Sustentabilidade

Lixo do Carnaval é oportunidade de emprego e renda no Grande Recife

Somente no Carnaval de Olinda espera-se recolher uma tonelada de material reciclável

Marília Banholzer
Marília Banholzer
Publicado em 21/02/2020 às 8:01
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Leo Motta/JC Imagem
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Quanto mais gente na folia, mas lixo é gerado nas cidades. De olho nos materiais recicláveis, uma verdadeira tropa de catadores de resíduos busca recolher tudo que pode gerar alguma renda extra. Embalagens PET, plástico filme, vidro, papelão e, principalmente, latinhas de alumínio. Em Olinda, a expectativa da gestão municipal é recolher cerca de 100 toneladas de material reciclável.

Em 2019 esse volume ficou em 53 toneladas, sendo 28 toneladas de latinhas de alumínio. O material foi recolhido por cerca de 300 catadores da Coocencipe, uma cooperativa parceira da prefeitura. Este ano serão cerca de 600 pessoas fazendo essa coleta antes que o caminhão de lixo recolha tudo e leve para os aterros sanitários. A previsão da cooperativa é de que esse material recolhido movimente cerca de R$ 300 mil.

Cerca de 53 toneladas de material foram recolhidos pelos catadores no Carnaval 2019 de Olinda. Foto: divulgação

A presidente da Coocencipe, Edileide Pereira, conta que, em média, cada catador consegue apurar R$ 500 após os cinco dia de Carnaval em Olinda. "Tem gente que praticamente dorme e acorda nas ladeiras e consegue chegar perto dos R$ 2 mil, mas não é muito comum", conta. Ela diz ainda que a cooperativa passa o ano se planejando para esse momento. “Vivemos do material recolhidos nas coletas seletivas e de parcerias como shoppings, restaurantes e outros estabelecimentos. Mas no Carnaval o faturamento mais que dobra. Nenhuma outra festa produz tanto material reciclável”, revela Edileide.

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Catadora de material reciclável há mais de dez anos, Simone Martins, 42 anos, tira do lixo o sustento de sua casa. Ela, o marido e o filho adolescente vivem do salário mínimo que ela recebe na cooperativa. Só que é no Carnaval que ela consegue “fazer o extra” que usa para pagar dívidas ou comprar algum bem durável para sua casa. "É cansativo, dá muito trabalho, mas vale a pena. É um dinheiro que ajuda em muita coisa. Passo o ano esperando o Carnaval", ressalta Simone.

O trabalho dos catadores para chegar primeiro que o caminhão da coleta para recolher o material reciclável não é bom só para os trabalhadores. A Prefeitura de Olinda estima que economize cerca de R$ 20 mil por não precisar enviar essas 100 toneladas aos aterros sanitários.

Prefeitura de Olinda estima economizar R$ 20 mil com o trabalho dos catadores de material reciclável

Outras beneficiadas são as empresas parceiras das cooperativas, que compram o material recolhido. No caso do alumínio, a hegemonia é da Novelis – principal fabricante de produtos laminados planos e a maior recicladora mundial de alumínio. Ela é quem custeia antecipa o pagamento dos catadores que trabalham no Carnaval em busca das latinhas.

Em tempo, cada quilo de lata recolhido é vendido pelo catador à cooperativa por R$ 3. Esse mesmo volume é repassado à Novelis por R$ 3,80. No caso do plástico PET o valor pago ao catador é R$ 1,40; plástico filme é vendido a R$ 0,80.

Alumínio é o rei dos recicláveis

Estima-se que cerca de 60% do materiais recicláveis descartados no Carnaval sejam latas de alumínio. Segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), o Brasil ocupa há mais de dez anos a liderança do ranking dos países que mais reciclam latas de alumínio. No último levantamento feito pelo órgão, em 2017, o índice de reciclagem de latas de alumínio foi de 97,3%. Ou seja, de cada 100 latas circularam no mercado brasileiro, 97 foram reaproveitadas.

No Brasil, a cada 100 latas que circularam no mercado, 97 foram reaproveitadas

Para o presidente da Abal, Milton Rego, a cadeia da reciclagem do alumínio tem acompanhado o crescimento no mercado de consumo. "Isso é resultado do investimento da indústria do alumínio no sistema de reciclagem. Criamos pontos de coleta em todo o País e uma rede logística estruturada, que faz esse material chegar às fábricas, onde é reaproveitado. E, claro, contamos com o trabalho eficiente, dedicado e fundamental dos catadores", resume.

Outro estudo feito entre a Abal e a Associação Brasileira de Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), “somente na etapa da coleta da latinha, R$ 1,16 milhão foram injetados diretamente na economia brasileira em 2017. Vale lembrar que o alumínio é infinitamente reciclável.

Ambev traz novidade ao Carnaval

Este ano, no Carnaval do Recife, a patrocinadora Ambev vai inovar. A empresa colocou 421 catadores na rua para recolher material reciclável (latas, vidro, papelão, etc). Após a folia uma empresa parceira será divulgada e ficará responsável por transformar o material em lixeiras que serão doadas à cidade. As especificações das lixeiras ainda não foram divulgadas pela Ambev, mas a empresa acredita que esse movimento mostra a sua preocupação em cuidar dos resíduos gerados a partir do consumo dos seus produtos.

Ambev aposta num Carnaval mais sustentável com o apoio dos catadores de material reciclável. Foto: divulgação

Para o gerente Regional da Ambev, Harry Racz, a ação ajuda a tornar a folia mais sustentável e contribui para a conscientização do folião. "Nos unimos com a Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat) para deixar o Carnaval do Recife mais limpo. A ação também está sendo realizada em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte", conta. Todos os parceiros na coleta receberão EPIs (Equipamento de Proteção Individual), sacos apropriados para coleta e contarão com pontos de apoio com hidratação e banheiros.

Segundo a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), no Carnaval 2019 do Recife foram recolhidas cerca de 500 toneladas de lixo, sendo 4,84 toneladas de alumínio e 5,10 toneladas de plásticos. A estimativa da Emlurb é de triplicar esses números com relação aos materiais recicláveis.

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Alumínio representa 60% do lixo reciclável do Carnaval - Leo Motta/JC Imagem
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Plástico é o segundo principal produto a recolhido - Leo Motta/JC Imagem
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Cooperativa separa e lava o material recolhido - Leo Motta/JC Imagem
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Cerca de 600 catadores de cooperativa estarão nas ruas de Olinda - Leo Motta/JC Imagem
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Lixo reciclável é fonte de renda para famílias de cooperativa - Leo Motta/JC Imagem
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Principais materiais recolhidos são alumínio, plástico e papelão - Leo Motta/JC Imagem
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Cada catador consegue recolher, em média, 700 quilos de lixo - Leo Motta/JC Imagem
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Material já tem comprador certo; cooperativa é atravessadora no processo - Leo Motta/JC Imagem

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