra, com material do Arquivo Público, é publicada pela Cepe Editora e vai ser lançada quinta (1/8) - FOTO: Reprodução
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Não faltaram homenagens ao longo do bicentenário da Revolução Pernambucana de 1817, iniciado em março do ano passado. Para encerrar esse calendário de celebrações, que teve lançamentos, seminários, exposições e homenagens, nada mais justo do que publicar um livro que ajuda a ver como foi a vida depois da repressão do movimento. É justamente o que faz o volume Memorial do Dia Seguinte, a Revolução de 1817 em Documentos da Época, editado pela Cepe Editora, que será lançado na próxima quinta, às 19h, no Acervo Público de Pernambuco.

Através principalmente de cartas da época, o livro, organizado pelo jornalista Evaldo Costa e pelos pesquisadores Hildo Leal da Rosa e Débora Cavalcantes de Moura, vai traçando um panorama da repressão e da recontagem da história pelos vencedores do embate. Muitas são questões burocráticas, como registros de prisões e pedidos de honraria. Outras trazem militares e gestores jurando que se mantiveram leais à Coroa Portuguesa durante a revolução. As melhores, no entanto, são as que permitem ver os dramas humanos no meio da repressão – e os lados mais absurdos dela.

Um exemplo é o pedido de uma viúva para receber o soldo do seu marido, falecido na revolta. Além disso, há uma carta de um oficial que pede ao governador de então, Luiz do Rego Barreto, permissão para se casar com a filha de um rebelado. O fato do tema ser alvo de consulta oficial só mostra o quanto foram perseguidos os derrotados. A resposta negativa para a solicitação do oficial surpreende: “consulte diretamente Sua Majestade, o rei de Portugal”.

“Esses documentos mostram claramente a construção da história pelo vencedor, uma das regras da história. São manifestações de pessoas que não tinham poder nenhum, que tinham que sobreviver, diziam em documentos muito provavelmente o contrário do que pensavam”, comenta Evaldo. “É um resgate que mostra que a história escrita pelos vencedores prevalece por algum tempo, mas não em definitivo. O bicentenário da Revolução de 1817 mostrou que o grito silenciado ecoa na história e serve de guia para o presente e para o futuro.”

Para Evaldo, o livro é uma espécie de “diário da velha ordem” e mostra essa negociação das pessoas com o poder, que se impôs pela força e pelo medo. Ele lembra a frase de Ariano Suassuna, que dizia que “a esperteza é a coragem do pobre”. Cita o exemplo de um soldado que tenta alegar que acompanhou os revoltosos sem saber o que estava acontecendo e, assim, se aquartelou com eles, mas que não era um revolucionário.

“São documentos de 200 anos, guardados em posse do Arquivo Público. Agora, parte deles foi digitalizada e, com o livro, essa história vai poder circular mais”, comemora. O livro ainda conta com uma introdução do historiador Flávio José Gomes Cabral, que contextualiza os eventos da revolução. No texto, ele lembra a perseguição severa: quem escondesse algum dos réus procurados seria submetido à pena de morte. “O escravo ou escrava que os denunciar terá imediatamente em prêmio a sua liberdade, o soldado que os prender será promovido a sargento, os oficiais inferiores terão a patente de alferes, e os oficiais de patente, um posto de acesso, e se for paisano o que os denuncie ou prenda se lhe darão quatrocentos mil réis”, ainda dizia o governo.

Sobre a participação de escravos, Flávio ressalta acusações de que “insultaram seus antigos benfeitores, seus senhores e senhoras”. “Com a derrocada da revolução, muitos negros foram perseguidos e presos. Surrados nas grades da cadeia até sangrarem”, relata. Em um ofício escrito por Rego Barreto, diz que os escravos que apoiaram a revolução “fizeram lembrar com frequência aos moradores desta Capitania às cenas de São Domingos” – referência à Revolução Haitiana, guerra que acabou com a escravidão no Haiti.

Uma proclamação do governador determinava a destruição de documentos dos revolucionários, pedindo que “desapareça todo e qualquer testemunho que possa transmitir à posteridade fatos autorizados por uma rebelião tão desacordada, injusta e sacrílega, devendo existir tão somente no coração dos pernambucanos o horror de tão enorme crime”.

DIVULGAÇÃO

Para Evaldo, a divulgação da Revolução de 1817 ao longo do ano foi positiva. “Falta muita coisa, na verdade, pois foi um movimento que foi apagado da historiografia oficial, foi chamado de ‘nota ao pé da página’, quando possui, em vários sentidos, uma dimensão bem mais importante que a conspiração da Inconfidência Mineira”, defende o jornalista.
Ele destaca que a produção realizada – em eventos, em obras e em escolas – destacou a importância da Revolução Pernambucana para o próprio Estado. “Sabemos muito mais sobre o tema hoje. É muito importante, politicamente, que a revolução seja revivida do jeito que foi por Pernambuco. E o Brasil precisa olhar mais para ela. Cabia ao governo, às universidades, ao Instituto Arqueológico, à Assembleia Legislativa, às pessoas físicas e a outras instituições daqui fazer o que fizeram. A história de 1817 tem um potencial didático e mobilizador muito importante que precisa ser permanentemente realçado, para que façamos justiça e aprendamos a não nos calar”, reitera o organizador do livro.

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