CONJUNTURA

Quanto tempo vai levar para o Brasil recuperar o selo de bom pagador?

Recuperação envolve os ambientes interno e externo e o fim da crise política. Mas os analistas acreditam que sinais de reversão não devem aparecer antes de 2017, numa visão otimista

Raissa Ebrahim
Raissa Ebrahim
Publicado em 17/12/2015 às 11:11
Fotos: AE e AFP
Recuperação envolve os ambientes interno e externo e o fim da crise política. Mas os analistas acreditam que sinais de reversão não devem aparecer antes de 2017, numa visão otimista - Fotos: AE e AFP
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Aconteceu o esperado. A  Fitch Ratings retirou ontem o chamado grau de investimento do Brasil. É a segunda agência de risco a entender que o Brasil não é mais um bom pagador. Em setembro, a Standard & Poor’s (S&P) colocou o País  em grau especulativo (“junk”, “lixo” em português). A Moody’s deve seguir o mesmo caminho. Fitch, S&P e Moody’s atuam como SPCs globais, verificando as finanças de países e empresas.

Com praticamente todos os seus fundamentos econômicos deteriorados, o Brasil vai demorar para voltar ao patamar da virada da última década. Precisar quando recuperaremos o selo de bom pagador e, portanto, a credibilidade, é quase um exercício de futurologia. Isso porque envolve os ambientes interno e externo e o fim da crise política (o que parece cada vez mais difícil). Mas os analistas acreditam que sinais de reversão não devem aparecer antes de 2017, numa visão otimista.

Em setembro, a economista do Itaú Julia Gottlieb, responsável pela análise de contas externas e taxa de câmbio, publicou estudo mostrando que a recuperação do grau de investimento demora 7,2 anos, em média. Alguns países recuperaram o selo mais rapidamente (três anos, em média) ou mais lentamente (em média, dez anos). A ex-analista no Chief Economist Office de América Latina do Banco Mundial apontou que razão dívida/PIB, taxa de poupança e nível de inflação parecem estar associados ao tempo de recuperação.

Em 2008, segundo ano do segundo mandato do governo Lula, o Brasil obteve da S&P seu primeiro selo de grau de investimento. Lula, que teve o mérito de manter a política de austeridade fiscal do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, comemorou com euforia e transformou a conquista num grande elemento de marketing.

 Em 2011, primeiro ano da Era Dilma, o selo foi dado pelas duas outras agências simultaneamente. No decorrer do primeiro mandato de Dilma e neste ano de 2015 (primeiro ano do 2º mandato), uma série de erros na condução da política econômica  mudaram nosso cenário macroeconômico.

Intervencionismo estatal, incentivos fiscais indiscriminados, investimentos errados e, sobretudo, aumento da dívida pública minaram os acertos do passado. Quando quis corrigir os erros com um ajuste fiscal, o governo Dilma esbarrou numa crise política gerada por um megesquema de corrupção dentro do governo Lula, o petrolão. E o ajuste, sabotado muitas vezes por gente do próprio governo, ficou em segundo plano.

É lamentável a situação em que chegamos. Demorou bastante tempo para que nossa economia se estruturasse. As bases remontam ao Plano Real, em 1994, e à criação da Lei de Responsabilidade Fiscal, nos anos Itamar Franco e, sobretudo,  FHC. Foi preciso controlar inflação, manter o câmbio flutuante,  gerar superávit primário, diminuir nível de endividamento  e assim consolidar expectativas dos investidores.  

Entre  2011 (quando tínhamos o grau de investimento das três agências) e 2015, quando  a economia se desestruturou são apenas quatro anos. “Os pilares começaram a ser minados a partir da substituição de diretores do BC de pessoas mais conservadoras por gente mais disposta a riscos”, diz Luiz Flávio Maia Filho, professor do Ciências Econômicas na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Ele também lembra a contabilidades criativas e a artificialidade de preços para segurar a inflação. Ignacio Crespo Rey, da Guide Investimentos, aposta que a recuperação “vai demorar muito tempo, principalmente porque as agências olham não só para o ano que vem, mas toda uma trajetória”. Neste atual cenário, ele acredita ser difícil uma reversão pelo menos até 2018. Isso se a crise política acabar e o governo começar a governar.

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