LITERATURA E PODER

Na Oceânia de Orwell o convencimento se dá pela força

No livro do escritor britânico, a tortura é uma prática comum para enquadrar os rebeldes

SAULO MOREIRA
SAULO MOREIRA
Publicado em 11/02/2017 às 16:00
DIVULGAÇÃO/CREATIVE COMMONS
No livro do escritor britânico, a tortura é uma prática comum para enquadrar os rebeldes - FOTO: DIVULGAÇÃO/CREATIVE COMMONS
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Num dos momentos mais tensos do livro 1984, de George Orwell, O’Brien, o representante do partido, homem que defende os ideais do Grande Irmão, põe sua mão em frente aos olhos do protagonista Winston Smith, um funcionário do Estado que, rebelde, ousa escrever um diário revelando o totalitarismo para as futuras gerações.

 

Winston está preso e sob tortura de O’Brien. Com o polegar recolhido, o agente do Estado mostra o dorso da mão com quatro dedos. Quer que Winston diga que está vendo cinco dedos. Seu objetivo é convencê-lo de que a verdade não é, necessariamente, o que ele vê e sim o que o partido determina. 

Fragilizado, Winston tenta resistir, mas não consegue. O ponto central é que ele cede não porque quer se livrar da dor e, sim, porque, numa fração de tempo ainda que pequena, acredita, de fato, estar enxergando os cinco dedos. O convencimento não se dá pela difusão do conhecimento, pelo debate, pelo argumento. E sim pela força, pela violência, pela ameaça. 

DIFERENÇA

Pablo Holmes, professor do Instituto de Ciência Política da UnB, discorda de qualquer paralelo entre realidade e ficção. “O livro ataca a construção de uma ideologia em que não cabem críticas, nem questionamentos. Mesmo que a equipe de Trump tenha assumido uma postura agressiva em relação à imprensa, e muitas vezes tenha recorrido a ‘fatos alternativos’ e outras expressões ‘insólitas’, é preciso levar em conta que a imprensa estadunidense é altamente crítica em relação a seus atos mais polêmicos. E tem ampla liberdade para se manifestar.” 

Pernambucano de Salgueiro, Raimundo Carreiro, um dos escritores mais reconhecidos no País hoje, segue outra trilha de raciocínio e diz que vê semelhanças inquestionáveis entre o livro e a prática de Trump. “Quando ele quer impedir a entrada dos refugiados nos EUA, ele está pensando nos problemas dele. E ele está convencido que está certo. Ele não questiona o diferente. É neurótico e esquizofrênico.”

Por falar em refugiados, em Oceânia, os moradores, diariamente, são obrigados a parar seus afazeres e participar de um evento chamado “Minuto do Ódio”, filmetes exibidos para insuflar o sentimento contra “os inimigos”. Logo nos primeiros capítulos, o Minuto de Ódio consiste em mostrar cenas de imigrantes – crianças inclusive – sendo metralhados pelas heróicas tropas de Oceânia. Uma senhora que, na plateia, reclama da carnificina é hostilizada pelos demais. Oceânia é uma potência sem lugar para fracos.

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