Aproximação

Obama se prepara para tirar Cuba da lista de patrocinadores do terrorismo

A retirada de Cuba da lista seria um grande gesto de Obama, após as negociações iniciadas há quase quatro meses para restabelecer as relações diplomáticas entre Washington e Havana

Da AFP
Da AFP
Publicado em 09/04/2015 às 20:41
Foto: JIM BOURG / POOL / AFP
A retirada de Cuba da lista seria um grande gesto de Obama, após as negociações iniciadas há quase quatro meses para restabelecer as relações diplomáticas entre Washington e Havana - FOTO: Foto: JIM BOURG / POOL / AFP
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O presidente americano, Barack Obama, declarou que está concluído o trâmite para tirar Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo, pouco antes de sua chegada, nesta quinta-feira, à Cúpula das Américas, no Panamá, para um encontro histórico com o colega cubano, Raúl Castro. 

A "revisão foi concluída" pelo Departamento de Estado, disse Obama nesta quinta-feira a jornalistas em Kingston, Jamaica, escala anterior à sua viagem ao Panamá para participar da Cúpula das Américas, celebrada na sexta-feira e no sábado.

De qualquer forma, Obama descartou que a Casa Branca recomende "nesta quinta-feira" a saída da ilha desta lista, na qual foi incluída em 1982. 

A retirada de Cuba da lista seria um grande gesto de Obama, após as negociações iniciadas há quase quatro meses para restabelecer as relações diplomáticas entre Washington e Havana, facilitando a reabertura de embaixadas.

Isto "foi uma espécie de pedrinha no sapato no processo de normalização das relações diplomáticas", comentou Frank Mora, diretor do Centro para a América Latina e o Caribe da Florida International University.

"O governo cubano disse em várias ocasiões que era, sim, um impedimento", acrescentou Mora, ex-encarregado da América Latina no Pentágono, durante o primeiro governo Obama.

Estar na lista completada por Irã, Sudão e Síria implica uma série de sanções, entre elas o bloqueio a qualquer tentativa de parte de Havana de obter empréstimos de instituições financeiras internacionais.

Agora, o Departamento de Estado deve enviar sua recomendação a Obama, que tem, por sua vez, que notificá-lo formalmente ao Congresso.

O presidente americano destacou que o processo de negociações "levará tempo". "Nunca previ que tudo pudesse mudar do dia para a noite", disse ele na Jamaica.

Embora ainda não haja nada anunciado, Obama e Raúl Castro também poderão ter um encontro bilateral durante a cúpula, da qual Cuba participa pela primeira vez desde a criação do evento, em 1994.

Nesta quinta-feira também chega ao Panamá o secretário de Estado americano, John Kerry, que possivelmente se reunirá com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, segundo fontes da Casa Branca.

A foto que sairá da cúpula, com um presidente americano e um cubano juntos, ficará como um dos pontos mais altos da presidência de Obama. A única e última vez que Obama e Raúl Castro se viram pessoalmente foi quando ambos estiveram nos funerais de Nelson Mandela em 2013 na África do Sul.

Venezuela: o convidado incômodo

Obama já avisou que irá para a cúpula com "uma mensagem de diálogo", após quebrar o gelo com Cuba e, de quebra, assinar um acordo-quadro com o Irã sobre seu programa nuclear.

Mas, terá que responder a muitos países latino-americanos, indignados com a decisão de Washington de declarar a Venezuela, o principal benfeitor econômico de Cuba, como uma "ameaça incomum e extraordinária" aos Estados Unidos.

Na véspera do início da cúpula, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, liderará um ato em Caracas que receberá 10 milhões de assinaturas que ele pretende entregar a Obama para exigir que anule o decreto.

Tanto Caracas quanto Washington reduziram as tensões. O governo americano reconheceu nestes dias que não acredita que a Venezuela seja uma ameaça, enquanto Maduro se disse disposto "ao diálogo".

No entanto, os especialistas descartam que as arestas entre Venezuela e Estados Unidos afetem as negociações entre Washington e Havana.

Raúl Castro é considerado pragmático, consciente da crise política e econômica que vive e a Venezuela, o país com maiores reservas petrolíferas do mundo. Mas, a dependência cubana deste país diminuiu (de 100.000 barris de petróleo por dia em 2013 para 80.000 em 2014).

Para Obama, a dependência de Havana com relação a Caracas tampouco passa despercebida. O presidente americano chega ao Panamá, após reforçar, na Jamaica, a cooperação energética de seu país com a região. Os cortes de fornecimento de petróleo venezuelano aos países caribenhos são calculados entre 10% e 30%.

O governo Obama anunciou um financiamento de 20 milhões de dólares para desenvolver projetos de energia na região, bem como para estabelecer um grupo de trabalho de segurança energética.

A Casa Branca está disposta a oferecer uma alternativa ao fornecimento de petróleo que a Venezuela oferece em condições benéficas que atraíram muitas das pequenas economias da região.

Nem tudo são flores

As relações entre Cuba e Venezuela com os Estados Unidos fazem o clima pesar no Panamá. Opositores e simpatizantes dos governos de Havana e Caracas têm trocado empurrões e acusações mútuas em pequenos comícios, protestos e fóruns paralelos à cúpula.

Mais de três mil ativistas de organizações sociais participarão nesta quinta-feira da chamada Cúpula dos Povos para manifestar seu apoio a Cuba nas negociações com os Estados Unidos e exigir de Obama que reveja a medida contra Caracas.

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