Educação

BNCC: Especialistas estrangeiros defendem investimentos na formação de professores

Base Nacional Comum Curricular está em processo de implantação e foi tema de debate em São Paulo

Margarette Andrea
Margarette Andrea
Publicado em 21/05/2018 às 14:58
Serjão Carvalho/Divulgação
Base Nacional Comum Curricular está em processo de implantação e foi tema de debate em São Paulo - FOTO: Serjão Carvalho/Divulgação
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Escolas sem estrutura adequada, escassez de livros didáticos, alunos com fome, professores mal preparados e com baixos salários. Diante desse cenário, existente em muitos estados brasileiros, é possível obter bons resultados na implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prega um ensino mais personalizado, em que se considere as habilidades socioemocionais e valores dos alunos? Apesar das muitas ponderações em torno do tema, especialistas que trabalharam com reformas educacionais em várias partes do mundo acreditam que sim, é possível. Desde que haja vontade política e fortes investimentos na formação de professores.

“Nos Estados Unidos é igual. Há muitos Brasis por aí e não podemos supor que não se pode progredir, pois há inúmeras evidências contrárias”, observou a professora da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, Linda Darling-Hammond, que foi consultora para a área de educação do governo Obama e participou do Ciclo de Debates em Gestão Educacional: A Formação de Professores no Contexto da BNCC, organizado pelo Itaú Social e pelo Instituto Ayrton Senna, em São Paulo, que reuniu mais de 500 pessoas no auditório da Fecomércio, no último dia 8.

A base para o ensino infantil e fundamental foi aprovada no final do ano passado e está em fase de implementação dos currículos. Ela estabelece conhecimentos, competências e habilidades que devem ser desenvolvidas por todos os estudantes ao longo da escolaridade básica. O documento vem gerando muitas críticas, sobretudo de falta de diálogo com os educadores.

Segundo Linda, que considerou as tensões entre os docentes brasileiros normal, é preciso ter a compreensão de que todos os países do mundo que avançaram na educação tiveram uma base curricular comum para dar diretrizes às escolas e investiram maciçamente na formação dos professores, inclusive no que diz respeito ao uso indispensável da tecnologia em sala de aula. Registrou que escolas e faculdades precisam interagir nesse processo. E que quem não investir em educação neste século vai dar passos para trás.

“Não é mais abrir o cérebro, jogar informações e pedir que os alunos regurgitem. Hoje nossos jovens vão trabalhar com conhecimentos que ainda não existem. Precisam aprender a explorar, interagir, formular, desenvolver, ter pensamento crítico, habilidades sociemocionais. Emoções negativas podem bloquear a aprendizagem”, destacou, salientando que o próprio mercado de trabalho não busca apenas pessoas inteligentes, mas com habilidades para resolver problemas.

REVOLUÇÃO

Chor Boon Goh, gerente-geral do NIE Internacional, braço de consultoria oficial do Instituto Nacional de Educação de Singapura – País referência em educação – disse que tudo começa a partir do currículo. Ele explicou que seu pequeno País (de 5,6 milhões de habitantes) começou a revolucionar a educação em 1997, tendo como base a valorização do professor, profissão bastante disputada.

“Em Singapura, professores têm salários equivalentes a médicos e advogados. E eles precisam continuar aprendendo até acabar a carreira. Têm que estar um passo à frente do aluno. A cada sete anos, ganham um período sabático para aprender algo novo em qualquer área e todo ano recebem um bônus de desempenho que pode chegar a cinco salários”, relatou. Também passam por cem horas de formação anual, bancada pelo governo.

Goh salientou que Ministério de Educação, escolas e faculdades trabalham em conjunto e os professores já se formam praticando as diretrizes educacionais. Diretores têm autonomia. “E o ensino é centrado no aluno, voltado para habilidades e valores”, destacou. “Além disso, investimos muito em pesquisa. São US$ 20 milhões por ano, 200 cientistas trabalhando em período integral”. E concluiu: “Qualquer País que já foi colônia precisa se livrar do legado colonial”.

APRENDIZAGEM

Anneli Rautiainen, head de inovação da Agência Nacional de Educação da Finlândia, outra referência no setor, considerou “muito coerente” reformar o sistema educacional brasileiro via currículo e mudar a perspectiva de “o que” para “como” aprender. “O aprendizado é algo personalizado, ninguém aprende só ouvindo”, disse.

Pesquisador do edulab21 do Instituto Ayrton Senna/Universidade de Berkeley, Oliver John declarou que a BNCC traz as questões mais importantes para a aprendizagem, sobretudo ao considerar competências como empatia, respeito e resiliência. “Mas ela é só o começo. É feita de palavras, agora precisa de ação”, avaliou, salientando que é necessário lidar com o fato de que muitos professores também precisam de suporte com relação a questões socioemocionais.

* A repórter viajou a convite do Itaú Social

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