VENEZUELA

Maduro aposta em pesos-pesados do chavismo em poderosa Constituinte

A eleição da Constituinte ocorre no próximo dia 30 de julho

AFP
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Publicado em 22/06/2017 às 19:35
Foto: FEDERICO PARRA / AFP
A eleição da Constituinte ocorre no próximo dia 30 de julho - FOTO: Foto: FEDERICO PARRA / AFP
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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, lançou poderosas figuras de seu governo como candidatos à Assembleia Constituinte, cuja eleição, em 30 de julho, enfrenta um repúdio crescente de opositores e chavistas dissidentes.

Em plena escalada da crise, com uma onda de protestos que dura quase três meses, Maduro concluiu na quarta-feira as mudanças de gabinete para completar suas postulações à Constituinte, nas quais se destacam o deputado Diosdado Cabello, a chanceler Delcy Rodríguez e sua esposa, Cilia Flores.

"A Assembleia Nacional Constituinte vai e reconstruiremos a paz", garantiu Maduro nesta quinta-feira (22) em entrevista coletiva.

Julio Borges, presidente do Parlamento, denuncia que "a Constituinte de Maduro foi feita como um terno sob medida [...], não vai resolver o problema das filas [que se formam pela escassez de alimentos], nem do custo de vida, nem da insegurança".

A Assembleia Constituinte também é rechaçada pela procuradora-geral, Luisa Ortega, que a considera um retrocesso nos direitos humanos e na democracia, e pela oposição, que a vê como uma fraude com a qual Maduro, dizem, pretende instalar um sistema como o cubano.

Os opositores realizaram uma passeata nesta quinta-feira em apoio à Ortega, chavista histórica hoje considerada "traidora" pelo governo por avaliar que a Constituinte viola o estado de direito.

Maduro declarou nesta quinta-feira que Ortega "quer se meter na diatribe política porque tem aspirações de ser candidata presidencial da MUD". "Tem todo o direito de fazer isto, mas não pode se valer de uma instituição tão delicada" como a Procuradoria.

"É muito triste que no final do caminho (...) alguém termine a serviço dos verdugos do nosso povo", afirmou Maduro, que pediu a Ortega que "volte ao equilíbrio" pois o país "precisa de uma procuradora que faça justiça.

Nos protestos desta quinta-feira, militares lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes no leste de Caracas, o que provocou violentos confrontos com jovens encapuzados, que deixaram vários feridos, constatou a AFP.

Além de Caracas, estavam previstas mobilizações em todo o país até os gabinetes regionais da Procuradoria.

Desde 1º de abril, a atual onda de protestos já deixou 74 mortos e mais de 1.500 feridos.

Um refúgio para resistir

Respaldado por decisões do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Maduro avança com seu projeto de Constituinte, que considera fundamental para devolver a estabilidade política e econômica ao país.

"Vão fazer história, história grande neste país", assegurou ao agradecer aos funcionários que deixaram seus cargos para lançar suas candidaturas à Constituinte.

Além de Cabello, Rodríguez e Flores, há a deputada e ex-ministra da Defesa Carmen Meléndez, o ex-vice-presidente Aristóbulo Istúriz e o ex-ministro e ex-governador Adán Chávez, irmão do falecido presidente Hugo Chávez.

Cabello, vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), é mencionado por setores da oposição como o futuro presidente da Constituinte, com a qual ampliaria ainda mais a sua influência que, segundo os especialistas, já é vista no governo, na Força Armada e nos aparatos de Segurança e de Inteligência.

A Constituinte irá reger o país por um tempo indeterminado como um "superpoder" e será composta por 545 legisladores, que, de acordo com a oposição, serão eleitos por um sistema "fraudulento" que garantirá o controle pelo governo.

"A Constituinte é para o PSUV, mas, sobretudo, para o 'madurismo', [e será] apenas um guia, uma desculpa para obter um maior poder de negociação, um refúgio para resistir", assegurou o cientista político Michael Penfold.

Boomerang político

Mas os analistas advertiram que a iniciativa de Maduro, além de intensificar a crise, pode agradar a fissura aberta pela procuradora. "Provavelmente também acabará sendo um afiado 'boomerang' político", acrescentou Penfold.

Em uma carta assinada pelo arcebispo Bernadito Auza, observador permanente da Santa Sé na ONU, o Vaticano advertiu que a Constituinte "coloca em perigo o futuro democrático do país".

"O Vaticano, a procuradora, setores da Força Armada, diferentes atores do governo e atores internacionais estão vendo a nossa luta contra a ditadura, não apenas contra a Constituinte", disse o deputado opositor Juan Requesens, prestes a iniciar a marcha até o Ministério Público para expressar o apoio à procuradora.

Ortega, que denunciou que a Justiça é usada para "perseguir a dissidência política", enfrentará um possível julgamento depois que o TSJ aceitou um recurso do deputado da situação Pedro Carreño, que também pediu a sua destituição por "insanidade mental".

A procuradora lidera um grupo de chavistas que sustenta que Maduro "está destruindo o legado" de Chávez.

Penfold acredita que o governo está ameaçado à medida que "as fissuras dentro do chavismo e da esfera militar se aprofundam". Mas ainda não é certo que isto aconteça.

Esta semana, Maduro anunciou a renovação da cúpula da Força Armada e ratificou como ministro da Defesa o general Vladimir Padrino López, que lhe declarou "lealdade incondicional".

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