VENEZUELA

Venezuela ameaçada por mais sanções e crise após reeleição de Maduro

Reeleição de Nicolás Maduro até 2025 é contestada pela oposição e por vários países

Vitor Nascimento
Vitor Nascimento
Publicado em 21/05/2018 às 6:20
Foto: Luis ROBAYO / AFP
Reeleição de Nicolás Maduro até 2025 é contestada pela oposição e por vários países - FOTO: Foto: Luis ROBAYO / AFP
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A Venezuela enfrenta a ameaça de novas sanções internacionais e do aumento da crise social e econômica após a questionada reeleição do presidente Nicolás Maduro até 2025, em eleições não reconhecidas pela oposição e por vários países.

Maduro recebeu no domingo 68% dos 8.603.936 votos, contra 21,2% do ex-chavista Henri Falcón, para quem o processo não teve legitimidade. O candidato opositor acusou o governo de "compra de votos" e "chantagem" com os programas sociais.

Apesar de ter celebrado uma vitória por "nocaute", o presidente foi reeleito em uma votação que registrou um índice recorde de abstenção de 52%, após o boicote convocado pela opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que considerou a eleição uma "farsa" para perpetuar Maduro no poder.

Falcón e o pastor evangélico Javier Bertucci, o terceiro candidato, denunciaram que Maduro coagiu os eleitores com os "pontos vermelhos", locais onde o partido governista registrou os eleitores com um carnê necessário para receber ajuda social.

Estados Unidos, Canadá, União Europeia (UE) e vários países da América Latina respaldaram a MUD, antecipando que não reconheceriam os resultados. Chile, Panamá e Costa Rica reafirmaram a posição nas últimas horas.

O panorama é sombrio para um país isolado e arruinado, com uma população que suporta a falta de alimentos e remédios, um custo de vida muito elevado - um salário mínimo compra apenas meio quilo de carne - e o êxodo de centenas de milhares de pessoas.

A Venezuela sofre a pior crise de sua história recente: o FMI calcula uma queda de 15% do PIB e uma hiperinflação de 13.800% para 2018. A produção de petróleo está no pior nível em 30 anos.

"Os cenários estão cantados: tensão política, radicalização as partes, repressão, desconhecimento internacional em massa, aprofundamento das sanções e o clímax da crise econômica", opina o analista Luis Vicente León.

A catástrofe

Maduro, ex-motorista de ônibus e sindicalista de 55 anos, no poder desde 2013, atribui o colapso a uma "guerra da direita" aliada com Washington, mas seus adversários afirmam que a crise é motivada por uma desastrosa gestão da economia.

Conhecedor da catástrofe, Maduro, reconheceu que deve fazer "mudanças" para obter prosperidade. Mas não explica o que fará para alcançar o que não conseguiu em seu primeiro mandato.

"Me dedicarei por inteiro à recuperação da economia", prometeu ao celebrar a vitória diante de milhares de simpatizantes no Palácio de Miraflores.

Mas Washington parece decidido a não facilitar a vida de Madura. "A farsa das eleições não muda nada", declarou no domingo o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

O governo dos Estados Unidos, país para o qual a Venezuela vende um terço de sua produção de petróleo, ameaça adotar um embargo petroleiro e proibiu que seus cidadãos negociem títulos da dívida venezuelana, depois que o país e a petroleira PDVSA foram declarados em default parcial em 2017.

Maduro confia em seus aliados China e Rússia. "Porém, um novo governo, considerado ilegítimo, não terá capacidade de manobra, nem na área das finanças internacionais nem na diplomacia", adverte Andrés Cañizalez, especialista em comunicação política.

Os demônios internos

Ao proclamar seu triunfo, Maduro convocou um "diálogo nacional", mas a MUD já havia anunciado a intenção de aumentar a pressão por "eleições verdadeiras" ainda este ano. 

Falcón pediu no domingo uma nova eleição em outubro em dezembro, uma demanda apoiada pelo pastor Bertucci.

Mas a oposição está profundamente dividida. Falcón se afastou das determinações da MUD para lançar sua candidatura, o que despertou os demônios internos. Em nenhum momento conseguiu acabar com o estigma de "traidor", acusação que também recebe do lado do chavismo. 

"Falcón não conseguiu vencer Maduro nem a MUD. Seu não reconhecimento da eleição é tardio. Acontecerão recriminações mútuas, as tentativas de capitalizar a abstenção", afirmou à AFP o cientista político Luis Salamanca.

Para Salmanca e León, o grande desafio da oposição é uma reunificação ao redor de uma estratégia que pressione por mudanças, após quase duas décadas de chavismo.

León recorda que a "implosão" representa o "maior risco" de Maduro, se cada vez mais funcionários sentirem que estão encurralados pelas sanções internacionais.

Quase todo o círculo de governo é objeto de sanções da UE e de Washington, que incluiu na sexta-feira o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, a sua lista de 70 autoridades venezuelanas sancionadas - incluindo Maduro.

O presidente tem o apoio da cúpula das Forças Armadas, mas a crise é tão severa que pode provocar uma divergência dentro da aliança cívico-militar governante ou uma ruptura social de maior escala, advertiu o Crisis Group.

O analista Benigno Alarcón considera que, cercado, o governo poderia acelerar a rota para um sistema de partido único como o de Cuba.

Mas os protestos pela falta de água, luz, alimentos e remédios aumentarão, acredita Diego Moya-Ocampos, do IHS Markit (Londres), o que levaria o governo a recorrer à repressão.  

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