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Francisco busca por justiça e simplicidade

América Latina sente peso de sua atuação, mas boatos iniciais prejudicaram imagem do papa

Mariana Mesquita
Mariana Mesquita
Publicado em 23/12/2014 às 0:28
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América Latina sente peso de sua atuação, mas boatos iniciais prejudicaram imagem do papa - Divulgação
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Um homem adepto da simplicidade. Em Buenos Aires, os argentinos não se espantavam ao vê-lo no ônibus ou no metrô. Ao se tornar cardeal, convenceu centenas de conterrâneos a não voarem para Roma para celebrar com ele, e em troca doar o dinheiro para os pobres. Quando eleito papa, voltou ao hotel onde estava hospedado para pagar a conta pessoalmente, e ligou para o jornaleiro que lhe atendia diariamente, em Buenos Aires, para avisar que ia se mudar, agradecer pelos bons serviços e suspender as entregas.

Mais fortemente do que no resto do mundo, a América Latina e especialmente o Cone Sul sentem o peso positivo de sua atuação. Ao ser eleito, porém, surgiram boatos a respeito de seu apoio ou, pelo menos, falta de atitude perante a ditadura militar argentina. O fato se justifica, porque muitos clérigos locais efetivamente assim agiram.

A principal denúncia contra Francisco diz respeito aos missionários jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics, presos e torturados em 1976. “Fiz o que podia ter feito com a idade que tinha e com as poucas relações que tinha para intervir em favor das pessoas sequestradas”, explicou-se o então cardeal Bergoglio. “Houve bispos que foram cúmplices da ditadura, mas Bergoglio não”, disse Pérez Esquivel, defensor dos direitos humanos e vencedor do Prêmio Nobel da Paz.

Francisco colocou arquivo do Vaticano à disposição das Mães e Avós da Plaza de Mayo, para ajudá-las na busca de informação acerca do paradeiros de seus familiares, vítimas da ditadura militar argentina

Após resgatar sua imagem dentro deste processo, Francisco vem procurando auxiliar nas investigações que ainda perduram acerca do período. Ele se aproximou de um dos principais símbolos da resistência contra a ditadura, as Mães e Avós da Plaza de Mayo. Historicamente, embora muitas dessas mulheres sejam católicas, houve embates com a Igreja pela falta de posicionamento da instituição contra o regime militar. Em 2005, por exemplo, a presidente da entidade, Hebe de Bonafini, chamou João Paulo II de “porco” e disse que ele “morreria queimado no inferno” pelas decisões tomadas pelo Vaticano. 

Desde a década de 1970, as famílias lutam para descobrir o que efetivamente aconteceu com seus filhos e filhas, mortos pelo regime militar, e com seus netos: na Argentina aconteceram vários sequestros de bebês e crianças, que foram depois criados por pessoas simpáticas à ditadura. Quase 400 dessas crianças, hoje adultas, continuam desaparecidas, e seus parentes brigam para tentar saber seu paradeiro. Um dos “resgates” mais famosos foi o de Ignacio Guido Montoya Carlotto, um musicista de renome nacional que descobriu este ano ser neto de Estella Carlotto, uma das avós mais atuantes do grupo.

No início de novembro, Estella e Ignacio estiveram com Francisco, que se mostrou emocionado com o reencontro entre avó e neto, afirmando ser “um desígnio divino após 36 anos de perseverança”. Francisco disponibilizou os arquivos do Vaticano ao grupo, para que sejam levantadas possíveis pistas e pesquisadas informações valiosas. À imprensa, Estella Carlotto fez questão de agradecer e frisar que não se pode vincular a ditadura militar ao papa.

Em relação à Argentina, onde alcançou status de celebridade máxima, Francisco tem se mantido reservado e, ultimamente, se recusado a receber visitas de representantes políticos de todas as tendências, já que as eleições presidenciais vão acontecer no ano que vem. Ele não quer se vincular a nenhum partido.

Aliás, o máximo de “parcialidade” a que Francisco se permite, nesse sentido, é a declarada paixão pelo time de futebol San Lorenzo. Alimentada pela inspiração papal, a equipe sem grande importância conquistou a Taça Libertadores da América e chegou à final do Mundial de Clubes, no último domingo. Contra o poderoso Real Madri, porém, o esperado “milagre” de Francisco não aconteceu. Talvez a intervenção divina tenha priorizado o reatamento de relações entre Cuba e EUA.

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