Política

Personalismo predomina no cenário político mundial

Para quem o adota, o voto dado por simpatia dispensa maiores justificativas ideológicas, evita debates cansativos, e ainda se desvia das disputas partidárias que, muitas vezes, nivelam as campanhas por baixo

Maria Eduarda Bravo
Maria Eduarda Bravo
Publicado em 25/03/2018 às 9:57
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Para quem o adota, o voto dado por simpatia dispensa maiores justificativas ideológicas, evita debates cansativos, e ainda se desvia das disputas partidárias que, muitas vezes, nivelam as campanhas por baixo - FOTO: Foto: Divulgação
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Uma das vantagens do sistema democrático é abrigar diversos tipos de explicação para a escolha do voto. Há eleitores que preferem definir sua justificativa dizendo, com orgulho, votar “na pessoa” e não no partido. Isso não acontece apenas no Brasil, embora tenhamos, aqui, uma história antiga de lideranças que caíram no gosto popular independentemente do partido a que pertenciam. Para quem o adota, o voto dado por simpatia dispensa maiores justificativas ideológicas, evita debates cansativos, e ainda se desvia das disputas partidárias que, muitas vezes, nivelam as campanhas por baixo.

Como se a democracia estivesse acima dos arranjos e casuísmos partidários, ou não dependesse deles para se afirmar e seguir seu curso em cada país – sem medo de tentações autoritárias e ímpetos autocráticos. Com a reeleição de Vladimir Putin como presidente na Rússia, que o levará a mais de duas décadas no poder, parece se consolidar uma nova era do personalismo no cenário global. Além da Rússia de Putin, a Turquia de Recep Erdogan, a França de Emanuel Macron e até a Alemanha de Angela Merkel, passando por Donald Trump (e antes dele, Barack Obama) nos EUA, além da América Latina, têm na ascensão de líderes carismáticos, de viés personalista, a marca de um momento político que sugere tanto uma tendência mundial quanto o reflexo de conjunturas nacionais.

Na China, o presidente Xi Jinping conseguiu a reeleição este ano e deve ficar por muito tempo no cargo além dos cinco anos previstos. Tudo porque foi feita uma emenda à Constituição que acabou com o limite de dois mandatos presidenciais de cinco anos, cada. A emenda também introduziu na carta magna do país o “Pensamento Xi Jinping” e, em seu artigo primeiro, o “papel dirigente' do Partido Comunista Chinês. Com isso, ele poderá permanecer no comando do país além do período do atual mandato, que termina em 2023.

Pablo Capistrano explica que, no caso da Rússia, com exceção de fases rápidas de abertura, nunca houve tradição democrática. “De Pedro, o Grande, a Putin, passando por Ivã, o Terrível e Stálin, não há traços substanciais de uma experiência democrática pluralista”. Será o sinal de uma nova era na política mundial? Quais riscos surgem quando partidos e programas de
países diversos pelo mundo são colocados em segundo plano? “É importante compreender que a democracia na história da humanidade é uma exceção e não a regra”, lembra o professor de Filosofia do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Pablo Capistrano, para quem a maior parte da história humana foi construída com base em regimes nos quais a ideia de soberania popular não era levada em conta.

O atual ciclo de personalismo, portanto, não é coincidência. Mas se baseia, talvez, em novas premissas. “De certo modo é possível que o desgaste dos partidos políticos e o advento de novas lideranças personalísticas sejam realmente o indício de que o intervalo democrático que se estruturou nos últimos dois séculos entre altos e baixos esteja dando sinais de esgotamento”, enxerga  Capistrano.

Para o professor do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, Nuno Canas Mendes, o que se observa pode ser uma reação coletiva a esse esgotamento do modelo. “O personalismo, para alguns visto como populismo, à esquerda e à direita, parece ser uma reação do eleitorado ao establishment, ao politicamente correto, às classes políticas corruptas. As pessoas clamam por uma espécie de devolução do poder ao povo e é isso que estas figuras lhes prometem, porque, em estado de desencanto, as pessoas esperam ouvir o que lhes parece impossível”, avalia Nuno Canas.

A expectativa de que as coisas mudem logo seria canalizada para alguém identificado com tal possibilidade. “Pode ser em estilo trauliteiro, tipo Trump, ou como o extraordinário Duterte das Filipinas, ou em modelo iluminado, como Macron. Há vários perfis possíveis que se nutrem da descrença nos partidos e nos programas, embora também estejamos a assistir à emergência de movimentos políticos que se partidarizam (veja-se o Syrisa ou o Podemos) e cultivam um discurso que também se pode chamar de populista. A democracia está em risco, mas já estava. O recurso à abstenção deixou de chegar como manifestação de desinteresse ou crítica”, adverte o professor da Universidade de Lisboa.

Doutor em Filosofia pela Sorbonne, na França, o professor Érico Andrade, da UFPE, sublinha que a história da política é muito mais uma história centrada em indivíduos, que condensam predicados importantes, do que em ideias. “A política tem caráter muito messiânico, do salvador que redime. A força do político segue o contexto em que ele se encontra. Trump condensa valores morais conservadores porque representa uma virada mais conservadora. Macron é mais progressista, de formação sólida de respeito às diferenças, com a metade do ministério composto por mulheres, num perfil dissonante de outros políticos, como Michel Temer, que iniciou o governo sem uma mulher sequer”, aponta Érico Andrade.

Contexto

No contexto da exceção que, por tanto tempo, foi a regra, como ponderou Pablo Capistrano, Nuno Canas cita o papel histórico de uma figura dominante em seu país, o ditador Salazar, no poder por 41 anos. “No Portugal democrático, o Mário Soares e o Álvaro Cunhal eram homens de grande estatura intelectual, verdadeiros animais políticos. Na atualidade, o personalismo não tem grande expressão em Portugal. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa recorre à imagem dos afetos para fazer o papel de rainha da Inglaterra. É um hiperativo, mas bem ciente do seu papel e competências constitucionais”.

A política personalista também se encontra nos parlamentos e esferas estaduais e municipais de poder. “A este nível, em parlamentos ou em autarquias, é possível identificar a mesma tendência, secundarizando inequivocamente os partidos que se organizam para valorizar a aura destas figuras. Os partidos vivem à míngua de programas ou de ideologias e optam por criar o espaço para a afirmação deste fenômeno; são máquinas a serviço da dita política personalista”, critica o professor da Universidade de Lisboa.

De acordo com Nuno Canas Mendes, os vazios presentes na sociedade contemporânea são preenchidos por um discurso que põe a tônica na denúncia dos excessos do sistema que vigorou até agora. “Trump explora uma recentragem americana, a Senhora Le Pen aflora o protecionismo inteligente, Putin restaura a grande Rússia, Xi Jinping, na China, precisa de mais tempo para poder levar suas políticas reformistas adiante. E este gênero de atitude começa a generalizar-se também em níveis inferiores”.

A comunicação direta com o indivíduo que encarne o poder para resolver todos os problemas é o desejo de um tipo de personalismo que, infelizmente, não tem servido aos brasileiros, mas que conhecemos muito bem.

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