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Editorial: Nossa pobreza do século 21

Os jovens brasileiros nascidos logo após a virada do milênio encontraram um cenário de dificuldades e poucas oportunidades

Maria Eduarda Bravo
Maria Eduarda Bravo
Publicado em 27/04/2018 às 10:29
Foto: Arte/JC
Os jovens brasileiros nascidos logo após a virada do milênio encontraram um cenário de dificuldades e poucas oportunidades - FOTO: Foto: Arte/JC
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Os jovens brasileiros nascidos logo após a virada do milênio encontraram um cenário de dificuldades e poucas oportunidades. Adolescentes de até 14 anos compõem um grupo demográfico que revela a persistência de antigo problema nacional. É o que dizem os dados de pesquisa da Fundação Abrinq sobre a constatação de situação de pobreza entre a juventude dessa faixa etária: mais de 40% no País e mais de 60% em Pernambuco. Se o levantamento em todo o território brasileiro é alarmante, o recorte em nosso Estado desenha uma calamidade social, para a qual o desafio do poder público mora na reversão urgente de um quadro de descontrole.

Pernambuco se destaca no painel como o 5º pior colocado no ranking dos estados sobre a infância exposta à pobreza no Brasil. Provavelmente não é coincidência que a violência tenha voltado a crescer em 2014, mesmo ano em que a quantidade das famílias recebendo até meio salário mínimo como renda também cresceu. Os índices de violência tendem a se elevar no ambiente de vulnerabilidade social. “As desigualdades sociais estão por trás das estatísticas de vulnerabilidade básica e das estatísticas de violência. É uma relação íntima e direta entre todos os fatores de vulnerabilidade social que afetam a infância e a violência”, afirmou Heloisa Oliveira, gestora executiva da Fundação Abrinq.

Violência

A eclosão da violência tem gerado mais homicídios que vitimam exatamente os jovens habitantes das periferias. Muitas mortes estão ligadas ao tráfico de drogas, cuja interferência na juventude sem oportunidades é conhecida. Transformada em meio de vida, a droga leva ao fim precoce da vida de milhares de jovens no Brasil. Em Pernambuco, o cenário é dramático por causa da disseminação da pobreza. Nos últimos anos, a explosão da insegurança e o empobrecimento dos pernambucanos demonstram a incapacidade do poder público de propor e aplicar políticas adequadas de desenvolvimento. Assim, a decadência econômica traz a degradação social – que amplia o grau da decadência, fazendo com que a juventude pobre não tenha condições de se posicionar para o mercado de trabalho.

Cria-se um círculo vicioso do qual é demorado, e difícil, sair, sem investimentos de porte em educação e na criação de empregos. Com 2,5 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, a sete anos do prazo de erradicação previsto pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil vê nascerem e crescerem gerações de subcidadãos. O século 21 chegou há quase duas décadas e o País do futuro não saiu do canto. Os mais de 17 milhões de jovens de até 14 anos em condição de pobreza representam um contingente populacional para os quais as políticas públicas já falharam. E em relação aos quais os governos e seus programas terão que correr atrás de enorme prejuízo. Como daqui a menos de seis meses teremos eleição presidencial e de governadores, o passivo da infância perdida precisa estar no 1º plano do debate.

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