ADVERSÁRIOS

Os desafios que a oposição enfrenta após reeleição de Maduro

A oposição pode contar com apoio internacional que desconhecem os resultados eleitorais, como países das Américas e União Européia

Túlio Feitosa
Túlio Feitosa
Publicado em 21/05/2018 às 11:06
Foto: AFP
A oposição pode contar com apoio internacional que desconhecem os resultados eleitorais, como países das Américas e União Européia - FOTO: Foto: AFP
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As divisões na oposição facilitaram a reeleição de Nicolás Maduro com 67,7% dos votos, em meio a uma abstenção recorde na era democrática venezuelana. Sem reconhecer os resultados, quais os desafios que deverão enfrentar os adversários do presidente?

A reunificação

Os opositores, tanto aqueles que promoveram o boicote como os que participaram da votação, acusaram o governo de comprar votos e chantagear com seus programas sociais. 

As duas facções prometeram "lutar por verdadeiras eleições", primeiro passo para uma reunificação que deve ser "prioridade", pois isoladamente não vão conseguir uma mudança de governo, opinam os especialistas.

"O desafio é se reorganizar. Henri Falcón (principal rival de Maduro na eleição) abriu uma bússola ao não reconhecer os resultados, não queimou as pontes", disse Felix Seijas, diretor do grupo de pesquisas Delphos.

Seijas acredita que a coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD) - que boicotou a votação por considerar "fraudulenta" - e Falcón devem definir uma estratégia única para enfrentar Maduro.

"Abre-se a possibilidade de definir uma estratégia conjunta", estimou igualmente o cientista político John Magdaleno.

O consultor político Aníbal Sánchez também acredita que a oposição deve se concentrar em resolver seus atritos.

"Antes de uma mesa de diálogo com o governo - proposta por Maduro - deve ser estabelecida uma mesa de entendimento dentro da mesma oposição", indicou.

A candidatura de Falcón ampliou as fraturas abertas com a decisão da ala majoritária da MUD de negociar com Maduro. As tentativas fracassaram no início deste ano.

"Aumentar a pressão"

A Frente Ampla, que agrupa a MUD, organizações sociais, sindicatos e chavistas dissidentes, descreveu como "vitória" o fato de a maioria dos eleitores não ter comparecido às urnas e prometeu aumentar a pressão interna para conseguir uma transição.

"A oposição ganha força com a baixa participação (48% de acordo com o poder eleitoral), mas tem o desafio de usar esse fato político para reforçar os protestos sociais", aponta o consultor político Bernard Horande.

Somente em abril, 927 protestos foram registrados, principalmente devido a reclamações trabalhistas, escassez de medicamentos e alimentos e falhas no transporte público, segundo o Observatório de Conflitos Sociais da Venezuela (OVCS).

O cientista político Michael Penfold acredita que a abstenção evidencia "o colapso da máquina chavista, ante o descontentamento com Maduro".

A rejeição ao governo é de 76%, segundo a Venebarómetro.

"O governo tem um apoio interno muito mais fraco (...) A oposição está aberta a uma oportunidade desde que consiga articular uma mensagem que permita ao país ver uma possível transição", acrescenta Penfold.

Aníbal Sánchez acredita que os adversários de Maduro deveriam "acompanhar o descontentamento social, as pessoas que protestam porque continuam sofrendo a crise".

A questão é se uma reunificação da oposição "poderia estimular uma mobilização social que contribua para a fratura da coalizão dominante", ressalta Magdaleno.

A oposição tem amplo apoio internacional: Estados Unidos, Canadá, União Europeia e vários países da América Latina desconhecem os resultados eleitorais. 

Mas internamente há desconfiança após os protestos que não atingiram seu objetivo de tirar Maduro do poder e que deixou cerca de 125 mortos entre abril e julho de 2017.

Renovação

Seijas ressalta que a única forma que a oposição pode recuperar seu "poder de convocatória" - suas últimas manifestações foram modestas - é com uma "renovação".

"Deve haver uma renovação e certamente não há muito incentivo dentro dos partidos. Os jovens líderes terão que ver se conseguem se impor ou se separam", disse ele.

Durante a campanha, Falcón denunciou que a MUD optou pelo boicote devido à "mesquinhez" de seus líderes para escolher um único candidato.

Os principais líderes da oposição estão politicamente inabilitados, como Henrique Capriles ou Leopoldo López - em prisão domiciliar - ou no exílio, como o ex-líder parlamentar Julio Borges e o ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma.

Magdaleno, no entanto, não está otimista sobre essa renovação: "A disputa pela liderança da oposição continuará".

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