INDICADO AO OSCAR

Igor Maciel: Democracia em Vertigem usa uma narrativa de desencanto adolescente

Leia o comentário de Igor Maciel sobre o documentário brasileiro

Carolina Fonsêca
Carolina Fonsêca
Publicado em 13/01/2020 às 14:57
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Foto: Reprodução/Netflix
Leia o comentário de Igor Maciel sobre o documentário brasileiro - FOTO: Foto: Reprodução/Netflix
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Democracia em Vertigem, o documentário brasileiro indicado ao Oscar, que trata o impeachment de Dilma em 2016 como um golpe e quase como o início do fim da Democracia, usa uma narrativa de desencanto adolescente que é um perigo para diabéticos. Fora isso, é tecnicamente bom e registra momentos importantes da História Brasileira.

Telespectadores adultos que quiserem assistir e aproveitar algo podem tentar fazê-lo não pelo centro do discurso bobo que ignora a Constituição Federal para fazer alguém acreditar que algo ilegal aconteceu, mas pelas margens da linguagem corporal e por alguns bastidores capturados no filme, comprovando inclusive o que petistas sempre negaram.

Em determinado ponto, por exemplo, no período em que Dilma preparou-se para colocar Lula em um ministério e presentear-lhe com foro privilegiado, as câmeras e os microfones da equipe acabaram flagrando um telefonema do ex-presidente para alguém. Na ligação, Lula admite que a situação estava difícil e que Dilma havia concordado em dar um jeito. Ele conta à pessoa do outro lado da linha que ela iria nomeá-lo ministro, como subterfúgio.

Em alguns momentos há falas de Dilma reclamando de Lula. A ex-presidente, por sinal, sempre parece desanimada no vídeo ao falar sobre o antecessor, diz que ele não escuta ninguém e não pergunta nada a ninguém quando decide algo, em alguns momentos dá a entender que a situação chegou ao ponto que chegou por culpa dele.

Bem antes, quando as imagens mostram a apuração que terminou com a vitória eleitoral de Dilma, numa sala privada do Planalto, o que se vê é um Lula animado, pulando de alegria, enquanto uma Dilma entristecida e deprimida, apesar da vitória, aparece. Ele a parabeniza, abraça e beija. Ela fica dura, quase não o abraça e força um sorriso. Claramente não parece feliz.

Há imagens também dos encontros que Lula teve com parlamentares em um hotel de Brasília, um por um, como um tipo de beija-mão, antes da votação que determinou o afastamento de Dilma já em 2016. Quem estava em Brasília, como eu, na época, ouviu rumores desses encontros privados, mas ninguém confirmava. Na ocasião se falava até em distribuição de dinheiro por votos. As imagens do documentário não mostram nada ilegal, claro, mas Lula estava mesmo lá.

Democracia em Vertigem é um ótimo exemplo de um trabalho que merece sim ser assistido, mas talvez não pelos motivos que a autora imaginou.

*Igor Maciel é colunista do Jornal do Commercio

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