Mudanças

Moralismo e ativismo transformam tradições do carnaval carioca

O prefeito Marcelo Crivella, por questões religiosas, não comparecerá ao sambódromo. Ativistas exigem que minorias sejam respeitadas

Sebastian Smith
Sebastian Smith
Publicado em 21/02/2017 às 17:53
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O prefeito Marcelo Crivella, por questões religiosas, não comparecerá ao sambódromo. Ativistas exigem que minorias sejam respeitadas - FOTO: Divulgação
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Quando a Globeleza invadiu as telas da TV para anunciar a cobertura do carnaval do Rio, os espectadores levaram um susto: este ano ela apareceu vestida. A bela dançarina é uma tradição anual. Sempre jovem, linda, negra e com samba no pé, ela costuma mover os quadris em um clipe curto ou em vinhetas que apresentam a programação da maior festa popular do país.

Desde sua primeira aparição, em 1991, a Globeleza se apresentava nua, vestindo apenas sapatos de salto, lantejoulas e uma camada ou duas de tinta corporal. Assim, a apresentação no mês passado da mais recente musa, Erika Moura, usando coloridas roupas folclóricas, virou assunto nacional.

"Pela primeira vez, a Globeleza está vestida" e "Quem vestiu a Globeleza?" foram algumas manchetes. Mas o novo visual da musa é apenas um dos sinais da mudança da moralidade no Brasil, enquanto os foliões se preparam para a festa de Momo, que começa oficialmente na sexta-feira.

 

Prefeito de fora

 

O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, bispo evangélico licenciado eleito ano passado na onda conservadora que varreu o país, não deve participar da festa do carnaval. Embora a informação não tenha sido confirmada, o secretário da Cultura diz ter sido escalado para substituir Crivella na sexta-feira na tradicional entrega das chaves da cidade ao Rei Momo.

Visto que o carnaval é o maior evento anual da cidade do Rio, atraindo aproximadamente um milhão de turistas, a ausência do prefeito pode causar estranhamento. Crivella, sobrinho de Edir Macedo, o bilionário fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, seria o primeiro prefeito em exercício a perder o carnaval. Sua ausência causaria ainda mais estranhamento, uma vez que seu antecessor, Eduardo Paes, exalava alegria com uma cerveja na mão e um tamborim na outra.

Mas o prefeito parece imperturbável diante da polêmica. Seu gabinete só informou que se recusa a comentar "especulações sobre o destino do prefeito Marcelo Crivella no período do carnaval". Mas outro ex-prefeito, César Maia, não parece contente. "Eu entendo que por sua religião ele não queira sambar ou algo assim. Mas a presença dele, descendo a pista, para passar de cada escola, é imprescindível", declarou ao jornal O Globo.

 

Objeto sexual é passado 

 

O conservador Crivella pode achar a libertinagem carnavalesca demais para o seu gosto, mas é a pressão da esquerda que tem tido o maior impacto.

A Globeleza sempre foi rotulada por ativistas que consideravam que sua nudez reforçava imagens populares de mulheres negras como objetos sexuais. Também se enfureceram por um episódio em 2014, quando a dançarina escolhida por concurso foi considerada negra demais e foi substituída no ano seguinte por Erika Moura, de pele mais clara. A TV Globo minimizou a mudança, este ano, para uma Globeleza vestida, afirmando apenas que queria enriquecer a vinheta e que "a boa acolhida do público mostra que fomos no caminho certo".

Mas Luana Genot, fundadora de uma organização sem fins lucrativos que promove a igualdade racial, chamada ID_BR, comemora a releitura da Globeleza. "É algo pelo que o movimento feminista negro tem lutado para conseguir por anos e anos", disse. "Nossa luta agora é para que as pessoas vejam que (as mulheres negras) não podem ser reduzidas a este estereótipo", acrescentou. "As pessoas apenas desligavam a TV e enviaram uma mensagem de que os negros não querem mais ser retratados dessa maneira", concluiu.

 

Mudança de música 

 

A música é outro campo de batalha. As feministas que lutam contra o assédio sexual apresentam um novo hino do carnaval, cantado por Bruna Caram e Chico Cesar, que mistura o ritmo dançante com a promessa de respeito: "Não importa o que é que você vai vestir, eu não vou te tocar sem você consentir".

Há, também, um acalorado debate sobre alegações de sexismo e racismo nas letras de algumas marchinhas, por exemplo no uso da palavra "mulata", de forte carga pejorativa, para designar as mulheres mestiças. Muitos blocos decidiram retirar estas músicas, muitas delas escritas mais de cinquenta anos atrás, de seu repertório.

Débora Thomé, fundadora do bloco feminista Mulheres Rodadas, explica que a maré está mudando. "É algo novo. Muitas pessoas falavam durante por anos, mas não tanto como agora", contou. "No nosso bloco, nós tocamos cerca de dez músicas e escolhemos entre as músicas cantadas por mulheres ou compostas por mulheres e que tenham letras engraçadas ou de empoderamento", acrescentou.

No entanto, o compositor João Roberto Kelly, autor de marchinhas clássicas, como Menino Gay e Maria Sapatão, acusa as feministas de estragar a festa. "Nunca vi um patrulhamento tão grande, nem no tempo da ditadura", protestou em declarações ao jornal O Estado de S. Paulo.

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