Comércio

Classe A vai ao "vuco-vuco" para as compras de Carnaval

Lojas do bairro de São José, no Centro do Recife, recebem clientela atípica na preparação para a festa

Luiza Freitas
Luiza Freitas
Publicado em 13/02/2015 às 6:49
Foto: Fernando da Hora/ JC Imagem
Lojas do bairro de São José, no Centro do Recife, recebem clientela atípica na preparação para a festa - FOTO: Foto: Fernando da Hora/ JC Imagem
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“É muito calor, confusão e empurra-empurra, mas faz parte. Acaba sendo uma preparação para o Carnaval”. A descrição feita pela publicitária Carolina Alves, 22 anos, moradora de Piedade, refere-se ao comércio do bairro de São José nos dias que antecedem o início da folia. E é justamente nesse período que o “Centrão” é descoberto por pessoas que, como a jovem, não costumam passear pelas ruas estreitas tomadas por ambulantes e pedestres. É que, mesmo para o público com maior poder aquisitivo, a variedade do comércio de rua se torna uma atrativo e tanto na hora de comprar fantasias e adereços. E se engana quem pensa que a Classe A não gosta do vuco-vuco.

Acompanhada de mais três amigas, todas publicitárias, Carolina chegou ao Centro, na última terça-feira, pouco depois das 9h. “Peguei uma carona para a casa de Thalyta, que mora na Madalena (Zona Oeste) e viemos juntas de carro. Íamos estacionar no Forte das Cinco pontas, mas já estava lotado e acabamos parando em alguma rua aqui por perto”, diz apontando para trás do Mercado de São José.

Do grupo, apenas uma afirmou que vai ao vuco-vuco em outros períodos do ano. Seja pela distância ou pela falta de conforto, o destino certo para as compras são os shoppings. A exceção fica para o Carnaval. “Aqui no Centro tem mais variedade e é mais barato. Uma fita dourada que no shopping a gente compraria o metro por R$ 2, aqui a gente encontra por R$ 0,50”, exemplifica Camila Macêdo, 22, moradora da Imbiribeira, que perguntada sobre quando vai passear no bairro de São José em outros períodos do ano responde: “Nunca!”.

O perfil dessas consumidoras sazonais não é novidade para os comerciantes da área. “É assim mesmo. Essa época do ano aparece um monte de mocinhas, elas vêm de patotinha”, diz Ivanildo Torres, proprietário da A Madriete, loja de aviamentos que funciona há 44 anos na Rua das Calçadas. Mesmo com uma clientela eclética durante o ano, no período pré-carnavalesco tem destaque o público de classes mais altas - geralmente mulheres jovens em grupos de amigas.

“A gente sabe logo que é um pessoal de mais dinheiro. Elas vêm de shortinho, segurando uma garrafa de água, por causa do calor. Mas não reclamam não, viu? Elas vêm preparadas”, analisa Janaína Fernandes, gerente há 15 anos da Casas Lapa, loja de artigos temáticos, que chega a atender de 1.500 a 2.000 clientes por dia nesse período. A empresa espera vender no mínimo 10% a mais em relação ao mesmo período do ano passado.

Na hora das compras, a comerciária diz que esse público procura desde lantejoulas que custam R$ 1 o pacote de 20 gramas, até uma das modas desse carnaval, a franja de chinchila que sai por R$ 122 uma faixa com quase dois metros. “Está saindo muito esse ano para aplicação nos ombros das blusas. Elas trazem as fotos da internet e querem fazer igual. Compram em grupo, para dividir a faixa e sair mais em conta”, explica Janaína.

E até quem procura os artigos mais diferenciados – e caros – não deixa de pechinchar. “Não usamos cartão, preferimos o dinheiro em espécie para pedir um desconto no caixa. Assim também fica mais fácil se fomos comprar alguma coisa nos camelôs, que não têm como aceitar cartão”, justifica a estudante de direito Bianca Casais, 21, moradora de Boa Viagem, na Zona Sul, assim como as três amigas com quem foi comprar acessórios para customização de abadás. Para a programação fora da rotina elas listam o dress code: “Short, blusa mais leve e sapato confortável”. O grupo já tem destino certo no Carnaval de Olinda: o camarote Carvalheira na Ladeira e a Mansão do Bonfim, festas privadas cujos ingressos chegam a custar R$ 250.

Apesar de pedir descontos, o grupo de jovens admite que não pré-estabelece os valores que pretende gastar. Da mesma forma, o próprio comércio não arrisca estimar percentuais de participação da Classe A nas vendas de Carnaval. “Muitos lojistas não nos informam nem os valores do período como um todo. Além disso, a parte informal (os camelôs) na área é muito grande. Mas até quem (da Classe A) não vai até lá por conta do Carnaval, manda alguém comprar”, analisa Eduardo Catão, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Recife.

Independentemente de valores, a resposta unânime quando questionadas sobre o que mais as atrai ao “Centrão” foi a variedade. “Além de ser mais barato, encontramos de tudo e em várias lojas. Ficamos mais livres para escolher o que queremos e depois vamos embora”, resume e arquiteta Bruna Morais, 20. Para os lojistas, fica a satisfação com o movimento das vendas e a esperança de cativar clientes novos para o ano inteiro. “Muita gente vai com o foco no Carnaval mas acaba comprando roupas, uma coisa ou outra”, garante Catão.

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