Memória

José Matos, criador da Fri-Sabor, deixa o Recife saudoso

Morreu na noite do dia 1º o homem cheio de histórias que criou um dos sinônimos de lazer em Pernambuco, a Sorveteria Fri-Sabor

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 03/01/2013 às 14:52
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O primeiro dia de 2013 levou José de Matos. Bisavô de seis, avô de 17, pai de cinco. Mais que o patriarca de uma longa família, ele foi o criador de um patrimônio econômico e afetivo dos pernambucanos. Em uma casa modesta do Bairro da Boa Vista, juntou os recursos obtidos com a venda de um caminhão e começou a fazer sorvete. Nascia ali a Fri-Sabor. Hoje, a sorveteria tem outro dono e um outro público. Mas, aos 92 anos, antes de fechar os olhos para sempre, às 20h25 da última terça-feira, José de Matos podia ter a certeza de que integrou um seleto grupo de empreendedores brasileiros que se despediram desse mundo deixando um legado. E uma vida que transborda adjetivos.

Os sorvetes artesanais, cuja fabricação era supervisionada com lupa pelo criador, foram o ponto mais alto da sua jornada, aventureira logo no início. José nasceu em um município então recém-nascido, no interior do Sergipe, a 74 quilômetros de distância de Aracaju. A pequena Frei Paulo, havia se tornado cidade no mesmo ano de 1921. Na época, ainda atendia por Vila de São Paulo de Itabaiana - o segundo nome só veio em 1938, quando José de Matos se alistou no Exército.

Quando vestiu a farda, só tinha estudado o suficiente para ser considerado minimamente alfabetizado. Na caserna, precisou ampliar as letras. Concluiu o primeiro ciclo do então grau primário (cursos que se chamavam de 1ª e 2ª séries naquele tempo). Na prática, terminou de aprender a ler e escrever.

Formou-se cabo e passou a prestar o serviço militar. Em 1945, veio a convocação. Seu nome estava na lista de militares designados para rumarem ao Monte Castelo, na Itália, onde lutaria pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial. Chegou a embarcar para o Rio de Janeiro, mas antes de iniciar viagem para cruzar o Atlântico, o conflito havia acabado. De volta, pediu baixa do Exército logo depois e voltou para Sergipe. Lá, se encontrou com uma prima legítima que lhe fisgou o coração: Josefa Sobral de Matos, conhecida pela família como Dindina. Homem casado e com a responsabilidade de manter o lar, trabalhava no roça.

O profissionalismo e visão de José de Matos eram tão visíveis que não demorou para seus empregadores lhe promoverem a “gerente” de fazendas. Supervisionou plantios e colheitas de perto em terras do interior da Bahia e de Minas Gerais. Em solo baiano, montou um pequeno comércio, que não deu muito certo. Não tardou para que trocasse o ponto por um caminhão. Ao volante passou a rodar pelas estradas entregando combustível. Foi aí que o caminho das rodovias o trouxe, com a família grande, já de cinco filhos, para o Recife, em 1955.

A vida de caminhoneiro de José de Matos, no entanto, foi curta.  Não passou de um ano e meio. Uma grave infecção no estômago fez o médico lhe proibir de viajar. Os tempos eram difíceis. Sem emprego, precisou assistir a família. Passou necessidades. Apesar das adversidades, nunca permitiu que os filhos pedissem esmola. Todos os dias, saía em busca de trabalho. Sua mulher fazia o mesmo, na esperança de arrumar um “bico”. A moradia simples em Brasília Teimosa era trancada para que nenhum dos cinco filhos saísse.

Eis que um tio lhe empregou em uma sorveteria apertada, bem do tipo “fundo de quintal”. O que era um somente um alento para os tempos difíceis se tornou o início da sua jornada mais vitoriosa. Aprendeu como se produzia aqueles doces gelados, com sabor de frutas. Vendeu o caminhão que estava encostado, pegou um empréstimo com um vizinho. Juntou o dinheiro e comprou um maquinário velho. Na Boa Vista, começou a fazer o próprio sorvete. Batizou a sua primeira empresa de Ki-Sabor. O nome virou um problema.

Em franca expansão na época, final da década de 1950, a marca de sorvetes e picolés da multinacional Unilever, Kibon, resolveu comprar uma briga. Alegou que o nome era muito parecido ao seu. Na queda-de-braço, a pequena sorveteria de José de Matos não suportou. Mudou o nome então para Bom-Sabor. Não adiantou. A mesma empresa reclamou, mais uma vez. E, mais uma vez, José de Matos teve que abrir mão. Respirou, pensou e lançou: Fri-Sabor. A terceira opção, vinda depois de tanta disputa, completa 56 anos em 2013. A escolha virou tradição, um símbolo do lazer dos pernambucanos.

Se foi a perseverança que criou a empresa, a qualidade a manteve forte décadas adiante. Era José de Matos, pessoalmente, quem selecionava as frutas que iriam virar sorvetes. Acordava de madrugada e seguia para a Ceasa. Lá, escolhia uma a uma as que iria levar. O ritual seguiu por anos, tanto que José de Matos chegou a levar seus netos para a missão. Comprou também uma fazenda em Nazaré da Mata, onde plantava algumas das frutas que utilizava. Também lá acompanhava de perto o cultivo, voltando a pôr em prática a experiência agrícola de tempos atrás.
Não bastava escolher os insumos. José de Matos também criava receitas. Com tanta dedicação, a Fri-Sabor foi ganhando importância. A unidade da Boa Vista, funcionava como matriz. Lá eram fabricados os sorvetes. Virou ponto de encontro e local de histórias de centenas de pessoas. A saída da missa, na Igreja do Salesiano, tinha como parada obrigatória os bancos da sorveteria. Difícil é contar quantos namoros tiveram início lá. Aos poucos a rede foi se expandindo. Algumas unidades eram da família, cada uma chefiada por um dos filhos. Outras eram de franqueados, além de revendedores, que compravam no atacado o sorvete feito na matriz.

A qualidade se tornou um capital tão forte para a Fri-Sabor que deu a José de Matos a convicção de que não precisava investir em publicidade. O boca-a-boca fazia o serviço. Se um neto já crescido tentava convencê-lo a aplicar em anúncios, retrucava com um “Quer me ensinar?”. O dinheiro dos sorvetes lhe possibilitou formar os cinco filhos: quatro médicos e uma contabilista. Porém, aos poucos, o mercado foi impondo entraves para o prosseguimento do negócio. Em 2008, José de Matos vendeu a obra da sua vida para o Grupo Petribu, que, desde então, vem investindo e reformulando a empresa.

O fundamental estava feito. Uma marca de respeito. Hoje, em respeito à história, a nova logomarca ostenta com orgulho um “Desde 1957”. Graça Petribu, hoje proprietária da Fri-Sabor, conta que foi a história que pesou na decisão de adquirir a empresa. “O pernambucano valoriza o que é seu. Bastou reinaugurarmos para que a procura voltasse forte. A tradição também nos trouxe a dificuldade de enfrentar o público quando mudamos sabores. Não tive a oportunidade de conhecer José de Matos, mas espero que hoje ele se orgulhe do que fazemos”, declarou Graça.
Homem de poucas palavras, José de Matos é lembrado pela simplicidade. Falava a língua dos empregados. Ontem, enquanto seu corpo era velado no cemitério Morada da Paz, em Paulista, ex-funcionários chegaram em grande quantidade para prestar uma última homenagem. O corpo de José de Matos lutou por 15 dias contra infecções e um trombo no coração. Sucumbiu por falência múltipla dos órgãos. Seu espírito brigador e inovador, não. Permanece forte na história empresarial do Estado. Vivo na carteira assinada de todo trabalhador da Fri-Sabor e na satisfação de cada cliente.

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