FREVO

Getúlio Cavalcanti: 'Jamais pagarei para tocar minha música'

Em entrevista para o JC, o cantor e compositor pernambucano conversa sobre a sua música e os seus carnavais

Karol Pacheco
Karol Pacheco
Publicado em 12/02/2015 às 7:35
Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
FOTO: Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
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A história do compositor Getúlio Cavalcanti se confunde com a do Bloco da Saudade, embora ele não seja um de seus fundadores. Autor de frevos que se tornaram clássicos como Último regresso e o Bom Sebastião, Getúlio entrou no bloco apenas no sétimo desfile – e já são 34 carnavais. Nesta entrevista ao JC, ele relembra sua trajetória e reclama da falta de divulgação do frevo. “Jamais pagarei para tocar minha música”, sentencia.


JORNAL DO COMMERCIO – Como vai ser o seu Carnaval este ano?
GETÚLIO CAVALCANTI – Eu estou com o Bloco da Saudade, na segunda-feira, às 16h30, a gente sai da Praça Maciel Pinteiro. Só não saio com outros blocos porque tenho minhas apresentações fora. Mas continuo sendo aquele compositor, talvez o único, que pega o seu violão e vai para dentro do bloco, comendo poeira na rua, sem microfone, sem nada. 

JC – Você entrou no bloco há 34 anos. De lá pra cá, o que aconteceu com o Carnaval de rua?
GETÚLIO –
O Carnaval de rua antes estava resumido exclusivamente aos compromissos das agremiações carnavalescas ligadas à Federação Carnavalesca, uma entidade que cria os concursos de caboclinhos, de escolas de samba. Então, isso acontecia numa passarela que era colocada na Dantas Barreto. Eu me lembro, muitas vezes, desfilando com o Banhistas do Pina e passarmos as três, quatro horas da manhã, sem mais ninguém na passarela pra nos assistir. Aí eu pergunto: qual é a imprensa que está a fim de ficar até às quatro horas da manhã de plantão para fazer uma cobertura de uma coisa que ninguém está lá pra ver? Quer dizer, faltando força, inclusive faltando dignidade para esse pessoal que fazia esses movimentos carnavalescos. Hoje, graças a Deus, existe um grupo forte, tanto na prefeitura quanto no Estado, fazendo um carnaval que volte a ser forte, tanto nas ruas e nos clubes, quem sabe? Muitos blocos estão fazendo suas prévias, seus acertos de marcha nos clubes e o povo tem que ir para o clube também para assistir às nossas brincadeiras, revitalizando assim os carnavais de clube, que estão desaparecidos há muito tempo.

Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
2009 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife - Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
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2009 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife - Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
2010 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife. - Alexandre Severo/Acervo JC Imagem
Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem
2011 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife - Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem
Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem
2011 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife - Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem
Igo Bione/Acervo JC Imagem
2012 - Bloco da Saudade em apresentação no Bairro do Recife - Igo Bione/Acervo JC Imagem
Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem
2013 - Bloco da Saudade desfila nas ruas em direção ao Bairro do Recife - Rodrigo Lobo/Acervo JC Imagem

JC – Muita gente tem como costume de ir assistir a shows no palco. Como você vê isso?
GETÚLIO –
Em Olinda, continuam as festas no meio das ruas, sem cordão sem passarela, o povo fazendo passo, brincando, que isso é o Carnaval autêntico de Pernambuco. Eu li uma matéria de José Teles, na qual ele fala exatamente isso: ninguém sai mais de casa para assistir ao Carnaval do Recife. Sai para ouvir shows musicais. Nós é que continuamos indo pelas ruas, com nossos blocos, com nossas troças, nossa procissão profana, fazendo que o povo veja que o Carnaval é aquilo ali. 

JC – As pessoas passam a se acostumar a pegar a programação de shows do Marco Zero, no Cais da Alfândega, de graça, com artistas que não são pernambucanos. Como o senhor encara isso, que tem visto toda essa trajetória do Carnaval?
GETÚLIO –
Eu lamento muito o que está acontecendo, mas é o merchandising. Você vê esses grandes fabricantes de bebidas, esses patrocinadores que precisam também fazer a sua propaganda, que não deixa de ser interessante – isso rola dinheiro, não deixa de ser um mercado. Mas, como disse José Teles, você sai de casa para assistir a um show, não sai para brincar o Carnaval.

JC – Nas brincadeiras, você não é o espectador, você é o espetáculo, junto.
GETÚLIO –
Isso. Por isso que continuamos nos blocos. Eu fiz uma apresentação domingo (8), no Marco Zero. No chão do Marco Zero com uma orquestra, com o meu coral, cantamos frevo e frevo de bloco. Havia um grupo de turistas de São Paulo que estava conversando e gente minha, gente que estava comigo, veio me dar o feedback depois: “Getúlio, ouvi umas expressões desse povo paulista, a coisa mais bonita do mundo”. “O que foi?”. “Eles disseram: o Carnaval do Recife é ainda um Carnaval muito puro.” Vixe, eu fico com os olhos com lágrimas de ouvir uma coisa dessas. Porque eu acho que isso é a grande importância do nosso Carnaval, é a raiz que nós temos. Você acha que para ouvir o fado, para ouvir o tango, há necessidade de botar mulher nua em cima de um palco? Jamais eles vão fazer isso. Porque aquilo é raiz, e a raiz é nosso frevo. Não precisa de gente nua para se fazer espetáculo. O espetáculo é a música, é o cantor. São as orquestras, são os passistas. Esse é que é o verdadeiro espetáculo de Pernambuco.

JC – Há as composições que já estão na cabeça de todo mundo, a exemplo do Último regresso, mas você é um compositor. Como fica a sua criação durante o ano?
GETÚLIO –
Eu continuo compondo, mas sei de antemão que é muito difícil a música chegar a fazer sucesso. Primeiro que não há mais tempo para isso. Mas eu me conformo também. Aí eu volto para o mesmo assunto do fado e do tango. Você conhece algum fado novo, você conhece algum tango novo? Não. A mesma coisa são os shows que esses artistas de fora vêm pra fazer, vêm cantar a mesma coisa que cantaram no ano passado, atrasado: “Na parada o meio do toque / no medo da solidão...” (sic). Não há mais espaço pra música boa, não existe. Porque hoje o espaço é tomado pela música ruim, pelo compositor que paga pra música dele ser tocada. Eu jamais farei isso. Receberei até um tostão para me apresentar, mas pagar para minha música ser tocada, nunca. Nem ninguém vai fazer isso aqui em Pernambuco.

JC – As pessoas que estão lhe ouvindo lembram das músicas que você já compôs. Quais são as que elas costumam pedir durante as apresentações?
GETÚLIO –
As minhas principais são: Você gostou de mim, Cantigas de roda, O bom Sebastião, Boi castanho e O último regresso – que não posso deixar de forma nenhuma de cantar.

JC – E no desfile do Bloco da Saudade, o que se canta?
GETÚLIO –
Exatamente essas músicas antigas, mas também cantamos os clássicos. Todo mundo a capela, no gogó, cantando em uníssono, inclusive. Nesse desfile, a gente tem João Santiago, Nelson Ferreira, Capiba, Edgard Moraes, Raul Moraes e tem também Getúlio Cavalcanti (risos). E eu pergunto: não se precisa mais de nada pra cantar para o povo. O povo quer exatamente isso, cantar conosco. Eu criei esse nome: serenata carnavalesca. Faço, no violão, nas minhas apresentações e todo mundo canta comigo. Porque o que a pessoa quer é se divertir, cantar, participar das coisas.

JC – O que você tem feito de novo, nos últimos anos, o que se tem de novo?
GETÚLIO –
Ah, eu tenho uma nova que a Fundação de Cultura vai lançar: Quem sou eu para te esquecer. “Brinca comigo nessa fantasia / É tudo que eu quero / Faz do teu beijo minha alegoria / Mil anos espero / Somos parceiros nessa nau perdida / Que o tempo balança / o nosso amor é devoção de vida / mesmo à deriva vive de esperança”. Esta é a primeira parte.

JC – O que tem de particular no frevo de bloco, na melodia, no verso, na temática? Pois tem um lirismo, um romantismo.
GETÚLIO –
Eu falo pela minha música: exagero na linha melódica, com alguns tons que diferem do normal, do cotidiano. E ponho uma letra que não precisa falar só sobre o Carnaval. Estou falando de um amor que eu perdi, coisa em que Capiba foi um grande mestre e meu professor. As músicas de Capiba: “quando se vai um amor, desses que a gente quer bem,/ a gente espera, seu moço,/ até que um dia ele vem/ eu tive na vida tantos amores/ que me fizeram esquecer,/ porém de todos eu esqueci,/ só um não posso esquecer”. Não pode ser tocada todo o ano? “Sabe quem é esse amor?/ É você, eu não devia dizer./ Você faz que não sabe/ para me fazer sofrer”. São os amores que no Carnaval também pintam. Não é falar da Colombina. 

JC – Teve a discussão para tocar os frevos na rádio.
GETÚLIO –
Não serve. Por decreto, nada existe. Se decreto, se lei existisse, a Petrobras não estaria no buraco.

JC – E o Concurso de Frevo?
GETÚLIO –
Concurso é importante que dá a oportunidade a quem não tem chance de chegar numa gravadora boa e lançar um disco, se é um compositor bom. Comecei compondo em concursos no Carnaval de 1962 para 1963. Tinha 20 anos, entrei com uma música, levei o terceiro lugar em frevo-canção. Só que Capiba foi o primeiro, Nelson Ferreira foi o segundo. Não foi bom? De lá pra cá, não parei mais de compor, já são mais de 40 anos. Foram 39 concursos dos quais 31 vezes eu fui primeiro lugar.

JC – E continua participando dos concursos?
GETÚLIO –
Este ano, não. Porque a Prefeitura não fez – apesar de existir uma lei. Senti muita falta, porque pelo menos o disco saía – às vezes, na semana pré-carnavalesca, o que não era certo. O certo era fazer o disco três meses antes do Carnaval. Talvez as rádios se interessassem em tocar.

JC – Muitos frevos tocam todo Carnaval, mas os valores referentes aos direitos autorais não chegam aos compositores. Como é que você vê isso de a música ser tocada, mas sem haver o retorno financeiro?
GETÚLIO –
Eu recebo muito pouco de direitos autorais e não vou correr atrás de brigar por isso, porque não adianta, certo? Eles fazem ao bel prazer essa distribuição desse bolo e acho isso uma coisa muito séria. 

>> Confira entrevista completa com o cantor:

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