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Editorial: IBGE expõe os profundos contrastes sociais do Brasil

Os dados do IBGE mostram que os contrastes brasileiros são profundos demais para encontrar soluções fáceis de palanque eleitoral

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 09/10/2019 às 7:47
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Foto: Leo Motta/JC Imagem
Os dados do IBGE mostram que os contrastes brasileiros são profundos demais para encontrar soluções fáceis de palanque eleitoral - FOTO: Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O IBGE dá “de mão beijada” o mote para os políticos, em todas as áreas. Os que já estão no poder e os que estão de olho nas próximas eleições municipais. Não é que os políticos não saibam que proclamar o óbvio faz parte da história do nosso País e das condições sociais a cada eleição que passa: há carência de habitação, de atendimento à saúde e à educação, e o que poderia parecer um truísmo, uma evidência, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística atualiza. A Pesquisa de Orçamentos Familiares correspondente aos dois últimos anos que acaba de divulgar é mais um documento precioso para a construção de um Brasil de corpo inteiro, em que o perfil das pessoas é mais que um número estatístico. Ali estão as condições reais em que vivemos, o que trazemos de melhor do passado e como clarear os caminhos possíveis de serem percorridos para que a nação possa apregoar, como se costuma fazer, que somos um povo feliz, um povo que ri.

Na verdade, porém, não há motivo evidente para felicidade, para riso fácil em uma sociedade tão desigual como é a nossa, muito menos quando uma entidade oficial ouve o povo, tabula os resultados e tira conclusões como essa da Pesquisa de Orçamentos Familiares, onde fica claro onde a população gasta mais e as diferenças que revelam nossas desigualdades. Isto é, o IBGE vai muito além do empirismo, do “chute” com que muitos políticos enchem os ouvidos das pessoas para mostrar que conhecem os problemas básicos da sociedade e têm os meios de resolvê-los.

Pelos dados do IBGE, pode-se afirmar que não é tão fácil. Os contrastes brasileiros são profundos demais para encontrar soluções fáceis de palanque. Como explicar, por exemplo, que na década de 2007 a 2017 os brasileiros viveram uma época diferenciada, para melhor, em relação a quase todo o trajeto republicano? O que explica que naquele período as pessoas consumissem mais, que as classes se fortaleceram e quem era pobre ficou menos pobre? Não está, nessa tabulação do IBGE um forte indicador a ser prospectado, investigado, quem sabe para se buscar um vale a pena ver de novo? Estão os nossos políticos ou candidatos a políticos no ano que vem conscientes de que o poder de compra das pessoas aumentou seis vezes entre 2003 e 2014?

É preciso atender as demandas

Pode-se tirar das respostas a essas questões um indicador do grau de responsabilidade e comprometimento de qualquer dirigente. Porque não basta tomar conhecimento dessa importante pesquisa do IBGE; é fundamental que lhe seja dada consequência, sentido, que entre no mundo das necessidades sociais e a forma de atendê-las. Isso vale principalmente para nós, nordestinos, onde os indicadores sempre são mais amargos, aparentemente descolados do resto do Brasil. Não é o caso específico desta pesquisa, mas há números que confirmam, como o menor gasto médio das famílias nordestinas em relação às demais, e até o caso específico de Pernambuco, onde se vê um desempenho razoável mas distante do oposto, do segmento com maior renda, onde se forma um contraste a ser melhor digerido por todos os que se preocupam com a questão social.

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