'Abandonado'

Laurentino Gomes fala sobre Museu Nacional: 'Era um museu órfão'

O escritor e jornalista Laurentino Gomes, autor de '1808', '1822' e '1889', falou sobre a situação que culminou no incêndio do Museu Nacional

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 05/09/2018 às 12:53
Foto: Divulgação
O escritor e jornalista Laurentino Gomes, autor de '1808', '1822' e '1889', falou sobre a situação que culminou no incêndio do Museu Nacional - FOTO: Foto: Divulgação
Leitura:

Em entrevista a Rádio Jornal, o escritor e jornalista brasileiro Laurentino Gomes, popular por best-sellers históricos, como 1808, 1822 e 1889, fez comentários sobre o contexto que culminou no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. "Eu não diria que aquele museu fosse especialmente amado, ela era pouco visitado, poucas pessoas conheciam. Ele estava mal cuidado, estive lá várias vezes, impressionado com a situação do local", afirmou Gomes.

Para o escritor, a comoção nacional está mais relacionada ao próprio Brasil do que ao museu, já que ele faz parte de uma sequência de más notícias. Ele ainda afirma que a população não conhece a história do país e não valoriza os locais relacionados a ela. "A comoção tem mais a ver com o que gostaríamos de que o Museu tivesse sido do que ele realmente é. Ali tem um pedaço da identidade brasileira que ficou exposta, uma espécie de sonho, uma projeção do que o Brasil poderia ter sido e não foi", explica.

Gestão defasada

Entretanto, ele atribui boa parte da culpa do descaso ao modelo de gestão dos museus. "Visitar museu no Brasil é uma experiência desagradável, o acervo é mal organizado e mal identificado e você é mal recebido. Não é que o brasileiro não gosta de museu, o brasileiro não tem museu adequado que convide a população a visitá-lo. Lá fora, os museus estão nos principais roteiros turísticos, eles vão ao Louvre, ao Museu de Nova York", afirma.

Dentro desse contexto, muito dessa não proximidade da população apontado por Laurentino vem da falta de interesse por parte de quem cuida, transformando os espaços em apenas "depósitos de coisas antigas", sem caráter didático e educacional. "São cabides de empregos mal remunerados e mal reconhecidos. Eles têm uma burocracia em que ficam contando tempo que falta para aposentadoria e não têm menor interesse em acolher visitantes", salienta.

O modelo de gestão do Museu Nacional é colocado em uma comparação com o realizado em lugares como Portugal, em que se há parcerias público-privadas ou gestões privadas, com as instituição fazem dinheiro e se tornam financeiramente autônomas, se afastando da visão estadista e burocrática que acredita haver no Brasil. Gomes reitera que o Museu Nacional era parte de um loteamentos de partidos políticos, considerados base do governo e que, mesmo com o orçamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, responsável pelo local, aumentando, o dinheiro destinado para o Museu diminuía.

"Fica um jogo de empurra-empurra, a esquerda dizendo que é culpa da direita, a direita da esquerda, os funcionários se comportando como se fossem vítima da situação, os pesquisadores também e os pesquisadores também. O Museu pegou fogo por falta de pai e mãe, era um museu órfão, órfão de visitantes, de gestores, de políticas públicas. É um coitado que morreu por ser mal amado, abandonado e entregue a sua própria sorte", conclui.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias