FOLGUEDO

Variações da cultura popular resistem às mudanças de Carnaval

Pernambuco mantém maracatus, bois, ursos e outras manifestações apesar das dificuldades

Veronica Almeida
Veronica Almeida
Publicado em 15/02/2015 às 8:46
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O algodão pode ter dado lugar ao sintético, um ou outro instrumento com certeza já desapareceu. O verso não é tão longo, assim como o espetáculo na rua. O palco que recebe um artista sem qualquer vivência de Carnaval tem mais holofotes que a pista onde a plateia, figurantes e brincantes se veem em igualdade. Mas os maracatus, rural e de baque virado, caboclinhos, bois, ursos e uma infinidade de personagens da variada cultura popular pernambucana resistem. Representam mais que uma simples brincadeira, simbolizam até espécie de religião, pelos rituais, tradição, dedicação e credos associados.

Na festa, que pelo calendário começou ontem, há a oportunidade para pernambucanos e turistas assistirem a essa luta que década a década se estabelece, em meio à indústria cultural, aos modismos globalizados e às mudanças sociais. Ir à passarela dos concurso, no Bairro de São José, ou ver os grupos nas suas comunidades são experiências ricas, essenciais para quem deseja conhecer melhor cada uma deles.

“A cultura é dinâmica, não há como barrar a expansão e a capilaridade”, explica a jornalista e pesquisadora de Carnaval Maria Alice Amorim, com artigos, livros e documentos publicados sobre o tema. Ela é pernambucana e participa do Centro de Estudos da Oralidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A autora de inventário sobre o maracatu rural afirma que existem mais de 100 grupos desse gênero no Estado, distribuídos em duas dezenas de cidades. Confirma, portanto, o ressurgimento e nascimento de novos brincantes. Observa, no entanto, que é preciso apoiar melhor os grupos de cultura popular, para que eles, mesmo compondo espetáculos para turistas, tenham condições de permanecer com a brincadeira nas suas comunidades.

Desde o final da década de 1990 os caboclos de lança e as sambadas voltaram a chamar a atenção, muito em função do trabalho de organização e divulgação do mestre Salustiano, do Maracatu Piaba de Ouro, falecido em 2008. Mulheres passaram a ocupar também o lugar que antes era exclusivo do masculino, vestindo-se de caboclas, com golas e cabeleiras brilhantes. Mas,recentemente, voltaram a surgir limitações, como a lei do silêncio na Zona da Mata, para fazer os ensaios, nos terreiros, terminarem mais cedo.

Em menor número mas nunca em importância inferior, o maracatu nação, que se originou nas festas de coroação do Rei do Congo na liturgia católica do período colonial, também se mantém. Ultrapassou a fase difícil dos anos 60, quando o samba se sobressaía, e sobrevive à convivência com as estilizações de grupos de percussão, criados pela classe média, principalmente, sem o mesmo credo, mas admiradora da musicalidade do batuque, que pega emprestado. 

O folclorista Roberto Benjamim, falecido há dois anos, e um dos maiores estudiosos da folia de Pernambuco, costumava dizer que a tradição se renova de forma natural, constantemente. Preocupava-se, por outro lado, com as concessões que grupos de cultura popular faziam ao adaptar suas manifestações para não perderem o espaço na programação da festas organizadas pelo poder público, um desafio, a ser vencido a cada Carnaval.

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