CRISE

Reeleição de Maduro pode gerar isolamento e deterioração econômica

Analistas afirmam que conflitos da Venezuela devem ampliar a crise no País; no entanto, Maduro não sofre ameaças de perder o poder

Kevin Fonseca
Kevin Fonseca
Publicado em 21/05/2018 às 21:34
Foto: Luis ROBAYO / AFP
Analistas afirmam que conflitos da Venezuela devem ampliar a crise no País; no entanto, Maduro não sofre ameaças de perder o poder - FOTO: Foto: Luis ROBAYO / AFP
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A reeleição do presidente Nicolás Maduro abre um cenário de maior isolamento, aprofundamento da crise econômica e dos conflitos Venezuela, afirmam analistas. Mas embora a margem de manobra do presidente fique mais estreita, sua permanência no poder por enquanto não parece ameaçada.

Isolamento

Alinhados com a oposição, os Estados Unidos, a União Europeia (UE) e o Grupo de Lima não reconhecem os resultados.

Em represália à reeleição de Maduro, Washington limitou a venda da dívida - incluídas as contas que ainda não venceram - e ativos públicos venezuelanos em seu território.

O Grupo de Lima (formado por Canadá e 13 países latino-americanos, incluindo o Brasil) reduzirá convocará seus embaixadores e bloqueará recursos internacionais a Caracas. A UE já sancionou sete altos funcionários do governo venezuelano e promete ajustar suas ações.

"A consequência imediata será um maior isolamento, incluindo prováveis sanções seletivas dos Estados Unidos e da UE", avalia o Eurasia Group.

Washington já sancionou 60 autoridades, incluindo Maduro, e proibiu seus cidadãos de negociarem a dívida da Venezuela após a declaração da moratória parcial em 2017.

À frente do país com as maiores reservas de petróleo do mundo, Maduro tem como principais aliados Rússia, China e Cuba, além de manter boas relações com o Irã.

Capacidade minada  

A Venezuela está imersa em uma grave crise econômica, com  escassez de produtos básicos e uma infraestrutura de serviços colapsada.

O PIB despencou 45% desde 2013, a inflação pode fechar o ano em 13.800% - segundo o FMI - e a dívida externa ultrapassa os 150 bilhões de dólares.

Tudo isso com um agravante, a produção de petróleo, responsável por 96% das receitas do país, caiu ao nível mais baixo em três décadas (1,5 milhão de barris diários), fazendo que o país não consiga aproveitar o aumento dos preço dessa commodity.

O isolamento e a crise "continuarão minando a capacidade de Maduro para proteger os privilégios" de atores-chave (como os militares), o que dificultará sua permanência no poder, estima o Eurasia.

As sanções americanas dificultam o acesso a financiamento externo e complicam as importações. 

Os Estados Unidos, destino de um terço do petróleo venezuelano, não descartam um embargo petroleiro. Entretanto, a medida deve esperar por conta do impacto que teria no preço da gasolina no país, indica a Eurasia.

Os pagamentos do serviço da dívida se concentram nos próximos quatro anos e são de aproximadamente 10bilhões de dólares anuais, segundo especialistas.

Radicalização

A reeleição de Maduro foi marcada por uma abstenção de 54%, impulsionada pela aliança opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD).

"O governo está com um apoio interno muito mais frágil em suas próprias bases", descontentes com a crise", lembra o cientista político Michael Penfold.

Segundo as pesquisas, o governo Maduro é rejeitado por três quartos dos venezuelanos e a perda de terreno nas eleições pode estimular uma reunificação de seus adversários, hoje divididos.

Isso "coloca mais pressão", opina o analista John Magdaleno.

As divisões da MUD se aprofundaram com a decisão de um de seus dirigentes, Henri Falcón, de enfrentar Maduro nas urnas.

A MUD tentou sem sucesso superar suas disputas internas e reativar o protesto, que teve um ponto culminante em 2017 com mobilizações que deixaram cerca de 125 mortos em quatro meses.

"Se não houver uma fratura na coalizão dominante, a probabilidade de uma transição para a democracia é baixa", opina Magdaleno.

Desse modo, o conflito político e social poderia aumentar. O governo não reconhece Parlamento, único poder que controlado pela oposição, que nesta segunda-feira rejeitou o diálogo.

"O que vem é um cenário de confrontação mais radical", considera Jesús Seguías, diretor do instituto de pesquisas Datincorp. Para ele, contudo, "uma rebelião social não é nada fácil".

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