CONJUNTURA

Inflação põe ricos e pobres em choque

Países ricos querem que emergentes abandonem a elevação das taxas de juros, estímulo ao crescimento e cortes de gastos para facilitar a recuperação econômica

Diogo Menezes
Diogo Menezes
Publicado em 09/05/2011 às 8:05
Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
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BASILÉIA (Suíça) - A pior crise financeira nos últimos 70 anos eclodiu nos países ricos. Mas agora esses governos cobram justamente das economias em desenvolvimento - entre elas o Brasil - um abandono de políticas de estímulo ao crescimento, a elevação de taxas de juros e cortes de gastos. Tudo isso para permitir que os países ricos, que ainda patinam para sair da crise, evitem a "importação da inflação" e também possam apresentar um crescimento sustentável.

A cobrança foi feita pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), alertando que a inflação nos países emergentes ameaça a recuperação da economia mundial, mas abrindo um racha entre emergentes e ricos. O BIS (espécie de banco central dos bancos centrais) está reunido desde ontem na Basileia, Suíça, em um encontro com as principais autoridades monetárias do mundo, entre eles Alexandre Tombini, presidente do BC brasileiro.

A cobrança irritou representantes de BCs de países emergentes e alguns ironizaram o alerta como mais uma tentativa de transferir aos mercados em desenvolvimento a responsabilidade por tirar a economia mundial da incerteza. O Brasil optou por não se pronunciar.

A agenda do encontro está dominada pela questão da volta da inflação. O BIS estima que o impacto da alta nos preços se transformou em uma realidade para a grande maioria dos países emergentes. Mas seu efeito tem ido além, com prejuízos para a recuperação da Europa, Estados Unidos e Japão e promovendo incertezas sobre a capacidade da economia mundial em crescer de forma sustentável.

Dos 21 BCs no mundo que têm metas de inflação, oito já a estouraram, entre eles a zona do euro, Reino Unido, Turquia, Chile e a própria Nova Zelândia, onde a ideia das metas foi criada. Dos 21 países, apenas dois - Suíça e Noruega - estão hoje com inflação abaixo do centro da meta.

O mecanismo de contaminação dessa inflação entre emergentes e ricos seria bastante direto. O crescimento da demanda por commodities nos países emergentes teria levado a um aumento dos preços desses produtos. Essa alta, porém, não se limitou aos mercados em desenvolvimento e é sentida também onde não há ainda um crescimento sólido das economias. Como consequências, regiões como a Europa tem ao mesmo tempo dificuldades para crescer e ameaças de inflação, o que poderia aparentar ser uma contradição. Com uma recuperação ainda tímida, europeus e americanos não teriam o espaço para elevar taxas de juros para conter essa inflação, sob o risco de matar prematuramente sua própria recuperação. O BIS acredita que não há certezas ainda sobre a retomada dos mercados maduros. Para os economistas, portanto, países industrializados estão hoje sem instrumentos para lidar com a inflação que os atinge e qualquer elevação de taxas de juros abafaria a incipiente retomada.

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