Síria

Assad se diz disposto ao diálogo, mas descarta saída do poder

Presidente sírio diz que está pronto para negociar com "os militantes que depuserem as armas"

Marina Barbosa
Marina Barbosa
Publicado em 03/03/2013 às 14:41
Foto: SANA / AFP
Presidente sírio diz que está pronto para negociar com "os militantes que depuserem as armas" - Foto: SANA / AFP
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O presidente sírio Bashar al-Assad se declarou disposto a negociar com a oposição não-armada, mas excluiu deixar o poder, em uma rara entrevista concedida à edição deste domingo (3) do jornal britânico Sunday Times, no mesmo dia em que os rebeldes tomaram uma importante academia de polícia e o chefe dos insurgentes visitou a cidade de Aleppo.

"Nós estamos prontos a negociar com todo o mundo e com os militantes que depuserem as armas", garantiu Bashar al-Assad na entrevista concedida na semana passada em sua residência em Damasco. "Nós podemos começar um diálogo com a oposição, mas não vamos dialogar com os terroristas", enfatizou.

No final de fevereiro, em uma visita a Moscou, seu ministro das Relações Exteriores, Walid al-Mouallem, afirmou pela primeira vez que o diálogo com os rebeldes armados poderia acabar com o conflito que já matou, segundo a ONU, mais de 70.000 pessoas em dois anos.

Mas os rebeldes rejeitaram qualquer negociação antes da demissão do chefe de Estado. Uma possibilidade que o presidente sírio mais uma vez negou veementemente. "Nenhum patriota pode pensar em viver em desonra em seu país. Eu sou como todos os patriotas sírios", afirmou. Deixar o poder não resolverá a crise, acrescentou.

"Se este argumento fosse correto, minha partida colocaria fim aos confrontos. Isso é obviamente absurdo, como testemunha os recentes acontecimentos na Líbia, no Iêmen e no Egito", esclareceu. Ele também acusou o governo britânico de querer armar os "terroristas" da Síria, como se refere aos rebeldes.

"Como podemos esperar que a violência se reduza quando querem enviar equipamentos militares ao terroristas, sem tentar facilitar o diálogo entre os sírios", questionou o presidente.

"Para ser franco, a Grã-Bretanha teve um papel claramente não construtivo em vários assuntos. E isto durante décadas, durante séculos, dirijam alguns. Eu falo da percepção que temos em nossa região", assinalou. "O problema com este governo é que sua retórica vaga e imatura não faz senão enfatizar esta tradição de hegemonia agressiva", acrescentou.

O governo do primeiro-ministro britânico David Cameron se declarou a favor de aumentar a ajuda aos rebeldes sírios e de uma suspensão do embargo da União Europeia sobre as armas.

Os ministros das Relações Exteriores da União Europeia decidiram em meados de fevereiro prolongar o regime de sanções contra a Síria e autorizar um apoio maior à oposição, mas sem se pronunciar sobre a suspensão do embargo sobre as armas.

Na entrevista ao Sunday Times, Bashar Al Assad afirma ainda que Londres não tem direito de desempenhar um papel construtivo na crise síria. "Não esperamos que um piromaníaco seja bombeiro", ironizou.

DELÍRIOS - Em reação, o chefe da diplomacia britânica, William Hague, acusou Assad de "delirar" ao não admitir sua responsabilidade no massacre em seu país, onde a ONU lamenta os "crimes contra a humanidade".

Paralelamente, o líder da oposição Ahmed Moaz al-Khatib visitou Menbej e Jarablus, duas localidades no noroeste de Aleppo. Em um vídeo gravado em Menbej, é possível ver Ahmed Moaz al-Khatib, sorrindo, vestido com um terno azul marinho e um cachecol preto, sendo aplaudido por transeuntes e abraçado calorosamente.

Segundo um membro da oposição, Khatib se reuniu com líderes locais para discutir "as eleições providenciais em Gaziantep", na Turquia, para eleger este domingo um Conselho provincial encarregado de gerir os assuntos sociais em Aleppo, onde a rebelião registrou importantes avanços.

Os insurgentes tomaram o controle da academia de polícia de Khan al-Assal (norte), após combates que mataram em oito dias 120 soldados e policiais e 80 rebeldes, segundo o Observatório Sírios dos Direitos Humanos (OSDH).

Perto da fronteira turca, combatentes da Frente jihadista Al-Nosra e outros insurgentes tomaram o controle de uma prisão em Raqa, libertando "centenas" de presos, acrescentou a ONG. E em Damasco, dois morteiros caíram na praça das Omeydas sem fazer vítimas.

No noroeste do país, 15 rebeldes morreram durante uma ofensiva do Exército em Jebel Turcoman, perto de Lattakia, segundo o OSDH. Já as forças do regime afirmaram que controlam oito aldeias da localidade de Beit Alwan.

Enfim, o presidente Assad não excluiu represálias a um ataque israelense, que segundo fontes americanas visou em janeiro alvos militares perto de Damasco.

"Realizar atos de represália não significa que responderemos míssil com míssil e bala por bala. Não iremos anunciar qual será a nossa maneira de proceder", afirmou.

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