TRADIÇÃO

Queijo do reino: história e peculiaridades do rei do Natal

Trazido da Europa no período colonial, produto caiu no gosto dos pernambucanos, maiores consumidores do País

Luiza Freitas
Luiza Freitas
Publicado em 25/12/2015 às 15:02
Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Trazido da Europa no período colonial, produto caiu no gosto dos pernambucanos, maiores consumidores do País - FOTO: Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
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atualizada às 10h38 do dia 18 de dezembro de 2019

Há mais de 200 ou até 300 anos, uma iguaria cruzou despretensiosamente o Oceano Atlântico para compor a mesa de nobres que viviam no Brasil. O queijo do reino é tradição natalina dos pernambucanos até hoje, mas ficou quase desconhecido em algumas partes do País. Mesmo sozinho, o Nordeste conseguiu garantir que o produto, visto como um dos itens mais sofisticados – e caros – do período de festas, mantivesse a margem de vendas no ano em que a economia castigou quase todos.

Produtora de queijo do reino há cem anos, a marca Regina, por exemplo, afirma que a região é responsável por 90% do consumo do produto. Desse número, 45% vai para a mesa de pernambucanos. “Quase metade do nosso faturamento dessa época é com as vendas em Pernambuco. Há uma cultura muito forte, que fica evidente no Natal, diferente das outras regiões. E este ano, por incrível que pareça, foi melhor do que esperávamos”, garante o gerente comercial de vendas no Nordeste, Antônio Alves.

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O melhor, em um ano difícil, é ao menos repetir o resultado do mesmo período de 2014. A empresa conseguiu fazer isso oferecendo o produto em uma nova embalagem, uma “meia lata”. “Fizemos um teste no fim do ano passado. A ideia era oferecer uma quantidade menor e, consequentemente, um preço também menor, mas mantendo o charme da lata”, explica Alves. No lugar do 1,2 quilo da esfera tradicional, muitos consumidores preferiram levar a metade em uma “cuia” de 600 gramas.

Queijo do reino no Natal

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Posted by Jornal do Commercio on Sexta, 25 de dezembro de 2015

A indústria é de Minas Gerais, onde ficam quase todas as fábricas de queijo do reino – apesar de o Estado ter um consumo irrisório do produto. Também vem de lá a marca Borboleta, lembrada com saudosismo pelos mais antigos. Sua produção pertence hoje aos Queijos Millano, que embala o mesmo produto com embalagens de marcas distintas. “A empresa comprou a licença da marca Borboleta e pagamos os royalties, mas os queijos vêm da mesma fábrica”, explica a representante comercial da Millano em Pernambuco, Solange Pereira. 

As duas marcas produziram para o último trimestre deste ano 600 toneladas de queijo do reino, sendo 200 para Pernambuco. A Bahia é outro grande consumidor, mas lá a tradição do consumo é mais forte durante as festas juninas. “Temos combatido essa desigualdade de vendas ao longo do ano com ações para incentivar o consumo todos os meses”, revela Solange. Segundo ela, a estratégia nos demais meses é vender o produto fatiado, formato que é responsável por 75% do consumo entre janeiro e setembro.

Mesmo sem divulgar números, a mais antiga fabricante desse tipo de queijo, a Jong (fundada em 1908), confirma que o movimento de vendas do fim de 2015 foi de crescimento em relação ao mesmo período de 2014. A marca que hoje pertence à Vigor também tem Pernambuco e Bahia como principais mercados e afirma que a venda do produto “cresce em duplo dígito” no fim do ano em comparação com os demais meses.

Fabricação complexa justifica preço

É comum que o valor simbólico influencie o preço da etiqueta de produtos sazonais. Independentemente desse fator, o queijo do reino é, sim, um produto caro. Para a fabricação de um quilo dele são necessários, em média, 14 litros de leite. Além disso, a produção, ainda muito artesanal, e a distância das fábricas – a maioria localizada no Sudeste – ajudam a encarecer a iguaria.

O processo de fabricação leva, no mínimo, dois meses. É o tempo de maturação (período em que há importantes reações físicas, químicas e biológicas) que vai determinar a coloração, consistência e sabor do queijo. No caso do queijo do reino, quanto mais tempo nesse processo – em que o produto ainda precisa ser virado diariamente – mais escuro, de sabor forte e consistência seca ele vai ser.

“É um queijo caro. É preciso virar todos os dias, ter mão de obra para isso, gastar energia para manter a temperatura ideal durante esse tempo. Depois, eles ainda são pintados um por um. É um processo artesanal”, detalha a proprietária da Campo da Serra, laticínio fundado em Pombos, Agreste de Pernambuco. A empresa produz queijos do reino de três tipos: bronze (com três a seis meses de maturação), prata (seis a nove meses), ouro (nove meses a um ano) e diamante (de um a dois anos).

Para uma melhor preservação, a casca tem 10% de sal a mais que o miolo amarelo, em média. Isso porque o produto fica em salmoura enquanto está na cura durante 2 a 3 semanas. E para protegê-lo e evitar a formação de bolor por fungos, ele é banhado em uma fina camada de parafina, semelhante à que se usava para dar firmeza aos chocolates. Mas recentemente, a parafina passou a ser substituída por uma película de resina plástica e o queijo também vem agora empacotado a vácuo, para durar mais um pouco. Para dar a cor característica da casca, são usados corantes artificiais ou naturais, feitos a base de urucum ou beterraba.

Queijo do reino deriva do holandês edam

Cabe a Portugal o que há de “reino” no queijo. Foram os portugueses que introduziram aqui o consumo do produto, que na Europa tinha nome e sabor diferente. Produzido na Holanda com o nome de queijo edam – mais claro e suave –, ele acabou sofrendo mudanças durante a viagem através do Atlântico devido ao tempo, umidade e temperatura. O resultado é que o queijo (vindo) do reino acabou sendo produzido em terras brasileiras já com essas adequações.

Apesar de a origem do nome parecer bem clara, a razão para o produto ter sido incorporado à cultura pernambucana não segue a mesma linha. Segundo a pesquisadora gastronômica Maria Lecticia Cavalcanti, o queijo só chegou ao Brasil em 1808, com a vinda da corte portuguesa. “Como é um queijo que remetia ao que era produzido pelos holandeses (queijo edam), é possível que os descendentes que permaneceram aqui após a ocupação holandesa tenham contribuído para essa incorporação. Mas não há uma comprovação”, pondera Maria Lecticia, autora de livros como Gilberto Freyre e as aventuras do paladar.

Durante décadas, o queijo foi apenas importado da Holanda através dos portugueses. Na tentativa de conservar o produto – bastante perecível para uma viagem de navio –, o queijo passou a ser embalado em latas, como é conhecido atualmente. 

Apenas no fim do século 19 foi criada a primeira fábrica de queijo do reino no País, na região da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. O local reunia as condições geográficas mais parecidas com as da Europa. Segundo José Osvaldo Albano do Amarante, em seu livro Queijos do Brasil e do mundo, foi o pecuarista Carlos Pereira Sá Fortes quem importou vacas holandesas, comprou maquinário alemão e holandês e contratou os técnicos Alberto Boeke e Gaspar Jong para montar a produção industrial, que permanece concentrada até hoje em Minas Gerais.

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