comércio informal

Dá para comprar de tudo e até fazer feira no trânsito da Abdias de Carvalho

De frutas à pizza, o mercado de ambulantes é grande em meio aos carros que fazem fila no trânsito da avenida

Felipe Amorim
Felipe Amorim
Publicado em 19/08/2018 às 12:26
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FOTO: Guga Matos/JC Imagem
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O congestionamento já não é só dos mais de 59 mil veículos que circulam por dia na Avenida Abdias de Carvalho. Principal corredor ligando a área central do Recife às rodovias de acesso ao Agreste e Sertão do Estado, a via tem vendedor ambulante – literalmente – esbarrando um no outro em busca de cliente. Sobretudo no trecho entre os bairros do Bongi e San Martin, basta reduzir a velocidade do carro e abrir um pouco o vidro para que, em poucos segundos, esteja à sua frente desde água e pipoca até frutas, bolos, pizza e asinha de frango à milanesa. A informalidade que já atinge 11 milhões de pessoas no País leva para a Abdias tanto parte da população com baixa renda e pouca escolaridade quanto empreendedores que já chegam ao faturamento bruto de R$ 50 mil. Todos querendo “fazer dinheiro”, seja para colocar o mínimo de alimento em casa, seja para ampliar o volume do caixa.

Ervani Moreira de Santana, 37 anos e formação até a 5ª série do ensino fundamental, encaixa-se no primeiro grupo. Quando engravidou do primeiro filho, há 21 anos, ela parou de estudar. Ao longo dos anos, vieram mais quatro filhos e nunca uma oportunidade de trabalhar no mercado formal. “Só trabalhei como empregada doméstica. Com a crise, a última casa que trabalhei me mandou embora. Tive que me virar”, conta. Sentada em uma cadeira à beira da avenida, com uma filha de 15, há mais de quatro anos ela vende água, pipoca e bolo de rolo – esse último passou a fazer parte dos produtos ofertados justamente pela concorrência. “Comecei a vender bolo no ano passado. Aumentou muito o número de gente vendendo água e pipoca aqui. Tem espaço para todos, mas o dinheiro diminui”, revela a vendedora, que há quatro anos vendia cerca de 100 pipocas e garrafas de água por dia. Agora, não são mais de 50 unidades. O faturamento é de R$ 200 por semana.

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Vendedores ambulantes disputam clientes no trânsito da Av. Abdias de Carvalho - Guga Matos/JC Imagem
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Crise econômica levou 11 milhões de pessoas no País a trabalhar no mercado informal - Guga Matos/JC Imagem
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Cerca de 59 mil veículos passam pela Av. Abdias de Carvalho todos os dias - Guga Matos/JC Imagem
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Estagnação da economia e demora de reposicionamento no mercado força geração de renda alternativa - Guga Matos/JC Imagem
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Para "colocar dinheiro" em casa, vendedores apostam em vários produtos, de água a pizza - Guga Matos/JC Imagem
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Restaurantes já consolidados também apostam no trânsito para vender, como é o caso do Yoki Galetos - Guga Matos/JC Imagem
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Segundo a OIT, 60% das vagas de emprego em todo o mundo estão no mercado informal - Guga Matos/JC Imagem
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No total, são mais de 2 bilhões de pessoas sem contratos fixos ou carteira assinada - Guga Matos/JC Imagem

Se a quantia levada para casa ao fim do dia parece pouca, a intensidade do trabalho inversamente proporcional. Os vendedores de fruta da avenida em grande maioria são moradores de municípios da Zona da Mata e Agreste e saem em viagem antes do dia clarear para conseguir bons produtos no Ceasa. “Venho de Bonança todos os dias antes das 5h e pego carona na estrada. Sempre vendi frutas e acho até que nem sei fazer outra coisa. O problema agora é que temos que nos esforçar mais para vender. Antes o dia rendia R$ 600 e agora dá para conseguir só metade desse dinheiro”, relata Willams Silva, 31, enquanto separa cachos de pitomba.

Há um ano e meio “cumprindo expediente” na avenida, Cinthya da Silva, 30, é uma das vendedoras da “nova leva”. Moradora da comunidade de Caranguejo/Tabaiares – entre a Ilha do Retiro e Afogados – ela se uniu a um grupo de outras cinco pessoas do bairro que passaram a vender alimentos no sinal. “Meu marido está desempregado. Só eu trabalho. Não está fácil conseguir emprego de carteira (assinada). O que ganho aqui é para comprar comida e pagar as contas. É difícil, mas fico feliz. Entre março e abril, juntei R$ 1,1 mil para fazer a festa de 15 anos da minha filha. Não foi um festão, mas teve bolo”, conta Cinthya, que fatura cerca de R$ 250 por semana. Praticamente seu vizinho – de residência e local de trabalho – Jeferson Mateus, 18, até gostaria de ter direito a férias, 13º salário e demais direitos garantidos pela CLT. “Por enquanto aqui está sendo o que dá certo. O problema é o sol. Gostaria de ter uma profissão”, revela.

Levantamento

De acordo com levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado em abril, mais de 60% das vagas de emprego em todo o mundo estão no mercado informal. No total, são mais de 2 bilhões de pessoas sem contratos fixos ou carteira assinada. Enquanto nas economias mais ricas a média de vagas informais fica em 18,3%, nas economias em desenvolvimento, o índice salta para 79%. Globalmente, a quantidade de homens no mercado informal (63%) é maior que a quantidade de mulheres (58%), porém, analisando-se o desempenho por país, em 55% das nações, o número de mulheres no mercado informal é maior. Em relação ao nível de instrução, 50% das pessoas nos postos informais não têm educação formal ou nem ultrapassaram o nível primário. O grau de formação elevado só atinge 7% dessa parte da população.

Para o professor do departamento de Economia da UFPE Tarcísio Patrício, embora o comércio informal seja uma realidade antiga do Recife – sobretudo pelo histórico mascate da capital – a fragilidade econômica do País é responsável pelo aumento do número de pessoas vendendo nas ruas. “Em 2005, coordenei um trabalho para a Fundação Joaquim Nabuco sobre os vendedores da Abdias de Carvalho. A diferença daquela época para agora, além da quantidade de pessoas, é a variedade de produtos sendo ofertados e o perfil dos vendedores. Com a economia crescendo devagar e o desemprego aumentando, muita gente da chamada classe média tem buscado incrementar a renda com a venda nas ruas”, explica.

Exemplo desse novo perfil, o empreendedor Bruno Lima, 32, inspirado no projeto de uma rede de pizzarias de São Paulo, lançou há seis meses a Pizza no Trânsito. O negócio já conta com seis pontos para comércio em Olinda e no Recife e faturamento bruto de R$ 50 mil ao mês. “A gente começou em Santo Amaro com uma loja física e vendas no sinal durante congestionamentos. O último ponto que abrimos foi na Abdias, depois que estudamos o volume de carros e a intensidade do trânsito aqui”, confessa Lima. Atualmente, a rede de pizzarias tem 40 funcionários. Todos praticamente moradores de comunidades do bairro de Santo Amaro. “Montamos a equipe com as pessoas que são da comunidade de onde surgimos. Quem trabalha conosco recebe salário mínimo e comissão de R$ 1 por venda”, diz o empreendedor, que investiu R$ 150 mil no negócio e atinge a marca de até 10 mil pizzas/mês vendidas por R$ 20.

Disputando espaço entre os carros com os funcionários da pizzaria, Alexandre Lima, 30, é um dos sete vendedores da Yoki Galetos, que oferecem asinha de frango à milanesa próximo ao cruzamento da Abdias de Carvalho com a Avenida General San Martin. “Fiquei desempregado durante seis meses, e olhe que faço de tudo. Minha esposa trabalha no restaurante, daí fui chamado em maio para trabalhar na venda aqui na rua. O trânsito é ruim para quem está dirigindo, mas pra quem vende, é ótimo. Ganho R$ 2 por venda, e quando está muito congestionado chegam a sair de 20 a 35 pacotes de asinha”, confirma. A ideia de vender o produto na rua surgiu após a movimentação no estabelecimento físico cair e os congestionamentos, principalmente durante os feriadões e fins de semana, tornarem-se cada vez maiores.

Segundo o economista da Fecomércio, Rafael Ramos, a estagnação da economia e a demora para reposicionamento das pessoas no mercado de trabalho se tornaram tão profundas que até mesmo quem tem qualificação está sendo obrigado a gerar renda de outras formas. “Há uma diferença porque quem tem qualificação consegue analisar os cenários para abertura de um negócio. As pessoas com menor instrução, em sua maioria, estão ali por necessidade e sem muito planejamento”, argumenta. Segundo ele, a alimentação é o foco das vendas por ser uma necessidade diária e garantir o retorno financeiro mais rápido.

Para quem é cliente, ter uma variedade de produtos à disposição no meio do trânsito é uma “mão na roda”. “É muito bom ter tudo assim, prático. O único problema que vejo é a insegurança para esse pessoal trabalhar. Ficar no meio dos carros, com moto passando entre as faixas, é perigoso”, alerta a estudante Natália Santos, 20.

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