EDITORIAL

Além do fracasso bolivariano

Enquanto na Venezuela o fracasso político é traduzido em crise humanitária, do lado de fora o conflito virtual geopolítico faz renascer o xadrez da Guerra Fria

Ana Tereza Moraes
Ana Tereza Moraes
Publicado em 05/05/2019 às 7:45
Editorial
Foto: AFP
Enquanto na Venezuela o fracasso político é traduzido em crise humanitária, do lado de fora o conflito virtual geopolítico faz renascer o xadrez da Guerra Fria - FOTO: Foto: AFP
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Bandeiras e boinas vermelhas compõem o cenário em que o predomínio é da cor típica da farda dos soldados. À frente do pelotão, o rosto que leva o único bigode da moldura, em trajes diferentes do resto da formação, tem o semblante fechado em sua marcha. O peso visível no andar coletivo quer demonstrar alegada prova de força após a tentativa frustrada de tomada do poder pela oposição. A foto de capa do JC de sexta-feira trouxe o quadro mais realista do governo de Nicolás Maduro, e do regime que herdou do falecido Hugo Chávez. A imagem carrega, por trás, o tamanho da crise política em um país econômica e socialmente convulsionado, com a população empobrecida sofrendo desabastecimento de comida e remédio a energia. Uma nação enfraquecida, amedrontada, busca saídas para o impasse de um governo que não se cansa de exibir aparência de firmeza e posar de corajoso diante das acusações que vêm de seu próprio povo.

A fisionomia de Maduro, captada pela câmera com fins de propaganda do regime, deve se manter pesada nos próximos dias. A resposta ao movimento encabeçado por Juan Guaidó – deputado que se autodeclarou presidente interino, recebendo o reconhecimento de mais de 50 países, entre os quais o Brasil – foi elevar a repressão nas ruas e a censura aos meios de comunicação. Para sufocar qualquer risco ao governo. E por extensão, aos militares, já que o governo venezuelano é composto, em grande parte, por integrantes das Forças Armadas, que ocupam ministérios, estatais, governos estaduais e até empresas privadas consideradas estratégicas. Daí a enorme dificuldade de mobilização dos quartéis e dos líderes militares contra Maduro.

Enquanto na Venezuela o fracasso político de um delírio é traduzido em catástrofe humanitária, do lado de fora o conflito virtual no campo de batalha da geopolítica faz renascer o xadrez da Guerra Fria. Qual o motivo da disputa entre as superpotências que parecem enxergar no conturbado território venezuelano uma oportunidade de nostalgia? O tamanho da reserva de petróleo no país de Maduro e seus fiéis militares é a resposta mais comum. Mas não se descola de algum simplismo, se levarmos em conta a transição da matriz energética mundial para fontes sustentáveis. Há algo de tenebrosamente familiar nas figuras dos presidentes da Venezuela, da Rússia e, também, dos Estados Unidos. Maduro, Putin e Trump agem como líderes de um passado que a humanidade gostaria de ter superado.

A versão norte-americana de que os russos teriam convencido Maduro a não fugir para Cuba parece cena de filme, com atores e enredos que pararam no tempo. A democracia, por sua vez, não é um conceito local, versátil de acordo com as cores e a época no poder. Ou é um valor universal, atemporal, ou não é nada. Além do fracasso bolivariano, a crise na Venezuela é a síntese dos problemas de governação que afligem o sistema democrático atual, em vários recantos do planeta.

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