Crédito

Cadastro positivo já é realidade

Grandes varejistas começam a oferecer a possibilidade de o cliente participar do banco de dados. Mas juros não caem tão cedo

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 03/03/2013 às 8:46
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Desde que passou a entrar em vigor no início deste ano, o cadastro positivo vem sendo adotado pelas grandes redes do varejo, a exemplo de C&A, Casas Bahia e Riachuelo, que passaram a registrar o consumidor que queira futuramente aderir à novidade.

Cadastre-se e confira a sua situação

O cadastro é um banco de dados no qual são registrados compromissos financeiros e pagamentos relativos a operações de crédito, como empréstimos. Na prática, o consumidor é avaliado por seu desempenho no pagamento de suas contas, que vão além do varejo: financiamento imobiliário, consórcio, leasing, contas de luz, escola. Toda despesa que comprometa a renda da pessoa é registrada no banco de dados que todos podem consultar, inclusive o próprio cliente. Se for um bom pagador, recebe um tratamento melhor na hora de conquistar o crédito. Juros mais baixos, por exemplo.

Os bancos estão se adaptando e prometem a entrada no novo sistema a partir de 1º de agosto. Para os consumidores, no entanto, os efeitos positivos do novo cadastro – que é exatamente a promessa de juros mais baixos – só devem acontecer mesmo em pelo menos dois anos.
“É difícil responder quando os juros vão cair porque não definimos taxas de juros”, avalia o presidente da Boa Vista Serviços, Dorival Dourado. A empresa é especializada na informação sobre crédito ao mercado varejista. “Temos 30 marcas que já passaram a repassar dados sobre clientes.” Segundo Dourado, a prática de compartilhar informações positivas de clientes deve demorar em pelo menos dois anos para ficar disseminada.
Ele salienta que em comparação a outras economias mundiais que adotaram o cadastro, a redução de juros varia muito. “Mas números globais mostram redução de 20 a 30% na inadimplência. No que se refere a juros, é tudo muito relativo pois cada país tem uma política de juros.”

Para o superintendente de Informações sobre Consumidores da Serasa Experian, Vander Nagata, a grande vantagem do cadastro em relação ao tradicional cadastro negativo (que negativa o nome dos consumidores que deram calote) é dar ao comércio a real condição financeira do cliente que está pedindo crédito. “A partir do momento que uma Casas Bahia alimenta o banco de dados, tudo fica disponível para outras empresas consultarem. A base de dados compartilhada mostra que existe compromisso financeiro de forma a evitar o superendividamento da pessoa. Hoje as empresas dão um tiro no escuro quando dão o crédito”.

A entrada no cadastro positivo não é compulsória. O cliente tem de autorizar junto a empresas a inclusão de seu nome. Essa é uma das razões de a novidade não agradar as entidades de defesa do consumidor. O temor é que o cliente que se recuse a dar o nome, passe a ser tratado como um mau pagador. O presidente do Procon-PE, José Rangel, questiona um outro problema: e se a pessoa passar por um momento de aperto financeiro? “Eu entendo que o cadastro positivo tem potencial de se tornar uma lista ruim, pois todo mundo está sujeito a problemas, como de saúde ou gasto inesperado e, neste momento, o jogo se vira contra ela, pois num momento de dificuldades, a pessoa vai ter de escolher que conta pagar e isso vai restringir seu crédito, mais que beneficiar”, critica.

Rangel também desconfia da redução de juros. “Será que as pessoas terão diminuição de juros? Acredito que, na prática, os juros vão continuar altos para financiamentos, empréstimos, cheque especial. Vejo com muita restrição a novidade e acredito que é mais uma forma de restringir o crédito do que, necessariamente, um benefício para o consumidor.”

De uma maneira geral, o cliente que se interessar em ter seu nome incluído no cadastro de bons pagadores, precisa dar a autorização nas redes de varejo onde realizou a operação de crédito ou diretamente nas empresas de informações creditícias, a exemplo da Serasa Experian e Boa Vista Serviços.

Com relação à desconfiança de Rangel, Vander Nagata da Serasa Experian, diz que “um deslize” do consumidor que deixou, eventualmente de pagar uma conta, não significa nada. “Todos nós estamos sujeitos a isso. O cadastro positivo funciona como um histórico de longo prazo. É como na indústria de seguros. O motorista que tem um bom histórico e não se envolve em acidentes, ganha bônus. Uma coisa é ter batido o carro há dois anos, outra diferente é bater a cada mês”, defende, inclusive lembrando de perfis de pessoas, como mulheres mais velhas, por exemplo, que naturalmente têm vantagens por serem pessoas com menor propensão ao risco.

Ele defende que a leitura do histórico da pessoa beneficia o bom consumidor. “Hoje há socialização da taxa de juros. Todo mundo paga a mesma taxa independentes de ser um bom cliente ou um inadimplente. Na prática os consumidores vão ser estimulados a zelar por seu histórico de crédito, de forma a tirar vantagem nos próximos”, diz.

O executivo avalia que a maioria das pessoas são boas pagadoras. “Eu não acredito que quem não aderir ao cadastro será prejudicado. O que vai acontecer é que as empresas terão mais dificuldades para fazer a leitura do compartimento do cliente. “Mas acredito que os clientes terão a iniciativa de entrar para aproveitar das benesses, pois quando você zela mais pelo seu histórico, você terá condições melhores. Com menos inadimplência, há um cenário para queda dos juros e competição maior entre as empresas. É o círculo virtuoso.”

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