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Saída de senador asilado causa polêmica entre Brasil e Bolívia

Boliviano Roger Pinto teria saído da Bolívia escoltado por militares brasileiros

AFP
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Publicado em 25/08/2013 às 21:47
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A chegada do senador boliviano Roger Pinto ao Brasil, após 15 meses de asilo na embaixada brasileira em La Paz, provocava polêmica neste domingo, com o governo da Bolívia exigindo informações sobre a "fuga" do político, que teria saído do país escoltado por militares brasileiros.

"Estamos pedindo informações oficiais, tanto ao governo do Brasil como a outras autoridades (locais), sobre como se produziu a fuga de Pinto", disse a ministra boliviana da Comunicação, Amanda Dávila.

Segundo o senador brasileiro Ricardo Ferraço (PMDB), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Pinto viajou 22 horas entre La Paz e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em um automóvel da embaixada, escoltado por fuzileiros navais e policiais federais do Brasil.

De Corumbá, Pinto seguiu em um avião particular da família Ferraço para Brasília, onde chegou na madrugada de domingo.

O ministro boliviano de Governo, Carlos Romero, denunciou que o senador Pinto abandonou "o país ilegalmente, com contas a acertar na justiça", e que os procedimentos legais serão aplicados.

Romero informou que pediu, mediante a polícia boliviana, que o governo alerte a Interpol, não apenas porque há "uma sentença e a proibição de saída" do senador Pinto, como também pela "entrada em um país vizinho sem realizar o registro oficial de saída da Bolívia".

Já o ministro boliviano da Presidência, Juan Ramón Quintana, declarou que Pinto "fugiu como um delinquente vulgar", e não como um senador da República.

Quintana, braço direito do presidente Evo Morales e um dos principais articuladores políticos do governo, disse que "esta fuga precisa ser esclarecida, certamente as autoridades brasileiras vão ter que explicar isto".

"Não sabemos como escapou, mas trata-se da fuga de um delinquente porque é acusado penalmente" aqui na Bolívia. "Pensávamos que o senador Roger Pinto se apresentaria à justiça para se defender".

O Itamaraty informou que investigará a saída de Pinto da Bolívia e sua entrada no Brasil, destacando que "tomará as medidas administrativas e disciplinares correspondentes".

"O Ministério está reunindo elementos sobre as circunstâncias em que foi verificada a saída do senador boliviano da embaixada brasileira e sua entrada em território nacional", destaca a nota do Itamaraty, acrescentando que chamará seu encarregado de Negócios em La Paz, Eduardo Saboia, para consultas em Brasília.

Pinto, que chegou à Brasília na madrugada de domingo, agradeceu "ao Brasil e às autoridades" pela concessão do asilo político. "Espero que prossiga meu asilo. Tenho asilo e espero que continue".

Apesar da confusão diplomática criada pela saída do senador, o governo em La Paz garantiu que as relações entre os dois países não serão afetadas, embora uma explicação oficial de Brasília seja aguardada.

"Este caso não afeta as relações com o Brasil. As relações entre Bolívia e Brasil continuam numa situação de absoluta cordialidade e respeito", disse a ministra Dávila em coletiva de imprensa.

Dávila garantiu que "o governo boliviano e o presidente Evo Morales sempre expressaram, e continuam o fazendo, todo seu afeto e respeito pela presidente (Dilma) Rouseff, e pelo governo brasileiro".

A saída do senador do território boliviano não foi, segundo a ministra, negociada. "Nenhuma permissão foi outorgada a ele".

Ela explicou que por trás do caso Pinto "existem interesses políticos" de setores "ultra-conservadores" tanto da Bolívia quanto do Brasil.

"É um caso que se criou de maneira fictícia com informações falsas enviadas ao governo brasileiro por parte de sua embaixada em La Paz", acrescentou Dávila.

Em entrevista a um canal de televisão privado, a ministra culpou o ex-embaixador do Brasil na Bolívia Marcel Biato pelo envio de informações distorcidas.

O senador, de 53 anos, buscou refúgio em maio de 2012 na embaixada brasileira em La Paz, argumentando perseguição política após apresentar denúncias de corrupção contra o governo.

Apesar de o Brasil ter concedido asilo político a ele, o governo boliviano negava o salvo-conduto alegando que seu caso não era político, mas sim jurídico.

Em junho passado, Pinto foi condenado a um ano de prisão por "dano econômico ao Estado", mas sua defesa alegou que a decisão era "política", com o objetivo de impedir sua saída do país.

Durante 15 meses, Pinto esteve limitado ao prédio da sede diplomática brasileira em La Paz, onde recebia apenas a visita de três pessoas autorizadas: sua filha mais nova, Denise, um assistente e seu advogado.

Pinto tem outras duas filhas, Paola e Jeanine, e a mulher, e as três vivem no Brasil.

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