DISPUTAL ELITORAL

Editorial: Eleições primárias na Argentina refletem dificuldades de Macri

Se o presidente argentino retomar a confiança coletiva em seus propósitos éticos e liberais, tem chance de continuar no tango eleitoral

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 13/08/2019 às 7:16
Editorial
Foto: JUAN MABROMATA / AFP
Se o presidente argentino retomar a confiança coletiva em seus propósitos éticos e liberais, tem chance de continuar no tango eleitoral - Foto: JUAN MABROMATA / AFP
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O resultado das primárias realizadas esta semana para a eleição presidencial na Argentina, marcada para outubro, refletiu as dificuldades que o governo de Maurício Macri vem enfrentando desde que assumiu o mandato. Empossado sob a promessa de resgatar o país do populismo de esquerda, recuperar a economia e engatar um novo tempo liberal, Macri se depara com a perspectiva de sair da Casa Rosada antes de ter aplicado, em profundidade, o receituário pelo qual chegou ao poder. A continuidade dos problemas enfrentados pela população, a ameaça de alta inflacionária e a fragilidade da base política levaram os cidadãos que votaram nas prévias a conferir uma considerável vantagem ao candidato Alberto Fernandez, ligado à ex-presidente Cristina Kirchner – anunciada como candidata a vice. O candidato que desponta como favorito foi chefe de gabinete dos Kirchner, tanto do marido de Cristina, Nestor, quanto dela própria, na Casa Rosada.

O peronismo vislumbra o retorno ao comando político da Argentina, através da candidatura de Fernandez ao lado da ex-presidente, acusada de corrupção, que se valeu do mandato de senadora para garantir foro privilegiado. “Esta eleição define os próximos 30 anos”, declarou Mauricio Macri, procurando interpretar o sentido das primárias. Para ele, o resultado eleitoral vai expressar muita coisa para dentro e para fora do país. De fato, assim como a conjuntura eleitoral espelha de maneira incontornável a inflação que chegou a 22% no semestre.

A situação da economia argentina fez com que Macri recorresse ao congelamento de preços, ao corte de subsídios e a um empréstimo junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Para manter o controle das contas e seguir as orientações do FMI, o presidente terá que se colocar na campanha sem grande ousadia retórica. Possivelmente investirá na manutenção do discurso que o alçou à cadeira presidencial. Resta saber se o eleitorado está disposto a dobrar a aposta. Pelos números das primárias, a desconfiança com o atual governo cresceu. A alta dos preços da cesta básica pode ter sido a gota d’água para a impaciência dos eleitores com o discurso liberal sem consequências práticas, até agora, para tirar o país da recessão.

Polarização

Entre os dez postulantes à eleição presidencial deste ano, além de Macri e Fernandez, aparece Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia, que se apresenta como alternativa de centro-esquerda, também peronista. Segundo analistas, contudo, é improvável que a decisão das urnas se desvie dos polos formados entre os dois principais concorrentes. Além disso, o debate econômico, que ajudou Macri a se eleger, tende a tirar votos dele agora, na medida em que a realidade da economia se opõe ao governo.

No tango eleitoral que se ensaia, a Argentina hesita entre a volta da corrupção populista e a permanência da ineficiência da atual gestão. Se o presidente retomar a confiança coletiva em seus propósitos éticos e liberais, tem chance de continuar na dança. 

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