DESEMPREGO

Editorial: A escalada do desalento no Brasil

Segundo o IBGE, um em cada quatro desempregados no Brasil procura emprego há mais de dois anos

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 19/08/2019 às 7:27
Editorial
Foto: Agência Brasil
Segundo o IBGE, um em cada quatro desempregados no Brasil procura emprego há mais de dois anos - Foto: Agência Brasil
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A história se repete como tragédia e com uma cara fantasmagórica: o desemprego em alta escala, com suas filas que parecem intermináveis e sempre escandalosas quando feito o cotejo entre a quantidade de candidatos e candidatas e o número de vagas disponíveis. A proporção às vezes chega a uma vaga por mil candidatos, o que é um indicador insustentável em qualquer cenário econômico. Como é o caso agora, entre nós, quando o IBGE acrescenta um ingrediente que não chega a ser novo mas é sempre impactante: um em cada quatro desempregados no Brasil procura emprego há mais de dois anos.

Fica até difícil a tentativa de explicar e entender as condições de pessoas procurando um meio de sobrevivência durante dois anos ou mais, o que isso representa para quem procura e para quem delas depende para se alimentar, se vestir, usar transporte, estudar. É uma equação sem resolução e aí está a gravidade de um problema que transcende os números, tem um rosto e é tão assombroso quanto o que é mostrado nas grandes filas: o desalento como expressão dos que procuram, se oferecem, esperam penosamente, até chegar ao ponto em que não há mais o que esperar.

No momento em que se caracteriza essa condição de desalento, carregada de sentimentos negativos e de conotação sociológica, cabe perguntar o que resta: o fim da esperança ou o começo do rancor? Qualquer que seja a resposta, ficará pendente uma relação humana gravíssima e potencialmente explosiva. E é importante e inevitável lembrar que nossa Região, o Nordeste, parece sempre um território experimental para traçar linhas, gráficos, números que expressam o lado mais delicado da nação, a dificuldade da sobrevivência num quadro econômico em que não há produção suficiente para atrair mais mão de obra, nem riqueza distribuída proporcionalmente às carências de cada Estado.

O retrato da tragédia

Tempo houve em que essa desproporção era suprida por políticas públicas compensatórias, como foi por algum tempo com o Norte e Nordeste e seus regimes tributários de incentivos fiscais diferenciados trazendo para as duas regiões mais investimentos e mais empregos, sustando por algum tempo o fenômeno demográfico do êxodo para o Sudeste. Foi assim, não é mais, e o resultado é visível nos indicadores do IBGE, que desenham um mapa de dificuldades, com a repetição de um velho refrão, mostrando o Nordeste como a região do desalento: tem quase 3 milhões de pessoas nessa situação. 2,919 milhões de habitantes da região não procuravam emprego quando foi feita a pesquisa, por acreditar que não conseguiriam uma vaga. Eis o retrato da tragédia.

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