ORLA

Editorial: Chuveirões do Recife viram 'lendas urbanas'

Na falta dos equipamentos prometidos pela prefeitura, banhistas recorrem a gambiarras criadas por barraqueiros

JC Online
JC Online
Publicado em 08/10/2019 às 7:29
Notícia
Foto: Bianca Sousa/JC Imagem
Na falta dos equipamentos prometidos pela prefeitura, banhistas recorrem a gambiarras criadas por barraqueiros - FOTO: Foto: Bianca Sousa/JC Imagem
Leitura:

A história dos 110 chuveiros anunciados para as praias do Recife tem tudo para ser incorporada à narrativa do fantástico, assombroso, tema de livros, crônicas, até filmes, conhecida pela expressão “lendas urbanas”. Esses chuveiros anunciados há três anos e nunca vistos seriam uma das lendas, uma história entre muitas que podem ser contadas sob uma ótica mais prosaica: no lugar do fabuloso, o cotidiano, o atendimento de necessidades que deveriam ser incorporadas à vida da cidade e viram lendas, ficam apenas na intenção de governantes e na frustração dos habitantes.

Mas há também aspectos mais graves, e o caso dos chuveiros é uma lenda urbana que tem sua conotação assombrosa: na falta dos 110 equipamentos prometidos, banhistas recorrem a gambiarras criadas por barraqueiros – uma forma de atrair a clientela – que bombeiam água do lençol freático e criam seus próprios chuveirões. Poderia ser apenas uma espécie de jeitinho brasileiro para suprir a ausência do poder público, mas nesse caso a emenda cria um problema sério: estudos da Universidade Federal de Pernambuco já mostraram que a água do improviso é altamente contaminada.

A mais recente análise mostrou, no mês passado, que a água das gambiarras era imprópria para uso e banho. Silvana Calado, professora do Departamento de Engenharia Química e orientadora da pesquisa, fez uma advertência para a qual não se pode buscar contraprova: as amostras analisadas podiam ser comparadas a água de esgoto. Um caso evidente de saúde pública, como alerta a professora, com um agravante que é a urgência de se corrigir o problema, sobretudo porque ele faz parte da temporada balneária, de um período em que mais pernambucanos e visitantes têm nas praias o melhor espaço de lazer e é inimaginável ver banhistas consultando barraqueiros sobre a qualidade da água dos chuveiros improvisados.

Não se pode dizer que a omissão é absoluta, pois a Diretoria Executiva de Controle Urbano do Recife informa que, em 2016, desativou 47 pontos de água na orla, que a Vigilância Ambiental faz fiscalização periódica, que a última, em abril, revelou a descontaminação da água, e que ainda neste mês a inspeção será retomada.

Licitação

Que assim seja, como uma forma de se sobrepor aos entraves burocráticos que dificultam o caminho de quem deveria ter instalado chuveiros em condições ideais para a população há três anos, agora com a explicação típica de uma lenda urbana descrita pelo linguajar burocrático: “O processo está em fase de atualização da planilha orçamentária para lançamento de novo edital de licitação. Seriam iniciados dois processos licitatórios. Um para a conclusão da obra e outro para a operacionalização”.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias