Canto político

FIG 2018: Daniela Mercury critica censura de peça com atriz trans

Cantora fez show catártico e político, sábado (21), e se posicionou contra o conservadorismo

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 22/07/2018 às 17:28
Felipe Souto Maior/Secult-PE
Cantora fez show catártico e político, sábado (21), e se posicionou contra o conservadorismo - FOTO: Felipe Souto Maior/Secult-PE
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O episódio de censura envolvendo a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, retirada da programação oficial do 28º Festival de Inverno de Garanhuns, foi discutido com ênfase, sábado (21), no maior palco da cidade, o Mestre Dominguinhos. Daniela Mercury, em seu show apoteótico, fez um discurso incisivo contra o preconceito e a opressão das minorias e prestou sua solidariedade à atriz Renata Carvalho, uma mulher trans, protagonista do espetáculo.

A entrada de Daniela na programação deste ano aconteceu quase de última hora, para substituir Maria Rita. Mas, não é exagero dizer que poucas artistas de grande apelo popular encarnam tão bem quanto ela o tema deste ano do FIG, Um Viva À Liberdade. Pouco antes de subir no palco, em conversa com a imprensa, a cantora foi questionada sobre a censura à peça. Disse que não sabia com detalhes o que tinha acontecido, mas que iria se informar.

Antes de começar seu show, ligou para Renata Carvalho e, depois, em frente à multidão de Garanhuns, entre vários hits, como Nobre Vagabundo, Swing da Cor e o Canto da Cidade, reforçou a importância de resistir ao conservadorismo e de respeitar os direitos de todos.

“Ela é Jesus, sim. Jesus Cristou, eu estou aqui, sou gay, sou lésbica. E daí?”, reforçou antes de entoar Tempo Perdido, de Renato Russo. A artista disse ainda que é religiosa, mas que a bíblia não é a Constituição não se pode proibir ou conceituar o que é ou não arte por convicções religiosas. Ela chamou ao palco o ator pernambucano Armando Babaioff, que também fez fala contra a censura. Daniela ainda beijou a esposa, Malu Verçosa, e projetou imagens do casal no telão.

Como já é sua marca, a artista fez uma apresentação de fôlego, que mobilizou o público. A catarse coletiva, a alegria, em um momento social tão tenso, foi também um ato político.

Antes de Daniela Mercury, Pedro Luís apresentou Pérolas Negras, show em homenagem a Luiz Melodia. Além da canção homônima, o músico, acompanhado por Élcio Cáfaro (Bateria), Miguel Dias (baixo) e Pedro Fonseca (teclado) entoou faixas como Estácio, Holly Estácio e Magrelinha. A noite de sábado do FIG 2018 contou ainda com Flávio Venturini e o projeto MPBossas, com André Rio, Roberto Menescal e Luciano Magno.

SINGELO

Na Catedral, dentro da programação do Conservatório Pernambucano de Música, o sábado recebeu o show 10 Anos Sem Caymmi, com Danilo Caymmi (Voz e Flauta), Flávio Mendes (Violão), Itamar Assiere (Piano), Paulo Vicente (Bateria), Jefferson Lescowich (Baixo) e Nilson Raman (Mestre de Cerimônias). À noite, Ná e Dante Ozzetti, junto à cantora Patrícia Bastos, fizeram uma apresentação emocionante, interpretando o repertório autoral de Dante, como Musa da Música, Dentro  e Fora e Os Passionais.

PARA CARRERO

Homenageado deste ano na Praça da Palavra, espaço do FIG voltado para a literatura, Raimundo Carrero lançou, sábado, o livro Condenados à Vida (Cepe Editora). A obra reúne quatro livros do escritor: Maçã Agreste, Somos Pedras que se Consomem, O Amor Não Tem Bons Sentimentos e Tangolomango.

As atividades para o autor natural de Salgueiro começaram com a leitura dramatizada de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão, pelo grupo Violetas da Aurora, que se debruça sobre a obra de Raimundo. Em seguida, foi exibido o documentário Carrero, o Áspero Amável, de Luci Alcântara, que propõe uma imersão no processo criativo do artista e evidencia sua dedicação às letras.

“Toda vez que vejo esse livro fico muito feliz e penso que ali estão trinta anos da minha vida. É o testemunho de que eu existi. Na minha obra, tentei descobrir o mistério da vida”, afirmou.

Carrero conversou ainda com o jornalista e escritor Marcelo Pereira, editor deste JC e responsável pela fotobiografia A Fragmentação do Humano. Marcelo observou que a angústia é um sentimento muito presente no processo do escritor. “A literatura é acompanhada de grande angústia. Só duas coisas não me assustam: a loucura e a velhice”, ressaltou e disse ainda que seu maior sonho, agora, é escrever uma autobiografia.

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