Eleições 2018

Pobreza no Nordeste é grande desafio para candidatos à Presidência

Nordeste tem alto índice de famílias abaixo da linha de pobreza, um dos problemas a serem enfrentados pelo novo presidente

Felipe Amorim
Felipe Amorim
Publicado em 11/10/2018 às 8:37
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
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Desempregado, Carlos Alberto da Silva, 61 anos, sustenta a esposa e dois netos com cerca de R$ 70 que consegue ganhar por mês fazendo bicos. Morador das palafitas da comunidade Roque Santeiro, no bairro recifense dos Coelhos, ele viu a situação da família se agravar quando perdeu o emprego há dois anos. Trabalhava na prefeitura com serviços de esgotamento. Uma ironia para quem, toda vez que a maré sobe, precisa atravessar a água com lixo e dejetos, se quiser entrar ou sair de casa. “Às vezes, à noite, não tem nem um pão para morder. A vida era melhor quando eu tinha trabalho, comia melhor... carne, frango. Agora, só uma vez por ano e olhe lá. Quase toda semana eu vou procurar emprego, mas está mais difícil”, comenta.

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O desemprego empurrou Carlos para a situação de extrema pobreza que cresceu no País durante o período de crise, passando de 3,2% do total das famílias em 2014 para 4,8% no ano passado, segundo estudo da Tendências Consultoria Integrada. O material aponta, ainda, que a piora foi mais profunda no Nordeste, região em que todos os Estados estão acima da média brasileira quando o assunto é extrema pobreza. É um País mais pobre que o novo presidente vai encontrar, ao tomar posse em janeiro, com o desafio de ajustar a situação fiscal sem aprofundar as desigualdades sociais.

O estudo mostra que a pobreza extrema (famílias com renda per capita mensal de até R$ 85) cresceu em 25 Estados brasileiros. No Nordeste, região mais dependente de programas sociais, oito dos nove Estados apresentaram piora da miséria no período estudado pela Tendências. O Maranhão sofreu mais. A proporção de famílias em extrema pobreza saiu de 8,7% para 12,2% no período. Na Bahia, Piauí e Sergipe, a quantidade praticamente dobrou. Em Pernambuco, o número saltou de 5,4% para 7,7%. Apenas a Paraíba reduziu o número de famílias nesta situação, passando de 6,4% para 5,7%. A piora no quadro do Nordeste se explica porque a crise econômica freou o crescimento acima da média nacional e grandes investimentos na região.

Foto: Diego Nigro/JC Imagem
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Não foi só a extrema pobreza que cresceu. Estudo do diretor da FGV Social, Marcelo Neri, aponta que 6,3 milhões engrossaram a estatística da pobreza (pessoas com renda per capita mensal de R$ 233). Houve um aumento de 33% na pobreza entre 2014 e 2017. “Houve um retrocesso social. Alguns fatores ajudaram para este aumento, o desemprego, a inflação e o problema fiscal. Em 2015 a pobreza aumentou 19,6%, como reflexo da recessão. Depois a inflação foi controlada. No mesmo ano, o Bolsa Família ficou congelado em termos nominais (sem levar em conta a inflação, que estava em 10% na época). Estimativas mostram que o Norte e o Nordeste foram as regiões mais afetadas. Os jovens também”, comenta Neri. A meta da ONU é de reduzir para menos de 3% o número de pessoas vivendo nesta situação em todo o mundo até 2030. Segundo estimativa de Neri, se o Brasil crescer 2,5% todos os anos até lá, só voltará a níveis abaixo dos registrados em 2014 (quando a pobreza atingiu o menor patamar, 8,38%) em 2030.

O economista afirma que o Brasil possui uma plataforma social estabelecida, com programas como o Cadastro Único e o Bolsa Família. “Em qualquer País que está em crise, como a que o Brasil viveu, as redes de proteção social são muito importantes, não só para a pobreza não subir, mas para manter as rodas da economia girando. O Brasil tem essa rede, então, o que acontece é que, se você não mantém a rede funcionando, a pobreza volta a subir, como aconteceu”, complementa. A cada R$ 1 que o governo gasta a mais com Bolsa Família, o PIB aumenta R$ 1,78, de acordo com estimativas da FGV Social.

Outras soluções, a longo prazo, incluem investimentos em educação na primeira infância e inclusão produtiva e financeira. Entre 2014 e 2017, o Bolsa Família o valor médio de pagamento passou de R$ 27 bilhões para R$ 29 bilhões por ano. Por causa do ciclo eleitoral, a expectativa é de queda de 2% na pobreza este ano.

Para a professora do economia do Insper, Juliana Inhasz, combater a pobreza é uma forma de romper o ciclo vicioso da recessão, em que a pessoa perde o emprego, a renda e deixa de consumir, piorando a situação econômica do País, sem estímulo à produção. “O governo já deveria ter resolvido há muito tempo a questão fiscal. Em paralelo, tem que pensar em reformas que consigam diminuir as distorções que existem hoje. Por exemplo, será que a reforma previdenciária beneficia o mais pobre?”, questiona.

Na quarta-feira (10), em entrevista à Rádio Jornal Caruaru, Fernando Haddad (PT), candidato à Presidência, usou o Bolsa Família para criticar o adversário de segundo turno, Jair Bolsonaro (PSL). “É um desrespeito chamar de esmola o que sustenta crianças famintas. Não é esmola, isso é direito. Matar a fome é direito constitucional. Garantir que as crianças frequentem a escola é obrigação do Estado. Levar água para as pessoas é um direito. Será que cisterna é esmola? Transposição do São Francisco é esmola? Universidade pública em Caruaru, em Garanhuns, em Petrolina é esmola? Eu não acho. Tudo isso é direito”, diz. “Não vamos desrespeitar a população, como meu adversário faz, querer cortar direito trabalhista, congelar direitos trabalhistas, taxar população”, afirmou. “Bolsa família é importante, mas não é o único programa que levamos ao Nordeste”, completou.

Também ontem, o presidente nacional do PSL, Gustavo Bebbiano, afirmou que, se Bolsonaro for eleito, o presidenciável do partido vai implementar um 13º salário para os beneficiários do programa Bolsa Família. Bebbiano não detalhou de onde os recursos serão retirados e disse que o pagamento poderá ser feito em duas parcelas. O candidato, recentemente, desautorizou o seu vice, general Hamilton Mourão, que criticou o 13º salário e o abono de férias que classificou como “jabuticabas brasileiras”. Na reta final da campanha, o programa eleitoral na TV tem estratégia de mostrar Bolsonaro como alguém que veio da extrema pobreza. “Vamos mostrar uma pessoa que veio da extrema pobreza, virou oficial das Forças Armadas e que, hoje, tem grandes chances de ser presidente do Brasil”, disse o senador eleito, Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável.

MUNDO

No mundo, a redução da miséria sofreu uma forte desaceleração entre 2013 e 2015. Nos 25 anos passados entre 1990 e 2015 a taxa mundial caiu de 36% para 10% (uma média de mais de um ponto percentual por ano), mas nos últimos dois anos pesquisados essa queda foi de apenas um ponto percentual.

A metodologia usada considera como extrema pobreza a quantidade de pessoas que vive com menos de US$ 1,9 por dia. Sobre a diminuição da velocidade com a qual a miséria está caindo, o presidente da instituição, Jim Young Kim, destacou que a superação da pobreza passa necessariamente pelo investimento em capital humano e o crescimento inclusivo. O artigo publicado pela instituição financeira destaca, ainda, que a redução das taxas de miséria encontram mais resistência em países “de baixa renda e nos que são afetados por conflitos políticos”.

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