Municípios

Eleições 2020: a prova dos nove para a centro-direita brasileira

Partidos alinhados com ideais conservadores terão vários desafios para conquistar desempenho semelhante ao que tiveram em 2018

Renata Monteiro Renata Monteiro
Renata Monteiro
Renata Monteiro
Publicado em 02/02/2020 às 6:55
Foto: Agência Brasil
Partidos alinhados com ideais conservadores terão vários desafios para conquistar desempenho semelhante ao que tiveram em 2018 - FOTO: Foto: Agência Brasil
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As eleições municipais de 2020, programadas para ocorrer em outubro, servirão também como uma espécie de prova dos nove para partidos alinhados com a direita, que tiveram um desempenho muito acima da média no pleito de 2018. Para se ter uma ideia do crescimento dessas siglas, apenas o PSL – partido ao qual o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estava filiado quando foi eleito – obteve 10,8 milhões de votos para deputado federal a mais nas últimas eleições do que em 2014. Resta saber, agora, se as agremiações com viés conservador conseguirão manter o fôlego dois anos depois do fenômeno Bolsonaro.

O presidente, que corre contra o tempo para tentar formalizar a criação do seu partido, o Aliança pelo Brasil, até o mês de abril, ainda não anunciou apoio a nenhum candidato a prefeito. Caso não consiga as cerca de 500 mil assinaturas necessárias para a validação da sigla junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesse prazo, ela não poderá participar das eleições desse ano.

Em Pernambuco, recentemente chegou-se a cogitar que Bolsonaro apoiaria a candidatura do ex-governador Joaquim Francisco (PSDB) à Prefeitura do Recife, mas o tucano já deixou claro que não pensa em participar da disputa. Enquanto isso, partidos com ideologia semelhante à que levou o capitão reformado ao poder já trabalham para conquistar o maior número possível de prefeituras e cadeiras em Câmaras Municipais.

Especialistas e lideranças partidárias apontam, contudo, que esses candidatos terão pela frente o desafio de fugir do discurso ideológico que marcou as últimas eleições, para focar na discussão de problemas específicos das cidades, sempre apontando soluções para eles.

Segundo o presidente estadual do PSL, Frederico França, o partido já possui cerca de 25 pré-candidaturas a prefeito postas. Ele conta que como muitos desses postulantes não possui experiência política, a sigla tem investido na capacitação dos quadros, com o objetivo de torna-los competitivos. “A maioria dos pré-candidatos nunca concorreu e há uma avalanche de pessoas que sequer queriam saber de política, mas agora tem um outro olhar dela. Por isso nós estamos tendo um cuidado muito grande com essas capacitações, principalmente com aqueles que são marinheiros de primeira viagem. Às vezes a pessoa está até bem-intencionada, mas por falta de informação acaba prejudicando a candidatura”, detalhou França.

Líder da oposição na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e pré-candidato a prefeito no Recife pelo PRTB, mesmo partido do vice-presidente Hamilton Mourão, o deputado estadual Marco Aurélio Meu Amigo diz que o postulante a prefeito ou vereador que tentar chegar ao poder usando o mesmo discurso de Bolsonaro poderá dar um “tiro no pé”. “Na questão municipal, o que tem que ser discutido pelos candidatos são as propostas. Qual a minha proposta para a cidade, seja o Recife ou qualquer outra? A cidade precisa ser discutida. Eu não acredito que o que aconteceu na campanha de Bolsonaro vá acontecer na campanha municipal. Quem assim o fizer estará dando um tiro no pé”, cravou.

Na avaliação do cientista político Vitor Diniz, os candidatos com discurso mais à direita – que puseram suas caras ao sol muito recentemente, após a ascensão de Bolsonaro – terão também que “perder a vergonha” de se colocarem como tal, sobretudo no Recife. “Eu acho que a direita ainda não perdeu a vergonha de se mostrar como direita no Recife. Eles precisam se colocar e se dizer anti-esquerda. Nessas eleições, a esquerda vai ser forte e, a meu ver, a direita ainda está muito tímida. Falta, inclusive, alguém que aborde o tema da corrupção, Lava Jato. É isso o que a população quer”, detalhou.

Questionado sobre a força que o ex-presidente Lula (PT) ainda exerce sobre o voto dos nordestinos, Diniz afirmou que é necessário reavaliar a influência real do petista. “Apesar da força do PT, ele ainda é o partido mais rejeitado do Recife, com um índice de rejeição que gira em torno dos 50%. O fator Lula nem é mais tão forte assim. Desde João da Costa que o PT não elege um candidato a prefeito na capital do Estado”, lembrou o estudioso.

ESQUERDA

Mas a retomada da polarização de 2018 não deve ser uma bola levantada apenas pelos partidos de direita, avalia o cientista político Tiago Levi. Ele estima, porém, que candidatos conservadores poderão levar vantagem nesse debate, uma vez que estão alinhados com a ideologia do atual presidente da República.

“Eu aposto que haverá uma tentativa de nacionalização do debate eleitoral em alguns municípios, entretanto, eu acho que, em Pernambuco, essa será uma estratégia utilizada mais pela esquerda. Na minha visão, porém, essa é uma estratégia arriscada, pois se nós olharmos o resultado das últimas eleições, sobretudo no primeiro turno, a gente vai ver que a direita ganhou muito espaço, Bolsonaro conseguiu ser o mais votado em cidades como Recife, Jaboatão, Camaragibe, Olinda e também no interior, como Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe, onde ele ganhou no primeiro e no segundo turno”, detalhou Levi.

O cientista político revelou, ainda, que as ações do governo Bolsonaro direcionadas a prefeitos aliados também serão amplamente utilizadas na campanha eleitoral. “O que a direita pode fazer é mostrar que, como o governo federal é mais alinhado ideologicamente à visão deles, eles poderiam ter uma facilidade na captação de recursos para os municípios que outros candidatos não teriam. Um caso bem emblemático é o de Jaboatão dos Guararapes, onde o prefeito Anderson Ferreira (PR) tem um alinhamento com o governo federal e não com o estadual, então ele tende a conseguir muito mais recursos do que o governo estadual, porque não tem uma boa relação com Bolsonaro”, observou Tiago Levi.

Os analistas procurados pela reportagem frisaram, ainda, que o desempenho das siglas de centro-direita dependerá também da criação (ou não) do Aliança pelo Brasil. Vice-presidente estadual do PRTB, Marco Aurélio diz que se o partido do presidente não for criado a tempo, aumentam muito as chances de eleição dos candidatos das demais legendas conservadoras. “Não que eu torça contra, espero que aconteça (a formalização do Aliança), mas acredito que à medida que a linha do tempo for se esgotando, esses conservadores não terão o Aliança pelo Brasil e pode haver uma migração ainda maior para o PRTB. Se o partido não sair, algumas pessoas podem dizer ‘se o partido do presidente não saiu, nós temos o partido do vice, que é aliado, da base, conservador. Vamos pra lá’. A gente pode ter um resultado ainda melhor na eleição, mas independentemente disso, nós estamos rodando, trabalhando, filiando e vamos ter um resultado muito bom no pleito”, afirmou o parlamentar.

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