Solidariedade

Abrigo para idosas na Zona Oeste do Recife leva ensinamentos de Irmã Dulce

Maria do Rosário Costa, que está à frente do abrigo, é um belo exemplo de pessoas que têm a vida centrada na assistência ao próximo

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 12/10/2019 às 4:35
Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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Maria do Rosário Alves Costa tem a vida centrada na assistência ao próximo. Desde cedo. Ela era uma adolescente de 13 anos quando fez a primeira ação na rua onde morava, na Iputinga, bairro da Zona Oeste do Recife, para ajudar vizinhos órfãos. “Morreu o pai e um mês depois morreu a mãe. Ficaram 13 filhos e a mais velha era deficiente mental. Aquilo me tocou muito, então, batia de porta em porta, pedia alimentos e entregava na casa deles”, recorda Maria do Rosário. “Fiz isso uns três meses, até sair o benefício para eles”, diz.

Depois de aposentada, aos 46 anos de idade, ela voltou a praticar os trabalhos assistenciais na Iputinga, acompanhando vizinhos em consultas médicas, exames e cirurgias no Hospital de Câncer de Pernambuco, na área central da cidade. “Nessa época eu tinha um fusca, botava as pessoas no meu carro e levava, tinham muitos moradores pobres e muitos deles não sabiam como se virar sozinhos num hospital. Percebi que fazer caridade ao próximo era o meu propósito, o meu compromisso com Deus”, declara Maria do Rosário Costa.

Hoje com 75 anos, a professora aposentada Maria do Rosário é gerente do Centro Geriátrico Padre Venâncio, no bairro da Várzea, também na Zona Oeste do Recife. O lar para idosas foi criado pela Companhia da Caridade em junho de 1928, com o nome de Asilo da Velhice Desamparada, e continua acolhendo apenas mulheres. Ela conheceu o centro geriátrico 23 anos atrás, quando se mudou com a família para a Várzea. “Uma amiga me sugeriu fazer uma visita, quando cheguei lá encontrei as mulheres sem roupas íntimas e usando vestidos sem botão, fechados com tiras de esparadrapo”, relata.

Naquele dia, ela decidiu melhorar as condições do centro, que era gerenciado por leigos, mesmo que fosse preciso suplicar esmolas como fez padre José Venâncio de Melo, um dos fundadores do asilo. “Pedi para ser voluntária e aceitaram dois anos depois.” Uma das primeiras providências de Maria do Rosário foi comprar um pacote com 100 calcinhas. “Só deu duas para cada.” A partir daí, promoveu rifas e bingos, levou máquinas de costura, costureira e armários para o abrigo. Sempre com auxílio da amiga Vilma, que tinha sugerido a visita ao lar geriátrico.

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Centro Geriátrico Padre Venâncio, na Várzea (Recife), acolhe idosas desde junho de 1928 - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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O abrigo foi criado pela Companhia da Caridade para levar bem-estar espiritual e conforto às idosas - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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Centro Geriátrico Padre Venâncio é administrado pela Santa Casa de Misericórdia do Recife - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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Atualmente, as idosas são encaminhadas ao abrigo da Várzea pela rede pública municipal e pelo bispo - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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O Lar Padre Venâncio é aberto a idosas desamparadas e em situação de vulnerabilidade social - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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No momento, há 55 mulheres abrigadas no Centro Padre Venâncio, na Várzea, Zona Oeste do Recife - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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Maria do Rosário trabalha no Centro Geriátrico Padre Venâncio há 21 anos - Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

 

A maior doação que conseguiu, logo no início, veio da extinta Telpe, a empresa de telecomunicações de Pernambuco que funcionava quase na frente do abrigo. “Eu ia lá todo dia, com três idosas, e nunca era atendida, me massacravam mesmo. Quando finalmente o diretor me recebeu, disse que eu tinha passado na prova da paciência e iria doar R$ 850”, diz Maria do Rosário. “Comprei azulejos com defeito, era o que dava com o dinheiro, chamei parentes das idosas para ajudar a sentar as pedras e revestimos as paredes.”

Chá de cadeira e desaforo não desanimaram Maria do Rosário, que trabalha no Padre Venâncio há 21 anos. E sem receber remuneração nos seis primeiros anos. “Tinha gente que dizia: a senhora não tem acanhamento não? Roma é rica e a senhora pedindo ajuda para a igreja? Eu respondia: estou pedindo para um abrigo de idosas do nosso bairro.” Em 2017, a entidade aprovou projeto numa organização não-governamental e ganhou equipamentos para o abrigo, instalado em dependências do antigo prédio da Cúria Metropolitana.

A ONG doou camas, colchões, refrigerador grande, freezer, fogão industrial, mesas de inox, computador e impressora, enumera Maria do Rosário, que continua pedindo colaborações até hoje. O centro geriátrico para idosas em situação de vulnerabilidade social, abandonadas e sem amparo era gerenciado pela Arquidiocese de Olinda e Recife. Em 2011 passou a ser administrado pela Santa Casa de Misericórdia do Recife. No local vivem 55 mulheres que precisam de lençol, fralda, sabonete, toalha, vestido, sandália, escova e leite. Visitas podem ser combinadas com a gerência da instituição.

“Acolhemos idosas de baixa renda encaminhadas pela rede pública municipal e pelo bispo. Elas contribuem financeiramente, 98% têm pensão ou Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas os recursos não cobrem as despesas”, explica Esmeralda Moura, gerente de Educação e Assistência Social da Santa Casa. Quase todas são solteiras e sem filhos. “Consegui melhorar a infraestrutura e levei ao abrigo minha experiência pedagógica, mas sobretudo olhei para elas com o olhar materno”, destaca Maria do Rosário.

Veja vídeo da TV Jornal

Como ajudar

Centro Geriátrico Padre Venâncio
Avenida Afonso Olindense, 1764, Várzea
Fone: (81) 3271-0352

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