Aviação

Saiba como foi o primeiro dia do Aeroporto do Recife sob nova gestão

Incertezas, ansiedade e cobranças são resumo do primeiro dia da Aena no Aeroporto do Recife

Marília Banholzer
Marília Banholzer
Publicado em 03/03/2020 às 20:15
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ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
O Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes - Gilberto Freyre passou a ser administrado, nesta terça-feira (3), pela empresa espanhola Aena. A mudança na operação seguiu os prazos estabelecidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Não fosse pela placa da Infraero coberta de forma improvisada no balcão de informações, nada indicaria que o Aeroporto Internacional do Recife está sob nova administração a partir desta terça-feira (3). Após 14 anos a estatal abre espaço para a chegada da espanhola Aena Desarrollo, que ainda não impôs ao terminal sua identidade visual. No saguão, poucas pessoas circulando, lojas e quiosques fechados e nenhuma placa que indicasse a mudança. Entre os lojistas concessionários do aeroporto, no entanto, o clima é de expectativa mesmo que ainda rodeada de incertezas.

Baseado na experiência de outros terminais que já passaram pelo processo de privatização, Mauricio Endo,sócio líder de governo da KPMG no Brasil, aposta que a chegada da Aena deverá reforçar a qualidade dos serviços oferecidos aos passageiros, além de atrair o público geral que não, necessariamente, irá viajar. "Se comparado ao de Brasília, que tem o mesmo porte do terminal de Recife, logo se enxerga a mudança. Sou muitos serviços diferenciados, a experiência do passageiro se torna mais agradável", afirma Endo.

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Nova administração deve investir no modelo aeroshopping, com mais serviços aos passageiros - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

O modelo de "aeroshopping" deve enfrentar um empecilho: a concorrência. Em uma raio de apenas 10 km, há três grande centros de compra: Shopping Recife, RioMar e Shopping Guararapes. Os concessionários mais antigos, inclusive, pontuam que esse formato de negócio chegou a ser tentado pela Infraero, mas que com o tempo foi por água abaixo. Os lojistas, no entanto, estão ansiosos para que as primeiras mudanças apareçam, seja na área de serviços ou em questões relacionadas à infraestrutura.

Para Iade Caribe, gerente da loja Brasileiríssima, rede de 14 lojas no País, as mudanças são urgentes e devem atrair, sim, novos usuários ao terminal. Segundo ela, a Aena já realizou um encontro com alguns concessionários e mostrou maquetes de como deve ficar o terminal após as reformas planejadas pela nova gestora. "Alguns contratos já estão sendo revistos. Quem acha que não vai se adaptar está encerrando, mas nós acreditamos que o novo modelo deve impulsionar os negócios. Dizemos isso baseados na experiência da nossa loja do aeroporto de Salvador que mudou completamente após a privatização do terminal", analisa Iade.

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Privatização deve modernizar as instalações do Aeroporto do Recife - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

Com operações no Aeroporto do Recife desde sua inauguração em 2004, o empresário Alberto Pereira diz torcer pelas novas mudanças, mas admite que ainda é cedo para apostar todas as fichas na troca de administração. Ele acredita que, de imediato, as primeiras ações da Aena devem ser na melhoria da infraestrutura e, com isso, pensar no aumento de movimentação. Em 2019 o aeroporto do Recife registrou o fluxo de 8,5 milhões de pessoas entre embarques e desembarques.

Pereira enxerga que o Aeroporto do Recife deve voltar a ser uma espécie de ponto turístico das famílias da região, como já foi tempos atrás. "Os modelos de privatização que vejo mexem muito do portão de embarque para dentro. Pouco se mexe no saguão. Outra coisa é que a Aena tem expertise, principalmente, no mercado europeu. Precisa ver como as coisas se comportam no mercado brasileiro, que é bem diferente", ressalta ele que é português e mora no Recife há 19 anos. O empresário é responsável por cinco operações da Praça de Alimentação do aeroporto recifense.

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Alberto Pereira afirma que está esperançoso com a nova administração, mas ainda tem dúvidas de como as coisas acontecerão na prática - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

Para além dos concessionários, a troca de administração passa despercebida para os usuários. A paraense Luene de Oliveira, 28 anos, mora em Boston (EUA) com os dois filhos e está no Recife a passeio com as crianças e a mãe dela, que mora no Pará. Na visão de Luene, como turista, o terminal recifense é eficiente e tem movimentação tranquila. "Não sei o que precisa mudar. Vejo uma boa estrutura, bom atendimento, talvez peque apenas na oferta de serviços, mas de modo geral é um bom aeroporto", opina a turista.

Aena se posiciona

Por meio de nota, a Aena Desarrollo disse que o diretor-presidente de Aena Brasil, Santiago Yus, está no Recife, à frente da operação de transferência. No mesmo comunicado o executivo diz que está feliz com nova operação da empresa no aeroporto que é líder em número de passageiros em todos os estados do Nordeste. A fala de Yus continua: "Com Recife completamos os seis aeroportos atribuídos a Aena na quinta rodada de concessões, assumindo um grande compromisso e colocando à disposição nosso trabalho e experiência junto às instituições públicas, privadas e companhias aéreas."

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Infraestrutura é a principal reclamação de quem utiliza os serviços do terminal - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

A Aena conquistou a concessão para administrar o Aeroporto do Recife por 30 anos durante leilão do chamado Bloco Nordeste, em 2019. Além do terminal recifense, o lote englobava os aeroportos de Juazeiro do Norte (CE), João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Aracaju (SE) e Maceió (AL).Em 2019, os seis aeroportos somaram 13,7 milhões de passageiros. Na época do leilão, a Aena conquistou o lote com um lance de R$ 1,9 bilhão, com ágio de 1.010% em relação ao lance mínimo inicial de R$ 171 milhões.

A empresa é considerada pelo Conselho Internacional de Aeroportos como a maior operadora aeroportuária do mundo em número de passageiros, com mais de 275,2 milhões em 2019 na Espanha. Em terras espanholas ela opera 46 aeroportos e 2 heliportos. Ainda é acionista controlador, com 51%, do aeroporto de Londres-Luton no Reino Unido, além de gerenciar 12 aeroportos no México, dois na Colômbia e outros dois na Jamaica. Com isso, os terminais totalizaram um volume de passageiros de 78,2 milhões em 2019. A Aena também presta serviços de consultoria para clientes estratégicos como a Companhia de Aeroportos de Cuba - ECASA.

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Mais de 8,5 milhões de pessoas circularam no Aeroporto do Recife, entre embarques e desembarques - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

Azul cobra mais infraestrutura

Atualmente o Aeroporto do Recife conta com oito companhias aéreas operando: Gol, Latam, Azul, TAP, TACV, Air Europa, Condor e Copa. Dessas, a Azul faz hub no terminal pernambucano, desde 2016, e oferece ligações sem escalas para 36 cidades, sendo quatro delas internacionais. Com a nova administração, a empresa aérea espera que sejam feitos os investimentos necessários para ajustem em infraestrutura. "Hoje, o aeroporto, em alguns horários do dia, já está saturado. Faltam mais posições de parada para nossos aviões e mais pontes de embarque, além de uma ampliação nas salas de embarque que possam acomodar os milhares de Clientes da Azul que passam diariamente pelos Guararapes", disse, em nota, o diretor de relações institucionais da Azul, Marcelo Bento.

No comunicado, Marcelo explica que ainda não foram apresentados, à Azul, maiores detalhes de como será a preparação do aeroporto com a chegada da Aena e que reuniões previstas para acontecer nas próximas semanas para acertos em torno do hub que a empresa aérea tem no terminal recifense.

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Mais de 8,5 milhões de pessoas passaram pelo terminal em 2019 - FOTO:ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Alberto Pereira afirma que está esperançoso com a nova administração, mas ainda tem dúvidas de como as coisas acontecerão na prática - FOTO:ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Privatização deve modernizar as instalações do Aeroporto do Recife - FOTO:ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Aeroporto do Recife foi inaugurado em 2004 e vinha sendo gerido pela Infraero - FOTO:ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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O Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes - Gilberto Freyre passou a ser administrado, nesta terça-feira (3), pela empresa espanhola Aena. A mudança na operação seguiu os prazos estabelecidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) - FOTO:ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

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