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Deputado critica campanha 'Não é Não' e diz que assédio 'massageia o ego'

O deputado estadual catarinense Jessé Lopes (PSL) fez uma publicação contra campanha de combate ao assédio no Carnaval

Amanda Azevedo
Amanda Azevedo
Publicado em 13/01/2020 às 21:54
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O deputado estadual catarinense Jessé Lopes (PSL) fez uma publicação contra campanha de combate ao assédio no Carnaval - FOTO: @naoenao_ via Instagram
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Contra a campanha de um coletivo que pede doações para distribuir adesivos com os dizeres 'Não é Não' durante o Carnaval, o deputado estadual catarinense Jessé Lopes (PSL) fez uma publicação no Facebook, no sábado (11), dizendo que assédio 'massageia o ego' e que as mulheres têm o direito de serem assediadas. 

"Após as mulheres já terem conquistado todos os direitos necessários, inclusive tendo até, muitas vezes, mais direitos que os homens, hoje as pautas feministas visam em seus atos mais extremistas tirar direitos. Como, por exemplo, essa em questão, o direito da mulher poder ser 'assediada' (ser paquerada, procurada, elogiada...). Parece até inveja de mulheres frustradas por não serem assediadas nem em frente a uma construção civil", disse o deputado em trecho da publicação.

"Toda mulher sabe lidar com assédio. Obviamente estou falando do assédio no sentido que o próprio movimento generaliza (dar em cima), e não de atos agressivos e perturbante. Crime não se previne e nem se combate com tatuagens!", acrescentou Jessé Lopes.

Nas redes sociais, o coletivo Não é Não repudiou a fala. Leia a nota abaixo:

Nós, integrantes do coletivo Não é Não, viemos através desta manifestar nosso apoio e solidariedade a todas as mulheres que, como nós, tiveram suas histórias de luta - e, por que não dizer, sofrimento - diminuídas pela fala pública de um parlamentar em suas redes sociais.

Para nós, que militamos pelo fim do assédio às mulheres nos espaços públicos em mais de 15 estados brasileiros, é incoerente que um homem alheio às questões que discutimos e combatemos utilize seu espaço de poder para propagar desinformação e argumentos confusos sobre a atuação do coletivo.

É extremamente triste perceber, em atitudes como esta, a persistência de uma cultura machista e misógina, que continua a perpetuar e defender o comportamento de assediadores. Para além de confundir a opinião popular sobre a atuação de coletivos como o nosso, esse tipo de manifestação ofende e desrespeita mulheres que já sofreram episódios de violência e que trabalham voluntariamente para levar informação e apoio a outras mulheres que já foram coagidas, constrangidas, invadidas ou violentadas.

Aproveitamos para reforçar que assédio sexual é a forma mais comum de importunação sexual - ato que virou crime através da Lei 13.718/18 e prevê de 1 a 5 anos de prisão. Configura-se como provocações inoportunas, capazes de criar situações ofensivas, de intimidação ou humilhação a uma mulher. Pressupõe uma conduta sexual não desejada, não se considerando como tal o simples flerte ou paquera.

Nossa luta não retira direitos das mulheres, mas sim, busca a garantia efetiva de direitos constitucionais básicos, como o de ter liberdade de ir e vir em segurança. Em 2020 estaremos tatuando em todas as regiões do país, disseminando e levando nossa mensagem de apoio na própria pele - Não é Não é uma causa, um carimbo de apoio e acolhimento. Neste carnaval, convocamos você a lutar com a gente pelo fim do assédio - use a roupa e o batom que desejar, vai de saia ou de maiô, se pinte, se tatue e, se topar com alguma mulher em situação de perigo, interfira, apoie, acolha.


Mulher, você não está sozinha!

Essa luta é por todas nós :)

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Com a repercussão do caso, o deputado fez uma nova publicação no Facebook.

O movimento feminista conseguiu a proeza de transformar as coisas mais naturais e saudáveis das relações humanas em problemas. Namoro, paquera, cantadas. Tudo isso virou 'assédio'. Para as feministas, a menina que se arruma para sair, com borboletas na barriga para ver o rapaz que lhe causa suspiros, está, em verdade, preparando-se para ser assediada. E se o rapaz então tomar a iniciativa, é estupro! Esse é o ponto que as coisas chegam, agora, com o tal movimento de liberação das mulheres

Nossa sociedade não pode tolerar qualquer tipo de assédio (de verdade) ou violência contra mulheres, crianças e homens. Contudo, o movimento feminista não contribui em absolutamente nada contra a violência. Ao contrário, as feministas e esquerdistas são as primeiras a elogiar políticas de desencarceramento que garantem passe livre a estupradores e aos verdadeiros assediadores. Por isso afirmo: eu luto contra o assédio sexual e contra a violência; não as feministas defensoras de estupradores.

Campanha contra o assédio no Carnaval

A campanha 'Não é Não' contra o assédio no Carnaval, criada em 2017 por um coletivo de mulheres vai chegar, este ano, a 15 estados brasileiros, incluindo Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Piauí, Paraíba e Espírito Santo, que participam pela primeira vez da ação. 

O coletivo distribui tatuagens temporárias com os dizeres 'Não é Não', faz palestras e rodas de conversa para conscientização sobre o tema. Em entrevista à Agência Brasil, a estilista Aisha Jacon, uma das criadoras da campanha, disse que o balanço da ação é positivo. “A gente vê uma adesão super expressiva e entende que o assunto tem de ser tratado. Há uma lacuna”, manifestou. 

Em 2017, foram distribuídas 4 mil tatuagens; no ano passado, esse número evoluiu para 186 mil. Para o carnaval de 2020, a meta é produzir 200 mil tatuagens. Aisha Jacob reconheceu, entretanto, que tudo vai depender da verba que for obtida por meio do financiamento coletivo, pelo site do coletivo. “É preciso que haja mais contribuições de pessoas físicas mesmo”.

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