Opinião

Igor Maciel: No Recife, Lula chamou mais atenção pelo que não disse do que pelo que disse

''Lula fez questão de evitar a incitação à baderna e o chamado à convulsão social que marcaram as primeiras falas''. Leia comentário de Igor Maciel

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 18/11/2019 às 8:30
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''Lula fez questão de evitar a incitação à baderna e o chamado à convulsão social que marcaram as primeiras falas''. Leia comentário de Igor Maciel - FOTO: Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
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Igor Maciel, da coluna Pinga Fogo*

Lula chamou mais atenção pelo que não disse do que pelas frases que repetiu no Recife. Repetiu, porque todo o discurso foi praticamente um resumo de quase tudo que ele já havia dito em Salvador, em Curitiba e em São Paulo. O que Lula fez questão de evitar foi a incitação à baderna e o chamado à convulsão social que marcaram as primeiras falas. O tom mudou depois que o ex-presidente foi chamado de irresponsável e criticado até por outros petistas.

Outra ausência no discurso de Lula foi a dos políticos pernambucanos. Os únicos pernambucanos citados foram Lia de Itamaracá – que se apresentou um pouco antes no palco – e o próprio Lula, que não esqueceu de lembrar da própria origem. Nenhuma referência aos petistas pernambucanos. Humberto Costa (PT), Marília Arraes (PT), ninguém. Abrindo um pouco o leque, nenhuma referência a qualquer socialista também, nem mesmo ao ex-governador Eduardo Campos que ele costumava dizer que era como um filho. Em Pernambuco, Lula citou ainda Fernando Haddad (PT) que apareceu por alguns segundos no palco, e depois lembrou que estava em companhia do “melhor ministro da Ciência e Tecnologia que o Brasil já teve: Sérgio Resende”. Poderia ter aproveitado para citar Campos, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, mas nem isso.

Não é que ele tivesse como esquecer os colegas do PSB, já que havia acabado de sair de um almoço com Renata Campos, João Campos, Geraldo Júlio e Tadeu Alencar antes de ir para o palco. A agenda seguinte do ex-presidente também era significativa, iria jantar na casa de Marília Arraes.

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O fato é que Lula parece ter saído da prisão com vontade de fazer uma revolução e está descobrindo que não há clima para isso e que a realidade é um pouco diferente do que passavam pra ele nas visitas. Ele vai descobrindo, sozinho, aos poucos e ajustando o discurso. Também não está disposto a carregar ninguém no colo sem ter certeza de que pode confiar no sujeito ali disposto a receber o apoio. As pessoas mudam em um ano e meio, ele inclusive.

Quem esperar apoio de Lula agora vai encontrar silêncio, quem esperar alianças vai encontrar um sorriso-drible e um tapinha nas costas. Quem esperava um revolucionário vai encontrar, por enquanto, um compilado de auto-ajuda voltado para tentar manter acesas algumas velas enquanto ele descobre onde instalaram o disjuntor.

Depois de desejar tanto a liberdade para iluminar a esquerda, Lula agora tenta entender como faz pra acender a luz sem pifar toda a precária instalação.

*Igor Maciel é titular da coluna Pinga Fogo, no Jornal do Commercio

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