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Igor Maciel: Nas eleições 2020, escolher vereador por apoiar Bolsonaro ou Lula é ignorar problemas locais

''Nacionalizar os argumentos das eleições municipais, as mais localizadas e regionais que temos, é um risco ao futuro do País''. Leia o comentário de Igor Maciel

Igor Maciel, da coluna Pinga-fogo
Igor Maciel, da coluna Pinga-fogo
Publicado em 01/01/2020 às 6:30
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Foto: ABr e Brenda Alcântara/JC Imagem
O grupo dos "nem Bolsonaro, nem Lula" é heterogêneo, com mais divergências do que a convergência de ser contra o PT e o atual presidente - FOTO: Foto: ABr e Brenda Alcântara/JC Imagem
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Igor Maciel*

A sensação impressa na mente de cada um de nós que trabalha com política é que 2019 teve, no mínimo, uns 46 meses compactados em 12. Mas, quando o ano atual chegou e bateu à porta há algumas horas, feliz e sorridente como a dizer que está disposto a fazer tudo com mais objetividade caso sejamos receptivos, vê-se logo sua bagagem por trás dos dentes bonitos e dos olhos cheios de esperança. Há ali uma mala imensa, bastante vistosa, colorida, com uma etiqueta escrita: eleições municipais. É uma mala, mas parece um alerta.

São 5.570 prefeituras sendo disputadas, quase 60 mil vagas de vereador espalhadas pelo Brasil e uma notável tendência à nacionalização total dos discursos e dos apelos em busca de votos. Uma temeridade completa, porque nacionalizar os argumentos da eleição mais localizada e regional que temos é um risco ao futuro do País. Escolher um vereador por ele ser de direita ou esquerda, por ele apoiar Bolsonaro ou Lula, é ignorar problemas importantes nas cidades. O que importa o vereador e o prefeito serem de esquerda ou de direita se em vários bairros do Recife não tem saneamento e as crianças andam pisando no esgoto que sai das casas? O que importa um vereador de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, apoiar Bolsonaro ou Lula, se não chega água ao bairro do Salgado ou se não há moradias para as famílias?

Sejamos honestos, os vereadores repetem sempre que são os políticos mais próximos da população, os prefeitos vivem reclamando que são os chefes de executivo na ponta de todos os problemas do País. Quando esses atores resolvem nacionalizar prioritariamente o discurso, resumindo as questões eleitorais ao que é feito longe daqui, estão em pleno processo de fuga covarde daquilo que não sabem como resolver. É uma admissão natural de incompetência e um subterfúgio indecente. É quase zombar da população que gasta uma fortuna com a manutenção dessas estruturas administrativas tirando do próprio suor os salários e benefícios que eles recebem ao longo de quatro anos e para quem não importa a cor do partido ou a identidade ideológica de ninguém.

A paixão política é o que é qualquer paixão, um composto explosivo, mas raso, focado no texto e despido de qualquer entendimento sobre contexto e racionalidade que lhe entreguem a garantia de um longo prazo com o mínimo de estabilidade. A argumentação pode parecer cretina, é verdade, tamanha a utopia da proposição, mas a missão de um político que se propõe à liderança séria e ao franco desenvolvimento da sociedade em que está inserido deveria ser a apresentação de soluções e não o incentivo a esse tipo de paixão ideológica, muito menos com o objetivo de ganhar votos ou apoio partidário, sem traduzir-se em compromisso concreto nenhum que não seja a manutenção de uma posição frágil e facilmente permutável. O nome disso é canalhice.

Neste primeiro dia do ano em que as cidades escolherão seu gestores e representantes legislativos, cabe reforçar, ainda, o necessário papel da imprensa, dos formadores de opinião e dos diversos segmentos da sociedade na missão de chamar o feito à ordem, até o pleito, cobrando dos políticos propostas que encontrem as dificuldades em sua fronte. Quais deverão ser as prioridades de cada município? O incentivo à economia local, ordenação urbana, infraestrutura viária, moradia, mobilidade, saneamento, segurança, acesso à água potável, uma lista quase interminável de problemas que precisam de solução poderia ser disposta aqui, facilmente. Afastar-se dessa lista não é honesto. Quando os atores da sociedade que deveriam incentivar e cobrar esses debates importantes caem na armadilha do antagonismo barato proposto, cumprem grande desserviço e tornam-se cúmplices de seu resultado abjeto e vil.

Ao abrir a casa para receber o ano de 2020, neste seu primeiro dia, é preciso perguntar ao ser sorridente à porta sobre essa mala bonita, colorida e cheia de vida em que está escrita a palavra Eleições. Mesmo grande e chamativa, é possível que ela esteja totalmente vazia e não traga nada de novo para a sua já humilde residência. Então, será preciso ser inteligente para perceber que viajar com alguma mala vazia é estratégia de quem pretende preenchê-la com algo que só vai encontrar no destino. Político que não traz nada de produtivo para a sociedade, certamente está apenas querendo levar algo com ele e para ele quando for embora.

*Igor Maciel é colunista do Jornal do Commercio

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