Ilha Sentinela do Norte

Especialistas pedem que corpo de homem morto por tribo seja deixado em ilha

Especialistas pediram à Índia que não tente recuperar o corpo de um jovem missionário norte-americano morto em uma ilha por uma tribo que vive isolada

Amanda Azevedo
Amanda Azevedo
Publicado em 27/11/2018 às 21:16
Foto: HANDOUT / SURVIVAL INTERNATIONAL / INDIAN COAST GUARD / AFP
Especialistas pediram à Índia que não tente recuperar o corpo de um jovem missionário norte-americano morto em uma ilha por uma tribo que vive isolada - FOTO: Foto: HANDOUT / SURVIVAL INTERNATIONAL / INDIAN COAST GUARD / AFP
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Especialistas pediram à Índia que não tente recuperar o corpo de um jovem missionário norte-americano morto em uma ilha por uma tribo que vive isolada e que tem sido considerado por parte dos evangélicos como um "mártir".

Os sentinelas, comunidade de caçadores e coletores da ilha Sentinela do Norte, no arquipélago indiano de Andaman e Nicobar, mataram John Allen Chau, de 27 anos, que tentou entrar ilegalmente em seu território para estabelecer contato a fim de evangelizá-los.

Nas últimas décadas, toda tentativa de contato do mundo exterior terminou em hostilidade e rejeição por parte desta comunidade, que contaria com 150 pessoas e que vive isolada há séculos.

A Survival International, organização de proteção dos povos nativos, pediu às autoridades indianas que não tentem uma operação para resgatar o corpo do americano, que se via como "missionário" e queria "levar Jesus" aos sentinelas.

"Qualquer tentativa neste sentido é perigosa, tanto para os funcionários indianos, como para o povo sentinela, que poderia ser exposto a doenças externas às quais não tem defesa", declarou na segunda-feira em um comunicado Stephen Corry, diretor da Survival International.

Segundo esta ONG, os sentinelas são descendentes das primeiras populações humanas que saíram da África e vivem em Andaman há 60.000 anos.

Além de provocar um choque de civilizações, um contato com o mundo exterior poderia ser fatal para os sentinelas, que, tendo evoluído à margem da humanidade, não possuem um sistema imunológico adaptado aos agentes infecciosos trazidos por intrusos.

"O risco de uma epidemia mortal de gripe, sarampo ou outra doença externa é real e aumenta com cada contato desse tipo", disse Corry.

Uma posição reiterada por um grupo de antropólogos e autores indianos em um comunicado comum.

"Os direitos e desejos dos sentinelas devem ser respeitados e nada se ganha acentuando o conflito e as tensões, e, pior ainda, criando uma situação em que mais danos podem ser causados", disseram em um texto enviado à imprensa.

As autoridades realizam sua busca observando a ilha a distância, para evitar o contato com os nativos. A lei indiana proíbe a aproximação da Sentinela do Norte a menos de cinco quilômetros.

Missionário

A polícia abriu uma investigação e prendeu sete pessoas, incluindo seis pescadores, acusados ??de terem ajudado o viajante americano em seu projeto. Os especialistas excluem sanções contra a tribo.

As autoridades locais, assessoradas por antropólogos e especialistas em populações tribais, explicaram que uma possível recuperação do corpo, se ocorrer, poderia levar semanas.

Os pescadores que levaram ilegalmente John Chau à ilha e que alertaram seu desaparecimento contam que viram membros da tribo enterrando o corpo na praia.

"Sua família merece que o corpo de John seja levado para casa, onde poderá ser enterrado", declarou na semana passada Mat Staver, presidente da organização Covenant Journey, que organiza viagens a Israel para estudantes cristãos e com a qual John Chau viajou 2015.

Embora o caso tenha desencadeado uma tempestade de críticas, uma parte do mundo evangélico americano transformou o jovem em um "mártir". Segundo eles, a sua morte faz parte da longa lista de missionários assassinados durante séculos em suas ações para espalhar o Cristianismo.

"Meus heróis são pessoas como John Allen Chau que, em 17 de novembro, foi morto como um mártir pela tribo dos sentinelas", escreveu nas redes sociais o televangelista Tony Suarez.

Em sua conta no Instagram, o jovem refletia acima de tudo a imagem de um aventureiro. Mas seu diário de bordo, que manteve até as últimas horas, revelou que sua aventura foi preparada por um longo tempo e secretamente "em nome de Deus". 

No ano passado, ele se juntou à organização de missionários All Nations, que lhe forneceu treinamento.

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