DESAFIO

Bolsonaro terá que lidar com necessidade imediata de gerar empregos

A retomada do dinamismo do mercado de trabalho será um dos principais temas a serem considerados pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL)

Adriana Guarda ADRIANA GUARDA
Adriana Guarda
ADRIANA GUARDA
Publicado em 29/10/2018 às 7:55
Foto: AFP
A retomada do dinamismo do mercado de trabalho será um dos principais temas a serem considerados pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL) - FOTO: Foto: AFP
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Sem dinheiro para a passagem, muitas vezes Mário Oliveira precisa pedir carona ao motorista de ônibus para se deslocar do bairro do Ibura, onde mora, até a Agência do Trabalho da Rua da Aurora, em Boa Vista. Nos últimos meses, a rotina dele de segunda a sexta-feira tem sido chegar cedo à Agência, pegar uma ficha e esperar atendimento. Desempregado há dois anos, o servente de obras sustenta a mulher e o filho com R$ 89 que recebe do Bolsa Família e com os poucos bicos que consegue. Mário faz parte da estatística de 12,4 milhões de brasileiros desocupados. Nos anos de recessão (2015 e 2016), o País eliminou 2,9 milhões de empregos com carteira assinada e a tendência negativa persistiu em 2017 (-123,4 mil), apesar do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1%. Este ano sinaliza uma recuperação, mas ainda em ritmo lento. A retomada do dinamismo do mercado de trabalho será um dos principais temas a serem atacados pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). 

Especialistas ouvidos pelo JC explicam que não existe milagre. Os empregos voltam com equilíbrio fiscal, investimentos e confiabilidade no ambiente político. “Historicamente, o emprego é o último setor a sentir os impactos de uma crise econômica, mas também é o último a se recuperar. Isso ficou claro em 2014, quando a desaceleração econômica já era percebida e a geração de empregos continuava a crescer. Depois vieram as demissões e hoje se observa uma lenta retomada. Isso acontece porque a volta do emprego formal está relacionada a segurança, confiança. O empresário espera como a economia se comporta e só investe quando percebe que há uma perspectiva de crescimento sustentável, duradoura”, observa a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Maria Andréia Lameiras.

No ano passado, quando a economia começou a dar sinais de recuperação, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) ainda contabilizou o fechamento de 123.429 vagas de emprego com carteira assinada no País. De janeiro a setembro deste ano, a criação de 719 mil vagas é quase seis vezes maior que a registrada em todo o exercício de 2017. Apesar do avanço, o desempenho do mercado de trabalho ainda é considerado lento pelos especialistas na área. 

Pesquisador do Ibre/FGV e do IDados, Bruno Ottoni, defende a criação de mais agências do trabalho e mudanças na política de emprego, que poderia contar com a entrada da iniciativa privada. “São poucas as agências públicas do trabalho no País e uma saída para resolver essa lacuna seria dar incentivo para que fossem criadas agências privadas. O pareamento entre candidato e vaga é algo que precisa ser feito com mais eficiência. Isso ajudaria a minimizar o problema do desemprego entre os jovens, por exemplo”, sugere. Dados divulgados pelo IBGE mostram que, entre os trabalhadores com idade de 18 e 24 anos, a taxa de desemprego é mais que o dobro da taxa da população em geral. Enquanto a taxa geral ficou em 12,4% no segundo trimestre deste ano, entre os jovens esse percentual salta para 26,6%.

Taciana Carlos da Silva, 21 anos, está exatamente nessa faixa etária. Conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada em 2015, depois de concluir o ensino médio. Recebia um salário de R$ 1.010 para trabalhar em uma creche no bairro da Imbiribeira, onde mora com os pais e mais dois irmãos. “Com o dinheiro que recebia ajudava em casa, principalmente com a alimentação da minha família. No ano passado, a creche fechou por causa da crise e eu perdi o emprego. Desde então estou procurando, mas não aparece nada. Estou tentando alguma vaga na área de educação, já que adquiri alguma experiência, ou como atendente de loja ou consultório”, diz. Taciana sonha em cursar universidade na área de Farmácia, mas afirma que vai adiar o desejo porque a prioridade é voltar ao mercado de trabalho para reforçar a renda da família. O pai está tentando se aposentar e a mãe trabalha como faxineira.

A pesquisadora do Ipea Maria Andréia explica que, historicamente, a taxa de desemprego é mais alta entre os jovens tanto no Brasil quanto em âmbito mundial. “A boa notícia é que os jovens brasileiros estão chegando ao mercado de trabalho mais escolarizados. Por outro lado são duplamente prejudicados, porque encontram dificuldade para entrar no mercado de trabalho pela falta de experiência e, nas crises, são os primeiros a perder o emprego. Isso porque os mais jovens geralmente têm menos tempo de serviço prestado na empresa e os custos das demissões são menores, além de que as companhias costumam manter os profissionais mais experientes e qualificados”, observa. 

Outro desafio que o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), vai enfrentar é impulsionar a geração de empregos formais para reduzir os níveis de informalidade. Dados do IBGE, apontam a existência de 53,9 milhões de trabalhadores informais e 37,3 milhões de informais, no segundo trimestre de 2018, representando um aumento de quase um milhão de pessoas. “A informalidade precisa ser conjuntural, temporária. Nos momentos de crise surgem os empreendedores por necessidade, mas essa informalidade torna precário o trabalho, reduz renda e os direitos de proteção social”, analisa a economista pernambucana e professora do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Juliana Bacelar de Araújo.

Peregrinação na Agência do Trabalho

O servente de obra Mário Oliveira, 45 anos, é figura conhecida na Agência do Trabalho, da Rua da Aurora. Desempregado há dois anos, aparece toda semana para procurar emprego. Já conseguiu várias cartas de recomendação, mas sempre esbarra na quantidade de pessoas disputando uma vaga. 

Estatística mais cruel entre os jovens

Taciana Silva, 21 anos, só teve um emprego com carteira assinada. Com a crise, a creche onde ela trabalhava fechou no ano passado. Desde então, passou a integrar a estatística de 710 mil desempregados em Pernambuco. Entre os jovens, a taxa chega a 32% desse total, contra 16,9% do índice geral no Estado.

Informalidade só até o emprego aparecer

Fabiana da Silva, 35 anos, trabalhava como costureira numa fábrica de bolsas, mas as encomendas minguaram e ela foi demitida. Hoje trabalha em casa e em alguns meses chega a ganhar mais do que quando tinha carteira assinada. “Mas prefiro ter emprego, porque trabalhar por conta própria é incerto e acabamos não tendo vários benefícios”, diz. 

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