Crise política

Para analistas políticos, Brasil carece de lideranças nacionais

Avaliação é de que nem governo e nem a oposição atraem os eleitores

Franco Benites
Franco Benites
Publicado em 19/03/2016 às 12:03
Bobby Fabisak/JCImagem
Avaliação é de que nem governo e nem a oposição atraem os eleitores - FOTO: Bobby Fabisak/JCImagem
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Quase dois anos após viver uma euforia nacional com a realização de uma Copa do Mundo em seu território, o Brasil encontra-se em um delicado momento político que coloca o governo e a oposição no mesmo patamar perante a população. As manifestações do último dia 13 atingiram a presidente Dilma Rousseff (PT) e a seus aliados, mas nem por isso pouparam os principais nomes da oposição, também criticados nos atos realizados pelo País na seta-feira passada (18). Para especialistas ouvidos pelo JC, o reflexo mais visível da atual crise política é a ausência de lideranças que consigam dar um “freio de arrumação” aos problemas e capitanear o País.

“Não enxergo saída. Um acúmulo de crises tornam a presidente cada vez mais distante de uma boa conclusão para o meio e o final de seus mandato e não há oposição capaz de aproveitar a fraqueza da presidente. Não há unanimidade das oposições. O PMDB e o PSDB, por exemplo, estão divididos. Os partidos não têm acesso à massa, que está cada vez mais afastada da política”, atesta o professor de Filosofia e Ética da Universidade de Campinas (Unicamp), Roberto Romano.

A incapacidade política do governo e da oposição também é ressaltada pelo cientista político pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), Nuno Coimbra Mesquista. “O governo não consegue estabelecer uma agenda, mas por outro lado não há forças políticas na oposição que tenham conseguido se organizar. Ainda que as manifestações do dia 13 tivessem foco no PT, parece que setores da sociedade não enxergam os políticos de oposição como seus representantes”, avalia.

Para Nuno Coimbra Mesquita, o governo tem os seus pecados, mas a oposição não fica atrás e por isso recebe a indiferença de parte dos eleitores. “A oposição não formou base de apoio e atuou só nos anos em que houve eleições. Os oposicionistas tiveram dificuldades de construir um discurso alternativo à Era Lula”, afirma.

O cientista político Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também vê o cenário político atual de forma negativa. “Não enxergo saída para o governo, que está em um estado terminal. Mas a crise é da classe política porque boa parte da população não confia em políticos. O PT está sendo contestado e perdeu prestígio, mas as pessoas não têm admiração por outros partidos”, avalia.

O PSB, que advogou para si o posto de terceira via com o ex-governador Eduardo Campos e depois com Marina Silva, hoje na Rede, também não teria espaço junto aos eleitores. “Marina e o PSB fazem muito pouca diferença. O partido perdeu um pouco da áurea de centro-esquerda que podia ajudar a atrair militantes da esquerda ligados ao PT. Hoje, temos líderes que não se encaixam em partidos e partidos que perdem líderes”, adverte Roberto Romano.

LAVA JATO GERA DESCONFIANÇA - O avanço da Operação Lava Jato tende a agravar o nó da política brasileira. Cada vez mais, a investigação federal conduzida pelo juiz Sérgio Moro tem dado mostras de que fechará o cerco a lideranças de diversos partidos e pode reforça o desgosto da população pela política. Uma prova disso é a delação do senador Delcídio Amaral (sem partido-MS). Em seu depoimento, aberto ao público na semana passada, ele citou figuras variadas como a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, ambos do PT, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). O ex-governador Eduardo Campos, falecido em 2014, também foi lembrado.

Esses e novos personagens podem surgir em novas delações premiadas, a exemplo da que o pernambucano Pedro Corrêa fará. A depender do que se diga, os planos do impeachment da presidente Dilma ou do pós-impeachment, caso ele se concretize, podem mudar. “Os membros do PT dizem que a Lava Jato está protegendo os demais, mas a oposição também está ameaçada e não tem planos para o day after. Todos dependem da Lava Jato”, afirma o professor de Filosofia e Ética da Universidade de Campinas (Unicamp), Roberto Romano.

Devido aos últimos acontecimentos, a atenção de governistas e oposicionistas estará cada vez mais voltada para a Lava Jato. “Se novos atores vierem a ser denunciados na Lava Jato isso pode segurar o processo de impeachment”, opina o cientista político Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O especialista enfatiza que a saída da presidente, seja por renúncia, impeachment ou cassação do mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não terá o poder de tranquilizar o ambiente político nacional de forma automática já que a Lava Jato também pode implicar de forma contudente o vice-presidente Michel Temer (PMDB) e outros políticos interessados na queda de Dilma.

Além dessas questões, entrou em cena a possibilidade do País aderir ao parlamentarismo. A proposta foi feita pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) no último dia 9. Para o diretor da Faculdade de Direito do Recife, a medida é inviável e não contribui para dar melhores rumos à política nacional. “A instalação do parlamentarismo fere a cláusula pétrea da Constituição já que houve uma consulta sobre o assunto em 1993 e se escolheu o presidencialismo. Além do mais pegue o rol de parlamentares e veja quantos têm problemas no Supremo Tribunal Federal”, analisou.

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