INVESTIGAÇÃO

"A bomba não foi de uma pessoa só"

À Comissão da Verdade, filhas de Raimundo Gonçalves, acusado pelo atentado no Aeroporto dos Guararapes, afirmam que o pai não foi o único a participar

Carolina Albuquerque
Carolina Albuquerque
Publicado em 18/12/2013 às 6:56
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À Comissão da Verdade, filhas de Raimundo Gonçalves, acusado pelo atentado no Aeroporto dos Guararapes, afirmam que o pai não foi o único a participar - FOTO: Divulgação
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A poeira que encobre o episódio da bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, foi remexida mais uma vez. Movidas pelo sentimento de indignação, as duas filhas de Raimundo Gonçalves de Figueiredo, Raimundinho, apontado como o responsável pelo atentado que matou duas pessoas e deixou 14 feridas, falaram em público pela primeira vez. “Talvez vocês não tenham entendido a nossa indignação até agora. É claro que Zarattini e Edinaldo (acusados do atentado à época da ditadura e só semana passada oficialmente inocentados) têm o direito de se defender. O que eu repudio é colocarem o nome apenas do meu pai como o responsável quando sabemos que não foi uma pessoa só, e não foi só uma facção, mas várias”, disse Iara Lobo Figueiredo, que mora em Brasília. O seu depoimento ontem à Comissão Estadual da Verdade Dom Hélder Câmara acontece uma semana após a divulgação de documento de 1970 da Aeronáutica, no qual é colocado como culpado justamente o seu pai.

A documentação, até então inédita, serviu para tirar o peso da acusação sobre o ex-deputado Ricardo Zarattini e o engenheiro, já falecido, Edinaldo Miranda, presos e torturados por conta do atentado na ditadura militar. Referenda a versão apontada em reportagem do JC, em 1995, em que entrevistas com militantes de esquerda inocentaram os dois.

Porém, o papel que surgiu agora, produzido pelo regime, aponta como autor apenas o nome de Raimundo Gonçalves, militante da Vanguarda Revolucionária Popular (VPR), que foi morto em emboscada militar em 1971. Seu corpo nunca foi encontrado. O atentado permanece como tabu na esquerda, uma vez que a versão de mais força é a de que foi orquestrado por militantes, ainda que isoladamente, da VPR, Ação Popular e PCdoB. Na reportagem do JC, entrevistas com líderes de esquerda, em reserva, levaram aos nomes de Paulo Guimarães, Felícia Frazão, Haroldo Lima, o ex-padre Alípio de Freitas, Zenóbio Vasconcelos – somente os três últimos estão vivos. Desses, apenas Raimundo é citado de público como autor.

“Não estou dizendo que ele não participou, muito provavelmente deve ter participado e não tenho vergonha disso. Não tenho vergonha do meu pai, mas orgulho. Se eles erraram, erraram como qualquer outro aqui dentro. Agora, não nos cabe falar quem foi”, disse Iara. Bastante emocionada, ela leu uma carta, assinada por ela e sua irmã, Isabel Lobo Figueiredo. Elas voltaram atrás da decisão de falar em reserva para a Comissão. Apesar de se tratar de um assunto doloroso, precisavam expor o caso. 

Sem citar nomes, Iara classificou como “covarde” a atitude de permanecer calados daqueles que se envolveram com o atentado e estão vivos. “Acreditamos que a covardia com que nosso pai foi tratado até hoje tem reflexo na cultura da nossa esquerda, que está perdida”, desabafou. Isabel, que não pôde falar na audiência por não ter sido convocada oficialmente, falou da tristeza de ver seu pai ser o único associado ao atentado. “Acho que essa postura de culpar somente nosso pai é o que deixa mais triste porque dificulta a paz na nossa família e na família das pessoas que morreram nesse ato”, confessou. As vítimas da bomba foram o jornalista Edson Régis de Carvalho e o vice-almirante reformado Nelson Gomes Fernandes.

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