MORTE

A vitória sobre a perda de um parente

Técnicos e jogadores tiveram que superar a morte de entes queridos e dar a volta por cima

Leonardo Vasconcelos
Leonardo Vasconcelos
Publicado em 06/08/2017 às 8:17
Diego Nigro / JC Imagem
Técnicos e jogadores tiveram que superar a morte de entes queridos e dar a volta por cima - FOTO: Diego Nigro / JC Imagem
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Abel Braga perde o filho em uma queda da janela do apartamento no sábado, dia 29 de julho. Um dia depois os filhos de Claudemir Peixoto morrem em um acidente de carro. No dia seguinte, a esposa de Léo Lima falece devido a um câncer no estômago. Três tragédias que uniram, respectivamente, o técnico do Fluminense, o treinador da Penapolense-SP e o meia do Santa Cruz. E o mundo do futebol como um todo. Em um universo que transpira e move vidas, o fator morte é difícil de ser assimilado. De repente comandantes e comandados dos gramados se enxergam à mercê de um “campo” maior, onde há um juiz que nunca falha. É neste momento em que a psicologia é um dos reforços que entram no jogo para ajudar a reorganizar o time da mente.

Desde o início das carreiras, técnicos e atletas têm seus limites psicológicos colocados à prova diariamente. A pressão faz parte do cotidiano. Seja na vitória ou derrota, a cobrança é sempre esmagadora. E quem carrega nos ombros esse peso - muitas vezes desproporcional - são profissionais de rumo incerto e que na maioria das vezes atuam longe da família e da terra natal. Por isso, qualquer fissura neste alicerce familiar, ainda que distante, abala tanto.

Procurada pela reportagem do Jornal do Commercio, a psicóloga Suzy Fleury, referência na área esportiva, com passagens pela seleção brasileira e vários clubes do país (entre eles o Sport em duas oportunidades, 2011 e 2015), explicou que o impacto é muito grande, ainda que para profissionais tão testados. “Antes de serem técnicos e jogadores são seres humanos e a perda de um ente querido é sempre muito traumática. Saber digerir a perda de um jogo, de um campeonato, é uma coisa, já a perda de um filho ou esposa é bem diferente. Um impacto que precisa ser trabalhado e aceitado”, explicou a psicóloga.

De acordo com Fleury, o fato de geralmente eles viverem longe da família, não significa necessariamente uma aceitação mais fácil. “A distância é relativa. Muitas vezes por estarem longe fisicamente, eles se sentem mais pertos emocionalmente”, disse. Os reflexos de uma perda de um ente querido podem ser devastadores. “Alguns podem desenvolver um quadro de depressão muito forte, problemas para conseguir dormir, dificuldade para se alimentar. As pessoas em volta, sejam parentes ou os funcionários dos clubes na volta ao trabalho, precisam ficar alertas para os sinais. Quem passa por uma situação dessa precisa se sentir acolhido”, afirmou a psicóloga.

Este, por sinal, é um assunto bastante delicado: o retorno ao futebol. Um passo de volta as atividades que é delicado e, por isso mesmo, deve ser bastante estudado. No caso do treinador da Penapolense Claudemir Peixoto e do meia do Santa Cruz Léo Lima, ambos ainda estão ensaiando essa volta. Os respectivos clubes estão deixando-os bem à vontade para isso.

Quem pensou e agiu diferente, para a surpresa de todos, foi Abel Braga. Quatro dias após a morte do filho, dirigiu o Flu no empate de 2x2 com o Sport, quarta, na Ilha do Retiro, pela 18ª rodada da Série A do Brasileiro. (veja ao lado). “Trata-se de uma decisão muito pessoal, mas vejo com bons olhos essa atitude porque vai encurtar os prazos de recuperação e consequentemente ajudar na volta por cima”, finalizou Fleury.

A lição de Abel Braga

“Eu perdi para a morte, mas não vou perder para a vida”. A frase de um Abel Braga, com olhos marejados, na porta do vestiário da Ilha do Retiro, mostra o quanto ele é obcecado por vitórias. Não conseguiu na quarta-feira, diante do Sport, mas certamente obteve fora de campo somente por estar à beira do gramado. De pé. Cabeça erguida.

Foi a primeira entrevista coletiva após a tragédia com o fillho João Pedro, de 19 anos, no último sábado. Abelão, como é carinhosamente chamado no meio do futebol, mostrou que o aumentativo náo é a toa. Mostrou ser gigante e na mesma proporção forte. Foram apenas duas rápidas perguntas dos jornalistas e quase nove minutos de resposta. Ele queria falar. Precisava colocar pra fora tudo que recebeu. Tanto a dor como o carinho.

Do jogo em si pouco falou. E até quando o fez citou com carinho o filho que perdeu. Abel lembrou que somente depois da expulsão do seu jogador é que o Flu jogou melhor: “Quando a gente ficou com 10 parece que a gente jogou melhor. Acho que o João Pedro estava em campo e ajudou porque parecia que não tinha um a menos”, afirmou.

Emocionando todos em volta, o técnico, com a fronte para o alto, falou como quem dá uma lição: “Não posso colocar a minha cara no chão. Tenho de levantar. Agora, mais do que nunca, vou lutar pela minha família”. E assim seguiu Abel, com novos aprendizados.

Exemplos de grande superação

O drama vivido nos últimos dias pelos profissionais do futebol brasileiro já foi vivenciado - e superado - por atletas de outras modalidades e outros países. Não foram poucas as estrelas do esporte mundial que se viram em situações parecidas e conseguiram dar a volta por cima, aumentando ainda mais a admiração dos fãs que passaram a ter não só exemplos de jogadores e sim verdadeiros exemplos de vida.

Novak Djokovic deu uma bela lição em 2012. Na manhã daquele dia 19 de abril o tenista estava em quadra aquecendo horas antes de um confronto pelo torneio de Monte Carlo quando foi informado da morte do avô Vladimir. Imediatamente parou o treino e deixou o local aos prantos, deixando no ar uma provável desistência do torneio da série Masters 1000. Todavia, para a surpresa de todos, no horário marcado para a partida, válida pela terceira rodada da competição, lá estava o sérvio para enfrentar o ucraniano Alexandr Dolgopolov, número 21 do ranking. O então número 1 do mundo ainda perdeu o primeiro set, mas mostrando uma força impressionante conseguiu a virada e derrotou o oponente por 2/6, 6/1 e 6/4.

Após cumprimentar o adversário, Djoko olhou para os céus, levantou os braços e começou a chorar, sendo aplaudido de pé. O tenista tinha uma ligação especial com o avô com quem partilhou um abrigo durante os bombardeios na Sérvia em 1999. “Eu era muito próximo dele, então foi uma grande perda para mim e toda a família. Mas ele está comigo em espírito, sei disso. Lembro apenas dos bons momentos e isso que me deu forças para jogar”, contou depois Djokovic.

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