POLÍTICA E LITERATURA

Prática de Trump reacende interesse pelo livro 1984, de Orwell

Aplicação de conceitos como "pós-verdade" e "fatos alternativos" lembra o idioma novilíngua, usado no país totalitário idealizado por George Orwell

SAULO MOREIRA
SAULO MOREIRA
Publicado em 11/02/2017 às 16:00
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Aplicação de conceitos como "pós-verdade" e "fatos alternativos" lembra o idioma novilíngua, usado no país totalitário idealizado por George Orwell - FOTO: DIVULGAÇÃO/CREATIVE COMMONS
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Visão unilateral, ataques à oposição, xenofobia, demonstrações de força. Quando o indiano/britânico George Orwell (1903/1950) publicou seu clássico 1984, muitos críticos entenderam aquele romance distópico e perturbador como um ataque frontal ao totalitarismo comunista personificado na figura de Joseph Stalin (1858/1953), ditador da então União Soviética (URSS).

Era 1948, ano em que a Europa estava destruída e dividida. De uma lado, o bloco comunista e de outro, o capitalista, liderado pelos Estados Unidos. As atrocidades da 2ª Guerra Mundial, encerrada em 1945, davam lugar a uma disputa política crescente entre duas ideologias. O mundo assistia ao início da Guerra Fria. Hoje, muitos voltam seus olhares para a obra de Orwell.

Nos Estados Unidos, 1984 é o livro mais vendido e está no topo dos pedidos da Amazon. Sua editora informou que a procura, neste ano, aumentou 10.000%. Não é difícil entender o motivo de um livro emblemático escrito no século passado ganhar aspectos tão contemporâneos. A razão é Donald Trump, presidente do país que outrora rivalizou com a URSS de Stalin.

1984 trata de uma fictícia Oceânia, potência controlada com mão de ferro pelo Estado. Corações e mentes são moldados de acordo com o ideário do partido que comanda a tudo e todos. Como instrumento de fiscalização, há câmeras acopladas a visores. As chamadas de teletelas estão nas casas, nas ruas, praças, ambientes de trabalho, sempre vigiando, divulgando propagandas do partido, enaltecendo a força de Oceânia e lembrando: “O Estado está de olho em você.” A lógica do partido, materializado na imagem do Grande Irmão (um homem de bigode largo e feições duras), é a de que quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado. Não à toa, tudo o que não interessa ao partido é deletado, “vaporizado” da história.

O paralelo que se estabelece entre os EUA de Trump e a Oceânia idealizada por Orwell não é calcado no totalitarismo, afinal não se discute que o presidente, por mais tresloucado e perigoso, foi eleito democraticamente. É um líder legítimo. A coincidência consiste no modus operandi, na forma como Trump e seus aliados veem o mundo, tratam divergências e encaram o que é a verdade.

Aqui é necessário lembrar da polêmica recente sobre a quantidade de pessoas que compareceram à posse de Trump como o 45º presidente dos EUA no último dia 20. No dia seguinte, vários sites, jornais e revistas publicaram fotos mostrando claramente que seu antecessor, Barack Obama, atraiu um multidão três vezes maior, em 2009. Diante da constatação negativa, a conselheira de Trump, Kellyanne Conway, defendeu a versão “alternativa” de seu governo: Trump tivera um público maior e pronto. Expostos os números de uma posse e outra, o porta-voz do republicano, Sean Spicer, apresentou dados comprovadamente errados para dar suporte à verdade alternativa ora em voga na Casa Branca.

PÓS-VERDADE

A questão linguística envolvendo a política ganhou dimensão global quando o dicionário Oxford elegeu a palavra “pós-verdade” como o termo do ano em 2016. E a pós-verdade se tornou tão conhecida exatamente por causa da campanha eleitoral de Trump. O conceito para pós-verdade: “o que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.”

Professor no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Pablo Holmes contextualiza historicamente o processo de comunicação e arremata: “Cada vez mais se projetam formas de ressonância de informação completamente desarticuladas, sem qualquer controle crítico por parte de visões alternativas e contrapostas. As pessoas ouvem o que querem e podem ouvir somente o que querem”, analisa.

Em 1984, não há espaço para interpretações dúbias ou questões semânticas. A chamada novilíngua (ou novafala, dependendo da tradução) usada em Oceânia simplesmente une, condensa ou elimina termos. Tudo para controlar o pensamento e, assim, manter a glória e grandeza da Nação.

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